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A crise da social-democracia europeia

22 de janeiro de 2018

Na Alemanha e em quase toda a Europa, os partidos social-democratas perdem votos e relevância política. Para analistas, origens desse fenômeno estão na guinada ao centro proposta pela chamada Terceira Via.

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Social-democratas alemães durante congresso sobre coalizão com Merkel
Social-democratas alemães durante congresso sobre coalizão com MerkelFoto: picture alliance/dpa/K. Nietfeld

A social-democracia europeia está em crise. Na Alemanha, o SPD perde votos a cada eleição. Na mais recente, a de 2017, angariou apenas 20,5%, cinco pontos a menos que em 2013 e bem distante dos 40% de décadas atrás, que lhe valiam a alcunha de Volkspartei, ou partido do povo. Na França – ao lado da Alemanha o outro grande motor político e econômico da União Europeia – a situação é catastrófica: depois do desastre que foi o governo de François Hollande, o PS conquistou apenas 6% dos votos em abril. Na Holanda, a queda também foi dramática: apenas 5,7% na eleição de março passado, ante 24,8% na anterior. Na Itália e na Espanha, para citar apenas alguns, a tendência também é de queda.

Parte da explicação para essa situação está nas mudanças sociais que afetaram o eleitorado tradicional da social-democracia. Nos países industrializados, o antigo proletariado industrial sindicalizado deu, em grande parte, lugar a uma classe trabalhadora que vive de subempregos e contratos de curta duração – isso quando tem emprego. Muitas dessas pessoas são jovens que nunca conheceram a estabilidade de uma ocupação fixa. Consequências decorrentes dessa situação são a insegurança em relação ao futuro, o medo – da globalização, dos imigrantes – e o ódio das classes dominantes, os "lá de cima", os responsáveis por tudo isso.

Tony Blair e Gerhard Schröder em foto de 1999
Tony Blair e Gerhard Schröder propuseram a renovação da social-democracia no fim dos anos 1990Foto: picture-alliance/dpa/J. Eggitt

Na França essa situação foi especialmente observável na eleição passada. Ao menos nas urnas, Marine Le Pen se converteu na principal representante da classe trabalhadora, daqueles que não têm emprego e têm medo que os imigrantes os impeçam de ter e daqueles que têm emprego e têm medo de que a globalização – reconhecível no fechamento de fábricas, que se mudam para países de mão de obra barata – os deixem desempregados. No primeiro turno, Le Pen foi a mais votada pela classe operária, com 37% dos votos. Aí estão muitas pessoas que antes votavam na social-democracia.

A outra parte da explicação é que a social-democracia se tornou parte dos "lá de cima" nas últimas décadas. Analistas políticos veem o ponto de virada desse processo na Terceira Via proposta pelo sociólogo britânico Anthony Giddens no fim dos anos 1990. Era, nas palavras deles, a renovação da social-democracia. A execução prática desse ideário está melhor representada no New Labour de Tony Blair e na Agenda 2010 de Gerhard Schröder, que em grande parte liberalizou o mercado de trabalho e facilitou os contratos de curta duração. É com a Terceira Via que se declara obsoleta a oposição entre direita e esquerda, e a social-democracia europeia passa a se definir como centro-esquerda.

Para os críticos, o resultado desse processo foi o surgimento de um "consenso de centro", no qual se oferecia aos eleitores apenas duas opções: a centro-direita e a centro-esquerda, que se alternavam no poder ou até mesmo poderiam governar juntas, tamanhas as semelhanças. Por algum tempo funcionou. O primeiro golpe no consenso foi a crise financeira e econômica de 2008. O segundo foi a crise dos refugiados de 2015.

Para a cientista política Chantal Mouffe, a falta de alternativas decorrente do "consenso de centro" está na origem de muitos dos problemas políticos atuais na Europa, como o descrédito das instituições democráticas e o sucesso dos partidos populistas de direita. Pode-se acrescentar ainda, como efeito do consenso, o surgimento de concorrentes aos partidos social-democratas, como o Podemos na Espanha e a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon. Erguendo velhas bandeiras da esquerda, eles deixam claro, por contraste, como os velhos partidos social-democratas perderam seu perfil.

Mouffe critica, ainda, a ideia de que deva existir um consenso numa democracia. Citando Maquiavel, ela lembra que, dentro de uma sociedade, existem interesses e posições inconciliáveis, e o objetivo de uma democracia pluralista não é a busca do consenso, mas permitir que o dissenso se expresse, sabendo que existem posições sobre as quais não haverá acordo. "Quanto à social-democracia, o desvio rumo à centro-esquerda foi fatal, e ela entrou em crise em quase toda a Europa", afirma Mouffe.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.