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Liberdade de imprensaGlobal

Como frear a violência contra jornalistas?

Sonya Angelica Diehn
13 de maio de 2022

Morte de repórter palestina soma-se a outros 28 óbitos contabilizados somente em 2022. Que proteções internacionais existem e o que pode ser feito para tornar o mundo mais seguro para a imprensa?

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Fotógrafo com colete de imprensa
Jornalistas são cada vez mais alvo de ataques em todo o mundoFoto: Rafael Ben-Ari/Chameleons Eye/Photoshot/picture alliance

Para manter a liberdade de imprensa, que é essencial para a democracia, jornalistas devem ser capazes de executar seu trabalho com segurança. No entanto, profissionais da mídia enfrentam cada vez mais perigos e até mesmo a morte, particularmente em zonas de conflito e em alguns países do mundo.

A palestino-americana Shireen Abu Akleh, uma veterana correspondente da Al Jazeera, foi baleada fatalmente na quarta-feira (11/05) enquanto cobria uma incursão militar israelense na Cisjordânia. Seu colega Ali Samoudi também foi baleado nas costas, de acordo com a Al Jazeera. Não ficou imediatamente claro de onde vieram os tiros.

Além de Abu Akleh, outros 28 trabalhadores da imprensa foram mortos em 2022, segundo o International Press Institute, organização para defesa da liberdade de imprensa sediada em Viena.

Gráfico mostra países onde jornalistas foram assassinados em 2022

Jornalistas "são cada vez mais alvo de ataques em todo o mundo, e isso inclui equipes de reportagem em zonas de conflito", afirma Scott Griffen, vice-diretor do International Press Institute.  

Em todo o ano de 2021, a organização contabilizou 45 jornalistas mortos. Desde o início deste ano, o instituto vem observando um aumento de ataques violentos contra a imprensa.

Que proteções internacionais existem para jornalistas?

Leis de direitos humanos se aplicam aos jornalistas e se destinam a protegê-los, explica Griffen. "Os jornalistas, assim como a população civil, nunca são alvos legítimos em uma zona de conflito, e isso significa que um ataque deliberado a um jornalista seria uma violação do direito internacional e que os responsáveis precisariam ser responsabilizados."

Pauline Ades-Mevel, porta-voz da ONG Repórteres Sem Fronteiras, que defende os direitos de jornalistas em todo o mundo, acrescenta: "A Repórteres sem Fronteiras condenou o assassinato de Shireen Abu Akleh porque constitui uma violação da Convenção de Genebra, bem como da Resolução 2022 do Conselho de Segurança da ONU sobre a proteção de jornalistas."

Shireen Abu Akleh
Shireen Abu Akleh trabalhava para a Al Jazeera desde 1997Foto: Al Jazeera Media Network/AP/picture alliance

Além disso, há um grande número de resoluções de vários órgãos da ONU, juntamente com outras proteções fundamentais para a liberdade de imprensa, incluindo tratados internacionais, como o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, lista Griffen.

Quebrando o ciclo de impunidade

O mais importante que pode ser feito em casos de violência contra a mídia é a responsabilização, diz Griffen. "Parece muito simples, mas não é − sabemos que em pelo menos 90% dos casos em que os jornalistas são assassinados, os responsáveis não são responsabilizados."

"A incapacidade de responder rapidamente a ataques a jornalistas e de responsabilizar os responsáveis pelos ataques cria o que chamamos de ciclo de violência, um ciclo de impunidade em que os responsáveis sentem que podem agir sem consequências e que vemos como um convite aberto para atacar jornalistas."

Ades-Mevel concorda que o fim da impunidade seja crucial para acabar com o assassinato de jornalistas. "Se não houver resposta judicial, o número de mortes continuará a crescer e a crescer e a crescer." Ela explica que os casos podem ser julgados no próprio país ou mesmo levados ao Tribunal Penal Internacional.

Jornalista com colete e capacete sentado no chão
Enquanto alguns repórteres morrem na linha de fogo por acaso, outros são especificamente visadosFoto: Ahmad Al-Basha/AFP

Quando não é adotada nenhuma ação judicial, deve ser exercida pressão internacional, ressalta Ades-Mevel. "A pressão internacional é fundamental nesses tipos de casos porque aumenta a conscientização em todo o mundo e força o Estado a assumir a responsabilidade."

Mas, para que seja eficaz, essa pressão deve ser mantida no longo prazo e significativa, acrescenta Griffen. "Caso contrário, é apenas conversa."

Focos globais de violência contra a imprensa

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a liberdade de imprensa na região está sendo cada vez mais cerceada − e a violência contra jornalistas está aumentando.

"A situação na Ucrânia é extremamente preocupante no momento", diz Ades-Mevel.

Pela contagem do Repórteres sem Fronteiras, seis de sete jornalistas mortos enquanto trabalhavam "foram alvo deliberado das forças russas − jornalistas internacionais, ucranianos e russos cobrindo o conflito".

Sobre a situação perigosa para os jornalistas na Ucrânia, Griffen enfatiza novamente a necessidade de responsabilização. "Se alguns desses jornalistas foram diretamente visados, precisamos começar a recolher as provas para possíveis processos por crimes de guerra."

Gráfico sobra infrações à liberdade de imprensa na guerra da Rússia contra a Ucrânia

Griffen também aponta para o México, que tem um alto número de assassinatos de jornalistas – 11 somente neste ano. Ele chama o caso do México de "chocante" e de "banho de sangue contra jornalistas", ressaltando que muitas mortes estão ligadas a reportagens sobre cartéis de drogas.

"É uma situação horrível e simplesmente insuportável, na verdade, que as autoridades mexicanas não consigam controlar isso", afirma.

Como jornalistas podem se proteger?

À luz de toda a violência contra jornalistas, os trabalhadores da mídia devem ser bem informados e preparados, particularmente em áreas de conflito, salientam tanto Griffen quanto Ades-Mevel.

As organizações de mídia devem se assegurar, adotando protocolos de segurança, alocando recursos suficientes para proteger os jornalistas e garantindo o treinamento adequado aos profissionais de imprensa, diz Griffen.

"No caso da Ucrânia, por exemplo, é muito importante que os jornalistas estejam equipados com capacetes e coletes", assinala Ades-Mevel, e acrescenta que a Repórteres sem Fronteiras forneceu alguns desses equipamentos.

Infelizmente, isso não ajudou Abu Akleh, que, segundo a Al Jazeera, estava usando um colete de imprensa e um capacete quando foi fatalmente baleada.

"Ela era um ícone, uma jornalista famosa", comenta Ades-Mevel. "Ela é um símbolo para muitos jornalistas no mundo e não apenas no Oriente Médio, mas absolutamente em todos os lugares. Toda a comunidade de jornalistas está em luto."