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A arte no carvão

Mark Mattox (sv)7 de setembro de 2008

Grupo de artistas da Alemanha, França e Polônia participa de projeto comum sobre zonas mineradoras (em atividade ou não) nos seus países de origem.

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Transformar o carvão em arte: preservando a memória industrialFoto: dpa

A fábrica de coque Hansa, localizada somente a seis quilômetros de Dortmund, no noroeste alemão, suspendeu suas atividades há 16 anos, depois de ter sido a maior produtora de carvão do país. Em 1997, o local passou a ser administrado pela Fundação de Preservação de Monumentos Industriais. Hoje, as instalações estão intactas como nos tempos de alta produção, só que com máquinas silenciosas e nenhuma fabricação de carvão.

O coque é uma massa de carbono que se obtém do carvão, produzido através do aquecimento do mesmo a mais de 20 mil graus celsius, em fornos isentos de oxigênio, por 20 horas consecutivas. Os pedaços de matéria carbonizada resultantes são geralmente usados como combustível na produção industrial de ferro metálico.

Preservar a história

Kokerei Hansa
Exposição COAL resgata passado de exploração do carvãoFoto: Klaus-Peter Schneider

No passado, a fábrica empregava em Dortmund mais de mil funcionários. Embora preservar uma relíquia industrial possa parecer uma idéia estranha para alguns, essas instalações são um meio importante de lembrar o passado, afirma Meike Kieslich, porta-voz da fundação que preserva o local.

"Muita gente gostaria de remover tais instalações, mas elas são parte da nossa história e por isso temos que preservá-las. Caso contrário, vamos perder essa história", diz Kieslich. A fábrica abriga, no momento, uma exposição inusitada de artes intitulada COAL (Carboniferous to Open-eyed Artists on Landscape).

Um total de 18 artistas – seis alemães, seis franceses e seis poloneses – passaram uma semana nas regiões de minas de carvão de seus países de origem. Em busca de uma forma de usar o carvão como inspiração para a arte, a pesquisa os levou a se aprofundar tanto nas minas propriamente ditas, quanto na situação das três comunidades onde estão localizadas, nos países respectivos.

Carvão musical

Kokerei Hansa
Fábrica de carvão Hansa, em Dortmund: testemunho de uma épocaFoto: Manfred Vollmer

Os franceses Cléa Coudsi e Eric Herbin, de Lille, deram voz a 14 nacos de carvão na obra The Black Noise. Os pedaços de carvão foram recolhidos em minas na França, Alemanha e Polônia, e então colocados sobre bastões ligados a pequenos motores. O carvão é atrelado, através de um pedaço comprido de metal, a um pequeno alto-falante, que cria uma espécie de "sinfonia carbonífera".

Coudsi e Herbin inspiraram-se em cientistas chineses, que usam um método semelhante para ouvir as pessoas da dinastia Ming através de vasos. "A idéia surgiu porque os pedaços de carvão eram tão antigos que há gerações e gerações dentro deles", diz Herbin.

O projeto toca num assunto particularmente próximo a Herbin. Crescido numa região de mineradoras em Nord-Pas de Calais, muitos de seus parentes, inclusive seu avô e vários de seus tios, passaram as vidas trabalhando nas minas. Quando ele contou à sua família sobre o projeto, alguns reagiram orgulhosos e outros intrigados. "Alguns me perguntavam por que eu estava querendo descer a uma mina e diziam que isso não faz sentido", conta o artista.

Passado de uns, futuro de outros

COAL Ausstellung
Instalação 'Black Noise', de Eric Herbin e Cléa CoudsiFoto: Piotr Muschalik

Diferente da situação nas regiões visitadas pelos artistas na França e na Alemanha, as minas de carvão na região polonesa da Alta Silésia continuam em pleno funcionamento. Esta foi a experiência mais impressionante para Szymon Gdowicz, um artista de Katowice, na Polônia. "Ver as minas abandonadas na Alemanha e na França, cobertas de flores e árvores, foi como estar vendo o futuro do nosso país. Um dia tudo estará como na Alemanha e as fábricas de carvão serão fechadas", diz Gdowicz.

As diferenças entre a forma como cada país lida com o carvão e usa as minas levou à idéia de fazer uma exposição de artes a respeito, contam Ute Schmidt e Richard Ortmann, do centro cultural Neuasseln, em Dortmund. Depois de viajar pela região mineradora na Polônia, eles detectaram que algo que faz parte do passado deles poderia, ao mesmo tempo, pertencer ao futuro de outras pessoas.

"A exposição foi baseada na idéia de que os artistas envolvidos no programa estariam aptos a ver os mesmos lugares e passar pelas mesmas experiências, transformando-as em arte", diz Schmidt. A mostra já passou pela Polônia e será inaugurada no próximo mês em Dortmund, de onde segue para Lille.