Cultura milenar chinesa ensina a comer melhor

Com tantas teorias sobre alimentação saudável disponíveis, é difícil saber qual é a mais apropriada. Construída ao longo de milhares de anos, a tradição chinesa oferece uma abordagem diferente das dietas atuais.

Às vezes é difícil saber o que é bom para o organismo, com inúmeras dietas pregando teorias das mais diversas sobre a melhor forma de se alimentar. Assim, a percepção sobre o que é de fato alimentação saudável muda a todo tempo. Mesmo que saibamos tudo sobre gordura, carboidratos, proteínas, minerais e vitaminas, sempre há novas pesquisas que introduzem algo novo e tornam obsoletas as crenças anteriores. Mas do que nossos corpos realmente precisam?

Ciência e Saúde | 01.09.2015

Utilizando-se de conceitos da medicina tradicional, os chineses têm sua própria abordagem sobre a alimentação saudável. Provavelmente, eles são a cultura que mais acredita na máxima "você é o que você come" – mesmo que nem sempre sigam isso à risca.

Abaixo, avaliamos a que ponto alimentação e medicina se relacionam – e se esses conceitos podem ser aplicados fora da China.

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1 - Alimentação é remédio, remédio é alimentação

Em comparação com a cultura ocidental, a alimentação e a medicina se sobrepõem na cultura chinesa. Por exemplo, a melancia é um alimento, mas pode ter também um efeito medicinal durante os dias de calor, por causa de sua alta capacidade de hidratação.

Os clãs antigos da China, de cerca de 2.200 a.C., começaram a descobrir os diferentes valores medicinais de ervas enquanto caçavam e coletavam comida. Alguns alimentos curavam doenças, outros levavam à morte. Com o tempo, a filosofia da medicina chinesa foi se desenvolvendo.

Porém, há alguns alimentos que os chineses consideram mais como "remédio" que como "comida", como é o caso do gengibre. Contudo, antes de utilizá-lo para tratamento, é necessário consultar um profissional, pois a sua ingestão pode causar pioras na saúde. O motivo disso é que os alimentos têm propriedades distintas e cada pessoa, um organismo único, responde de maneira própria dependendo do que é ingerido.

2 - As propriedades dos alimentos

Na medicina tradicional chinesa, os alimentos são divididos em cinco essências, chamadas "siqi": gelado, frio, neutro, morno e quente. A natureza do alimento não é determinada por sua temperatura momentânea, mas sim pelos efeitos que pode ter no corpo após o consumo. Se uma pessoa ingerir continuamente apenas um tipo de alimento, vai gerar um desequilíbrio no corpo que afeta o sistema imunológico. Logo, um dos fundamentos da medicina chinesa é manter o corpo "neutro".

Alimentos mornos e quentes geram calor no corpo humano – por exemplo, carne de boi, café, gengibre, pimenta e frituras – enquanto aqueles que são gelados e frios diminuem a temperatura corporal – como saladas, queijo, chá verde e cerveja. Alimentos como óleo, arroz, carne de porco e a maior parte dos peixes são considerados neutros.

Uma pessoa que tenha ingerido muitos alimentos quentes normalmente sente calor, sua todo o tempo, ficam mal-humorada, com a língua inchada e pode ter prisão de ventre. Já aqueles que comem muitos ingredientes frios ou gelados têm pés e mãos frias, podem se sentir fracos ou ter problemas na circulação. Quando isso acontece, a recomendação é parar de ingerir um desses tipos de alimento.

Gewürze und Kräuter

3 - Mais do que um sabor

De forma similar ao mundo ocidental, os chineses dividem os sabores em cinco (wuwei): ácido, amargo, doce, apimentado e salgado. Porém, para eles, há mais que sensações. Na medicina tradicional chinesa, cada mordida em um alimento leva os nutrientes para os órgãos correspondentes: o ácido vai para o fígado e ajuda a parar com o suor e a diminuir as tosses; o sal entra nos rins e pode drenar, purgar e suavizar as massas de comida; os alimentos amargos vão para o coração e para o intestino delgado e ajudam a resfriar o corpo e a secar a umidade; a pimenta entra nos pulmões e no intestino grosso e estimula o apetite; o doce vai para o estômago e para o baço e ajuda a lubrificar o corpo. Logo, é importante que cada um desses sabores esteja presente na dieta.

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Isso significa que, para ser saudável, é preciso apenas comer alimentos neutros em todos os sabores? Não necessariamente. "A escolha dos alimentos é afetada pela fisiologia corporal, pelas estações do ano e pelo lugar em que você vive", diz Chan Kei-fat, médico com consultório em Hong Kong. A condição do organismo também pode ser afetada pela idade e pelo gênero. Ou seja, os profissionais da medicina tradicional adaptam suas recomendações a diferentes condições.

4 - A mesma abordagem não serve para todo mundo

Assim como todos temos personalidades diferentes, todos nós temos constituições corporais ímpares (tizhi). E, da mesma forma que você não consegue se comunicar com todo mundo do mesmo jeito, você não pode alimentar todos os corpos com os mesmos alimentos da mesma forma.

O que é "constituição"? As categorizações passam por mudanças desde os primórdios da medicina chinesa. Atualmente, uma das divisões mais populares foi desenvolvida por Huang Qi, que introduziu, em 1978, nove tipos de corpos.

