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Crise angolana afeta imprensa portuguesa

João Carlos (Lisboa)11 de dezembro de 2015

O encerramento do grupo angolano Newshold, que publica os jornais Sol e i, vai levar ao despedimento de 120 pessoas. Investigador considera que se está perante um declínio do investimento angolano na comunicação social.

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Foto: DW/J. Carlos

A administração do grupo Newshold, liderado por Álvaro Sobrinho, ex-presidente do BES Angola, anunciou recentemente a decisão de encerrar aquela empresa detentora do semanário Sol e do diário i, prevendo-se que venha ainda a surgir um projecto totalmente reformulado.

O novo projeto jornalístico apenas acolherá cerca de um terço dos efetivos da atual estrutura. O plano é despedir cerca de 120 pessoas e manter apenas 66 trabalhadores. Na origem do fecho, marcado para 15 deste mês, estão os elevados prejuízos dos dois jornais, que em 2014 somam 8,2 milhões de euros.

A reestruturação dos projetos preocupa o Sindicato dos Jornalistas (SJ), que aponta uma série de ilegalidades no processo. Para Ana Luísa Rodrigues, da direção do SJ, os procedimentos da administração neste processo não são aceitáveis. "Houve uma série de atropelos, de procedimentos contra os quais nos levantamos. Todo o comportamento da administração é algo que nos preocupa claramente", afirma.

Reflexos da crise mundial

A crise que afeta a economia angolana tem, inevitavelmente, reflexos em Portugal, país de economia aberta, cada vez mais dependente do investimento externo. "Se a economia entra em crise, isso vai fazer com que os investimentos em Portugal, nomeadamente na área da comunicação social, também se retraiam", explica o investigador João Moreira dos Santos.

Portugal Joao Moreira dos Santos
João Moreira dos Santos, investigador do ISCTEFoto: DW/J. Carlos

Para o ex-jornalista e académico ligado ao ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (IUL), a crise que afeta a imprensa portuguesa não advém apenas da diminuição da influência do capital angolano. A situação por que passam os referidos jornais é, sobretudo, reflexo da "grande crise" que atinge a imprensa mundial, particularmente em Portugal, onde as tiragens são muito baixas. "Passámos para o digital. As novas gerações esperam não pagar pelos conteúdos e a imprensa está toda a ressentir-se dessa quebra de leitores", lembra João Moreira dos Santos.

Segundo o académico, o investimento angolano tem sido importante porque tem permitido sustentar uma série de projectos em Portugal, "que se calhar de outra forma nem tinham existido ou tinham desaparecido", salienta, mas a questão é mais abrangente e está relacionada com "a mudança de paradigmas no setor da informação."

"Erosão" da comunicação social

A realidade não deixa de ser preocupante, sublinha o investigador, uma vez que se está também perante um declínio do investimento angolano na comunicação social. O cenário apontado pelo académico é o da continuidade de uma crise que afeta sobretudo a imprensa, e não tanto nas televisões, que encontraram formas alternativas de sobrevivência.

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João Moreira dos Santos considera que os casos do Sol e do i são apenas o início de um processo de "empobrecimento" e "erosão gradual" do panorama da comunicação social em Portugal.

Álvaro Sobrinho foi indiciado por branqueamento de capitais no âmbito de um inquérito do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). Recentemente, o Tribunal da Relação de Lisboa criticou a investigação e levantou-lhe um arresto de bens que havia sido decretado pelo juiz Carlos Alexandre.

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