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Lucros de livro de Gene Sharp vão para ativistas angolanos

Nádia Issufo / Lusa20 de outubro de 2015

O livro de Gene Sharp que esteve no centro das detenções dos 15 ativistas angolanos vai ser publicado em português. O facto de estarem presos por estarem a ler um livro "merece que a obra seja publicada", diz a editora.

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Foto: Pedro Borralho Ndomba

A editora espera publicar "From Ditactorship to Democracy" (Da Ditadura à Democracia) até ao final do ano. O autor cedeu os direitos de publicação aos familiares dos detidos. Também a editora Tinta da China vai doar as receitas das vendas do livro aos 15 jovens e às suas famílias.

Os jovens angolanos foram presos em Luanda no momento em que discutiam as ideias de Gene Sharp sobre as formas de resistir e combater as ditaduras de forma pacífica, tendo sido acusados de rebelião e de preparem um golpe de Estado.

O livro "From Dictatorship to Democracy" foi publicado em 1993 para o Movimento Democrático da Birmânia após a detenção de Aung San Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz. É a obra de Gene Sharp mais traduzida e divulgada mundialmente.

A DW África entrevistou Bárbara Bulhosa, responsável pela editora portuguesa Tinta da China.

DW África: Por que motivo a Tinta da China decidiu publicar o livro de Gene Sharp em língua portuguesa?

Gene Sharp Autor Alternativer Nobelpreis 2012
As ideias de Gene Sharp têm inspirado dissidentes em países que vivem sob ditadurasFoto: AP

Bárbara Bulhosa (BB): A Tinta da China decidiu publicar o livro agora porque pessoas próximas de Luaty Beirão, nomeadamente Pedro Coquenão e Eugénio pires, vieram propor-nos a tradução do livro.

DW África: Já existe uma data prevista para a publicação?

BB: O livro está em tradução. Queria ver se conseguia ter o livro pronto até ao fim do ano. Se não conseguir, estará certamente no início de 2016.

DW África: O autor do livro "Da Ditadura à Democracia" cedeu os direitos de publicação aos familiares dos jovens detidos. Também a editora Tinta da China vai doar as receitas das vendas da versão em língua portuguesa aos familiares dos ativistas. Para além da vossa função de editora, envolvem-se também em causas desta natureza – neste caso, de apoio aos jovens ativistas. Pode falar-nos desta combinação?

BB: Eu sempre defendi que um editor é também um agente de divulgação cultural e neste caso pode ser. Ao longo da História, os editores foram muitas vezes responsáveis pela publicação de livros que mudaram as coisas e fizeram sentido, tentando, de alguma forma, divulgar textos que são pertinentes ou que o editor acredita que são pertinentes para o público em geral. Eu sempre defendi isso enquanto editora. Publiquei um livro de denúncia de violações de direitos humanos na China. Publiquei o livro de Rafael Marques sobre os diamantes em Angola ("Diamantes de Sangue – Corrupção e Tortura em Angola"). À partida, acho que um editor também tem essa função.

Bárbara Bulhosa
Bárbara Bulhosa, responsável pela editora Tinta da ChinaFoto: Maria Mendes

Neste caso, a situação é bastante dramática. Nas ditaduras, ao longo da História, uma das características comuns é proibir ou queimar livros. Acho que em pleno século XXI estarem 15 pessoas presas por estarem a ler um livro só por si merece que este livro seja publicado, para que todos possam perceber o que estava dentro desse livro e até que ponto esse livro é subversivo.

No fundo, o livro é um guia de passagem de regimes autoritários e ditatoriais para democracias, sem violência. Não é mais do que isto. Este livro é de 1993 e tornou-se numa referência porque muitos movimentos revolucionários pacíficos têm lido e têm discutido este livro, nomeadamente nas primaveras árabes. O facto de estes jovens estarem presos neste momento por estarem a ler e a discutir um livro parece-me uma situação bastante sinistra.

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