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Conflito de interesses impede Deutsche Bank de comprar Postbank

Neusa Soliz12 de maio de 2004

Apesar de pressões do governo para que uma fusão fortalecesse o setor bancário alemão, o Deutsche Bank não apresentou oferta para comprar o Postbank. Em vez disso, vai coordenar a emissão de suas ações em junho.

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Barco faz propaganda para o Postbank, que prepara lançamento de açõesFoto: AP

Diretoria e conselho administrativo do Deutsche Bank estiveram reunidos por várias horas nesta terça-feira (11) e decidiram não apresentar uma oferta de compra do Postbank, o banco semi-estatal pertencente à empresa alemã de correios Deutsche Post. O Deutsche Bank, contudo, não emitiu nenhum comunicado a respeito, nem seus executivos comentaram o assunto. Um indício de que essa pode não ser a última palavra no assunto.

O silêncio motivou especulações sobre desentendimentos entre o presidente do Deutsche Bank, o suíço Josef Ackermann, e o conselho administrativo. Consta que em fevereiro procurou-se um substituto para Ackermann, depois da sua tentativa de vender o Deutsche Bank para o Citigroup norte-americano.

Medo dos bancos estrangeiros

Executivos de grandes empresas alemãs como a Siemens, Allianz e a ThyssenKrupp procuraram o conselho administrativo do Deutsche Bank e também o chanceler alemão, Gerhard Schröder, para lhe comunicar sua preocupação de que as indústrias alemãs pudessem vir a depender de bancos estrangeiros. "Nós precisamos de pelo menos um banco nacional de grande porte", declarou um alto executivo ao semanário Der Spiegel.

Josef Ackermann teria se encontrado com Schröder e, na semana passada, o chefe de governo conclamou os bancos alemães a fusões, para fortalecer o setor. A seguir, surgiram os primeiros boatos de negociações do Deutsche com o Postbank. Para o Estado, que controla o banco, a venda seria até melhor do que a privatização. Os cofres públicos precisam de dinheiro, diante dos déficits orçamentários de bilhões de euros que se tornaram uma constante nos últimos anos.

Privatização provocou conflito de interesses

Os rumores de uma eventual compra agitaram o setor bancário e financeiro principalmente por causa dos planos de privatização do Postbank, com lançamento de ações na bolsa de valores marcada para 21 de junho. Acontece que a operação financeira foi confiada a um grupo de bancos, sob a direção do Deutsche Bank.

O maior banco alemão, portanto, estaria num conflito de interesses, não podendo fazer duas coisas ao mesmo tempo: coordenar a emissão – pelo que teria que vender as ações do Postbank, tratando de valorizá-las o máximo possível – e atuar como comprador interessado em controlar o banco, para o que teria que regatear, tentando abaixar seu valor.

Optando pela compra, o Deutsche Bank prejudicaria sua própria reputação. "A aquisição teria deixado uma má impressão", admite Reinhild Keitel, da Associação de Proteção aos Acionistas (SdK). Jürgen Kurz, de outra associação, vê mais um problema sério: "Os acionistas da Deutsche Post poderiam exigir indenização se não fossem contemplados com ações, uma vez que esse privilégio lhes foi garantido".

Vários interessados no Postbank

Os círculos financeiros consideram pouco provável que o Deutsche Bank ainda venha a fazer uma oferta de compra. Mas no terreno das hipóteses isso seria possível. "Se a Deutsche Post cancelar o contrato para que o Deutsche Bank coordene a emissão, abrir mão do lançamento de ações e decidir vender o Postbank, então pensaríamos numa oferta", disse um banqueiro citado pela versão alemã do Financial Times.

Outros bancos, entre eles o HypoVereinsbank e o Commerzbank, também teriam interesse no lucrativo Postbank com seus 11,5 milhões de clientes privados – uma clientela que o Deutsche Bank, por exemplo, descuidou ao concentrar-se no setor de investment banking.

Ackermann continuará na presidência

O fracasso da fusão desencadeou ainda uma discussão sobre a estratégia do Deutsche Bank, cuja importância internacional vem decaindo constantemente. Pelo valor de mercado em 1988, ele era o segundo banco do mundo, logo depois das instituições financeiras japonesas. Hoje, foi parar em 16º lugar no ranking.

Josef Ackermann, que assumiu a presidência do banco em 1996, está interessado em comprar algum banco europeu, sabendo que, no mercado globalizado, quem não cresce acaba sendo engolido por outro. O conselho administrativo do Deutsche Bank desmentiu qualquer desentendimento com o executivo, que teria se oposto à compra do Postbank. Consta que o preço lhe pareceu demasiado alto. Segundo a imprensa, o Deutsche Bank não queria pagar nem seis bilhões de euros, enquanto se exigiam nove bilhões pelo Postbank.