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Alemães temem por empregos após fusão Sanofi-Aventis

Neusa Soliz26 de abril de 2004

Da fusão da Sanofi com a Aventis, no valor de 54 bilhões de euros, surgirá a maior indústria farmacêutica da Europa. Os 9 mil funcionários da Aventis na Alemanha temem por seus empregos e pelo modelo da co-gestão.

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O vencedor da disputa: Jean-Francois Dehecq, presidente da Sanofi-SynthélaboFoto: AP

O grupo teuto-francês Aventis aceitou a nova oferta do rival Sanofi-Synthélabo, encerrando uma disputa que se estendeu por mais de três meses. Com isso, deu sinal verde para a fusão das empresas – uma das maiores do mundo, no valor de 54 bilhões de euros.

O novo gigante farmacêutico

Da união da grande Aventis com a pequena Sanofi-Synthélabo surgirá a maior indústria farmacêutica européia, a Sanofi-Aventis, com um faturamento aproximado de 25 bilhões de euros por ano e cerca de 110 mil funcionário. Ela será a terceira do mundo, após a Pfizer americana e o grupo britânico GlaxoSmithKline.

Ao engolir o concorrente, Sanofi conta com sinergias de 1,6 bilhão de euros até 2006. Os sindicalistas bem sabem: onde tem fusão e sinergia, dançam empregos. Apenas nove mil dos 69 mil funcionários da Aventis trabalham na Alemanha. Com a fusão, eles temem a transferência de parte desses empregos para a França. O Sindicato dos Químicos vai também à luta para manter o modelo alemão de co-gestão.

Aventis und Sanofi
Colagem de fotos dos edifícios das duas empresas

"Nos últimos meses, as duas empresas empregaram um bocado de energia em se combaterem. Agora se trata de construir uma nova empresa com a mesma energia", disse o presidente da Aventis, Igor Landau, nesta segunda-feira (26).

Landau resistiu, mas não conseguiu evitar que Golias fosse engolido por Davi. Consta que ele estaria disposto a entregar o cargo por uma indenização de 24 milhões de euros. A Sanofi-Aventis será comandada por Jean-François Dehecq, presidente da Sanofi-Synthélabo.

Crescer senão o bicho pega

Dehecq oferecera inicialmente 60,4 euros por ação da Aventis em janeiro, o que os analistas consideraram muito abaixo do valor real do grupo surgido em 1999 da fusão da Hoechst alemã com a Rhône-Poulenc francesa. A segunda oferta, 14% superior, foi aceita na noite de domingo (25) pela presidência e o conselho administrativo da Aventis. Ela prevê uma troca de cinco ações da Sanofi por seis da Aventis e mais 120 euros em dinheiro.

Para financiar a transação, a Sanofi levantará um crédito de 16 bilhões de euros. Uma assembléia geral extraordinária foi convocada para 24 de maio. Os dois maiores acionistas da Sanofi, a indústria de cosméticos L'Oreal e a companhia petrolífera Total, apóiam a oferta.

Ao contrário do chanceler federal alemão, Gerhard Schröder, que não se intrometeu na disputa entre as duas empresas, o premier francês, Jean-Pierre Raffarin, fez de tudo para que a fusão de consumasse. Principalmente depois que entrou mais um concorrente na jogada, a Novartis suíça, que há poucos dias anunciara o início de negociações com a Aventis. Uma jogada tática da Aventis para forçar os franceses a pagarem mais? Provavelmente.

A Sanofi partiu do princípio de que a melhor defesa é o ataque. Crescer, para ela, era uma questão de sobrevivência: se não engolisse a Aventis, seria engolida por algum concorrente maior. Embora a Aventis seja muito maior em termos de faturamento, ambas tinham aproximadamente o mesmo valor de mercado.

Schröder irritado com intevenção francesa

Jean-Pierre Raffarin
Primeiro- minister francês, Jean-Pierre Raffarin interferiu nas negociações da fusãoFoto: AP

Raffarin defendeu a fusão nesta segunda-feira, dizendo que a imiscuição do governo francês nas negociações não foi "uma intervenção nacional", sendo produto de uma "dinâmica européia". "Desejamos que se formem grandes pólos de uma política industrial verdadeiramente européia", declarou o primeiro-ministro francês após um encontro com presidentes de grandes indústrias.

"Precisamos de estratégias reais de parceria, sobretudo de cooperações teuto-francesas", disse ainda o político, citando a Siemens, que estaria interessada em "projetos importantes", que o premier não especificou. Isso representaria uma transposição do bem-sucedido eixo político Berlim-Paris para a política industrial.

Para o governo alemão, o parque industrial de Frankfurt saiu fortalecido com a fusão, nas palavras do porta-voz do governo alemão, Bela Anda, o único a se pronunciar oficialmente.

Mas em entrevista ao diário francês Libération, Schröder teria se mostrado irritado com a intervenção de Paris. Os políticos devem se manter neutros nas decisões empresariais, na sua opinião.

Empregos e co-gestão

É justamente essa neutralidade de Schröder que irritou a oposição democrata-cristã na Alemanha. O chanceler não podia ter cruzado os braços, deveria ter feito mais lobby para Frankfurt e em prol da manutenção de empregos na Aventis, reclamou o governador Roland Koch, citado pela versão online do Spiegel.

O maior temor dos nove mil funcionários da Aventis e do conselho de fábrica na Alemanha é a transferência de empregos para a França, principalmente no setor de pesquisa e desenvolvimento. A direção da Sanofi reiterou várias vezes que não pretende cortar empregos na Alemanha, mas os funcionários querem ver tal garantia formalizada por escrito.

Enquanto isso não acontecer, os protestos continuarã, revelou um representante do Sindicato dos Químicos. Ele também pretende lutar para que os direitos de co-gestão vigentes na Aventis também sejam adotados pela Sanofi-Aventis.

A bolsa não recompensou a fusão: a ação da Sanofi perdeu 7% em Frankfurt, a Aventis, 5,5%. Só a concorrente suíça saiu ganhando: a ação da Novartis subiu 4%.