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As rígidas regras do mundo dos brinquedos

Kay-Alexander Scholz / sv4 de maio de 2004

Na Alemanha, brinquedos e livros infantis carregam a indicação da idade adequada para o consumidor mirim. O desempenho deste nas escolas do país é tido como deficiente, mas papais e mamães de plantão afirmam o contrário.

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Como funciona isso, mamãe?Foto: AP

Estava tudo espalhado pelo chão: dúzias e dúzias de peças na cor cinza, aparentemente homogêneas, destinadas à construção da estação espacial ISS. No meio delas, um pirralho de pouco mais de cinco anos.

Os adultos ao redor elucubrando: será que o presente de aniversário havia sido um exagero? Não, uma rápida olhadela na embalagem do produto confirmava: “Para crianças acima de quatro anos”. E realmente: antes que se passasse uma hora, a estação espacial estava pronta. E os adultos, em torno, pasmos: será que nós, nessa idade, também teríamos conseguido?

Brinca-se como se vive

Eine Mitarbeiterin des dänischen Spielzeug-Herstellers Lego
Funcionária do fabricante de brinquedos LegoFoto: AP

Para acalmar os ânimos: a fabricante de brinquedos Lego, líder de mercado no segmento de sistemas de encaixe, observa que uma maior habilidade técnica das crianças de hoje nada tem a ver com um maior ou menor grau de inteligência das mesmas.

Siegrun Biebertaler, assessora de imprensa da Lego, afirma que os meninos e meninas de hoje são simplesmente muito mais treinados para lidar com aparelhos eletrônicos, graças, por exemplo, ao uso corrente de celulares e computadores. Segundo Biebertaler, a presença high tech no quarto das crianças seria, nesse sentido, até bem-vinda, pois “quanto mais óbvio se torna o contato com a técnica, melhor será a capacidade posterior da criança de brincar com sistemas de encaixe”.

Ambição dos adultos

Kind im Garten
Foto: BilderBox

Todos os fabricantes de brinquedos na Alemanha testam seus produtos previamente e os classificam de acordo com faixas etárias: De zero a três, quatro, seis e oito anos são as indicações mais comuns. Estas não estão relacionadas apenas à “maturidade” pedagógica das crianças, mas principalmente às diretrizes de segurança. O principal certificado de segurança no país, que carrega as iniciais CE, garante que um carrinho de brinquedo ou uma casa de bonecas, por exemplo, respeitam a norma européia EN-71.

Entre os quesitos avaliados, estão a vulnerabilidade do produto ao fogo (inflamáveis ou não), a segurança dos brinquedos eletrônicos e aditivos químicos eventualmente presentes. Ou até mesmo a observação de que o brinquedo seria muito pequeno para a “norma da boca européia”, logo, liberado apenas para crianças acima dos três anos.

Muitos pais, no entanto, vêem as indicações de idade nas embalagens dos brinquedos como simples marcas a serem desrespeitadas. Avós, por exemplo, são especialistas em estimar seus próprios netos como mais inteligentes, mais avançados e mais rápidos que outras crianças, comenta Gisela Kupiak, do fabricante de brinquedos Playmobil. Nessa, vovôs e vovós acabam não percebendo que crianças sobrecarregadas acabam com freqüência frustradas.

Por outro lado, já houve o caso de um avô que se desesperou porque seu neto de cinco anos não conseguia lidar com um brinquedo destinado a crianças acima de quatro anos. Preocupado, ele começou a duvidar se seu neto apresentava um déficit de desenvolvimento. A resposta de Kupiak é clara: cada criança se desenvolve de forma distinta.

Às vezes, o retorno que os fabricantes de brinquedos recebem de seus clientes pode ser enganoso, pois pais orgulhosos da capacidade dos filhos costumam entrar com mais freqüência em contato com as empresas do que aqueles que acreditam que seus filhos não são “espertos” o suficiente.

Infância rápida

Apesar disso, uma mudança de comportamento pode ser observada: as crianças de hoje crescem rapidamente. Pesquisas encomendadas pela Federação Alemã de Fabricantes de Brinquedos mostraram que as crianças atualmente brincam apenas até aproximadamente os dez anos de idade. Quem ultrapassa essa idade, já começa a ser encaixado na categoria adolescente. E passa a acreditar que “brincar” não é cool.

Essa fronteira que separa a infância da adolescência pode ser tornar ainda mais fluida no caso do uso do computador. O fabricante de brinquedos Fischertechnik já oferece sistemas com os quais as crianças podem criar pequenos programas de software. A questão fica no ar: será que isso ainda pode ser chamado de brincadeira?!

Essa é uma das questões lançadas pela Associação Spielgut, de Ulm, que oferece consultoria de cientistas e pedagogos ao consumidor. Segundo os especialistas, pode ser registrada uma redução na qualidade dos brinquedos nos últimos tempos.

Muitos destes apelam hoje para o princípio “construir imitando”, em detrimento do inventar. Com isso, a brincadeira acaba se tornando menos complexa e menos autônoma, levando a uma perda de experiências essenciais para o desenvolvimento da criança. As conseqüências disso podem vir a ser sentidas mais tarde, por exemplo, no aprendizado da leitura.

Leitura lúdica

Pixibücher Ausstellung in Troisdorf bei Bonn
Foto: AP

Nas editoras alemãs, especialistas decidem, da mesma forma como os fabricantes de brinquedos, a idade do consumidor alvo. Provavelmente em conseqüência de um estudo comparado dos sistemas de ensino nos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os pais alemães passaram a demonstrar uma predileção por livros que contenham a recomendação “indicado para ser lido em voz alta para crianças”, observa Maria Rutenfranz, da editora Deutscher Taschenbuchverlag. Segundo o estudo, conhecido por sua abreviatura PISA (Programme for International Student Assessment), o desempenho das crianças alemãs nas escolas não tem sido dos melhores.

Atrás do afã de ler histórias para os pequenos ouvirem, esconde-se a esperança de que eles se acostumem ao hábito da leitura. Uma outra tendência do mercado editorial são as leituras para os iniciantes já com vocábulos em inglês, pois um número cada vez maior de jardins-de-infância oferece aulas do idioma antes mesmo da primeira série. “A linha que separa a escola da pré-escola tem se tornado cada vez mais tênue”, comenta Rutenfranz.

A idade com que as crianças aprendem a ler é também cada vez menor. A atenção especial dada pelas editoras aos pequenos leitores é, diga-se de passagem, um avanço dos últimos 20 anos. Desde então, há um “sistema de cores” nos livros infantis, segundo o qual os pais podem se orientar para comprar livros para seus filhos, de acordo com as indicações de faixa etária fornecidas pelas editoras. Resta saber: será que ainda dá para ter vontade de ler e fazer bagunça em uma infância tão bem programada?