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Encerramento de mesquitas em Angola gera polémica

António Cascais / LUSA28 de novembro de 2013

Já foram encerradas mais de 60 mesquitas, algumas mesmo destruídas, por ordens expressas das autoridades policiais, que alegam terem recebido orientações do Governo angolano.

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Foto: Madalena Sampaio

O Governo angolano nega ter banido o Islão de Angola e encerrado indiscriminadamente templos muçulmanos em todo o país. "Não existe qualquer guerra contra o Islão ou contra qualquer outra religião em Angola", salientou Manuel Fernando, diretor do Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR), afeto ao Ministério da Cultura, em entrevista a agências noticiosas internacionais.

As autoridades de Luanda contradizem assim os muitos artigos publicados nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre o encerramento e destruição de mesquitas, locais de culto da religião islâmica em Angola. As notícias veiculadas causaram perplexidade em todo o mundo e provocaram ira no mundo islâmico.

No Egito, o Sheikh mufti Shawqi Allam disse mesmo que o que está a acontecer em Angola - uma vez confirmado - seria "uma provocação não só para os muçulmanos nesse país mas também para os mais de mil e 500 milhões de muçulmanos em todo o mundo".

Impedido registo de religiões não cristãs

Note-se que não existem dados concretos e fiáveis sobre o número de muçulmanos em Angola. Algumas fontes apontam para entre 80 e 90 mil cidadãos afetos ao Islão. Outras fontes falam de entre 800 e 900 mil muçulmanos, entre uma população total de cerca de 18 milhões, de maioria cristã.

Kirche Angola
A população angolana é maioritariamente cristãFoto: KHALED DESOUKI/AFP/Getty Images

De salientar ainda que os diferentes grupos religiosos em Angola carecem de um registo no Ministério da Justiça. Acontece que o Governo angolano, até à data, acreditou apenas 83 organizações, todas elas cristãs.

Os registos apresentados por outras 194 organizações religiosas foram indeferidos. Uma dessas organizações religiosas, cujo registo foi negado pelo Governo, é a Comunidade Islâmica de Angola (COIA), presidida pelo imã David Já.

Destruição a mando das autoridades

Em declarações à agência de notícias portuguesa Lusa, David Já declara que das 70 mesquistas que existiam, espalhadas pelo país, apenas cerca de 20 continuam abertas, sendo que os primeiros templos começaram a ser fechados em 2006 “em todas as províncias”.

A título de exemplo, “em 2010, queimaram a mesquita do Huambo”. O imã David Já recorda esse momento: “numa tardinha, apareceu o administrador municipal do Huambo e disse que não queria ver mais essa mesquita, ou igreja como ele dizia, e no dia seguinte de manhã encontrámos a mesquita carbonizada, o Alcorão, o tapete queimados. São insensíveis”.

Tag der Offenen Moschee in Berlin
Seguidores do Islão em Angola queixam-se de desrespeito e desigualdadesFoto: picture-alliance/dpa/R. Jensen

Nos últimos tempos, o encerramento das mesquitas intensificou-se, segundo David Já. Apesar de o governo angolano alegar que se trata de obras ilegais, o imã David Já classifica os atos como "intolerância religiosa" e "violação dos direitos humanos".

Alegando que “os direitos humanos são uma garantia constitucional” e que “o ser humano é livre de praticar aquilo que lhe faz bem”, o presidente da COIA contesta a atitude das autoridades.

“Nós existimos aqui há bastante tempo e nunca houve nenhum ato lesivo contra os interesses do Estado, nesse caso o Estado podería ter uma preocupação maior”, considera o imã David Já.

Muçulmanos aguardam reconhecimento

Fontes mais críticas no Governo e na sociedade civil angolana, por sua vez, alertam para os perigos inerentes aos fenómenos religiosos suscetíveis de contradizerem os valores culturais angolanos.

Encerramento de mesquitas em Angola gera polémica

A igualdade de direitos entre homens e mulheres é um entre outros valores que urge preservar, argumentam os defensores de regras mais restritivas ao reconhecimento de comunidades muçulmanas em Angola.

Formada maioritariamente por muçulmanos provenientes da África Ocidental - de países como o Mali, Chade ou a Guiné-Bissau - e por angolanos convertidos, a comunidade islâmica de Angola dispõe de várias associações representativas, para além da COIA do imã David Já. Algumas dessas associações aguardam ainda, calmamente como dizem, o reconhecimento governamental.