Uma pessoa com muita "umidade e muco" (tanshi) no corpo tende a ter sobrepeso, pode suar bastante e ter o rosto oleoso. Esses indivíduos também costumam ter um temperamento mais leve.

Contudo, uma pessoa com muita "umidade e calor" (Shi-Re) é normalmente irritadiça e muitas vezes possui um rosto oleoso, com muitas espinhas. Ambos os tipos precisam de alimentos diferentes para acabar com a umidade. Isso significa que doces, que "lubrificam" o corpo, podem piorar a situação.

Cada tipo de alimento, dependendo de sua essência, pode melhorar ou piorar a situação. "Não existe uma substância que é boa para todo mundo", diz Guo Qiming, natural de Pequim, que possui uma loja em Colônia, na Alemanha. "Muita gente diz que o gengibre é saudável, mas se você for uma pessoa com organismo seco e tiver muito calor no seu corpo, quanto mais chá de gengibre beber, mais seco o seu corpo ficará."

Frische Erdbeermarmelade mit Erdbeeren und Erdbeerblüten

5 - Comer de acordo com a estação do ano

A estação e a época do ano também são fatores a serem levados em consideração. Por exemplo, a primavera é normalmente mais úmida na China, o que significa que, durante essa estação, é melhor ingerir alimentos que possam acabar com a umidade no corpo, como milho, feijão e cebola.

O verão é quente, por isso, o melhor é ingerir alimentos que possam resfriar o organismo, como melancia e pepino. O outono é seco, o que significa que, nessa estação, precisamos de alimentos para "lubrificar" nossos corpos, como ervilha e mel. O inverno é frio, logo, o mais recomendável é ingerir comidas quentes, como carne de boi ou camarão.

Num mundo globalizado, é fácil encontrar alimentos fora de temporada. Contudo, as tradições chinesas levam a crer que essa pode não ser a melhor forma de nos alimentar, pois produtos sazonais nos fornecem a nutrição que precisamos em uma temporada específica. Um conceito parecido também existe no mundo ocidental.

6 - O clima também importa

O clima em um local também afeta a escolha da comida. Como exemplo, Guo cita a província de Sichuan, na China. "O clima de lá é muito úmido e frio. Assim, os moradores de Sichuan adoram comida apimentada, pois facilita a sudorese e assim remove a umidade do corpo." Guo acrescenta que, se pessoas de regiões temperadas comem muitos alimentos apimentados, a temperatura do corpo também fica muito alta, o que não é muito saudável.

Symbolbild Gedanken und Lebensmittel

7 - Encontrar o meio-termo

Mas, então, o que pode ser considerado saudável e o que deve ser evitado? Segundo a medicina tradicional chinesa, todo alimento é nutritivo, e, desde que uma pessoa saudável não coma demais um só produto, nada faz mal para a saúde. Filósofos chineses recomendam sempre encontrar o "meio-termo", ou seja, evitar extremos. Segundo as tradições do país asiático, é também muito importante não comer demais (tentar ingerir até 70% da sua capacidade) e consumir alimentos que estejam em uma temperatura moderada, evitando assim a sobrecarga dos órgãos digestivos.

Afinal de contas, tudo é equilíbrio.

Há um ditado chinês que diz: "Os cinco grãos fornecem nutrição. Os cinco vegetais fornecem preenchimento. Os cinco animais domésticos fornecem enriquecimento. As cinco frutas fornecem apoio." Isso significa que uma dieta equilibrada, na qual os alimentos são consumidos em combinações apropriadas de acordo com suas essências e sabores, são capazes de prover ao corpo humano o que ele precisa.

Pense bem antes de comer biscoito de canela

Sim, a canela pode ser prejudicial. Um dos seus ingredientes – a cumarina – pode causar danos no fígado e nos rins. Mas isso não é motivo de grande preocupação, porque, por outro lado, há uma longa lista de alimentos que podem ajudar a evitar doenças. Pelo menos, é o que se pensa até hoje - porque a opinião de nutricionistas pode mudar rapidamente.

Veneno ou antídoto?

"Causa câncer" ou "faz mal para os nervos" são algumas das frases que se costuma ouvir sobre o café. Porém, pesquisadores dizem que o café, na verdade, não é tão ruim assim quanto a reputação que carrega. E pode até diminuir o risco de câncer. Debate à parte, convém consumir com moderação.

Uma taça de vinho por dia

Álcool faz mal para a saúde, mas o vinho tinto contém moléculas benéficas, como o resveratrol e antocianinas. E agora? Beber ou não? Estudos epidemiológicos realizados durante anos sugerem que uma taça por dia é benéfica para as mulheres, enquanto para os homens, duas. Depois, as estatísticas mostraram que, nos EUA, aqueles que não bebem morrem mais cedo do que quem bebe com moderação.

Velha rixa: manteiga x margarina

Anos atrás, a recomendação era evitar manteiga e comer apenas margarina. Ela contém menos ácidos graxos saturados do que a manteiga derivada do leite. Mas agora se alerta que a margarina é um produto artificial, inventado pela indústria de alimentos, portanto cheio de aditivos químicos.

Vilão injustiçado

Quando alguém morria de doenças cardíacas ou de AVC, o culpado era o colesterol. Como ele entope os vasos sanguíneos, os médicos aconselhavam evitá-lo a qualquer custo. Alimentos como ovos, queijo e carne eram considerados especialmente perigosos. A verdade, porém, é que o corpo precisa de um pouco de colesterol, e até o produz. Mesmo assim, é importante não exagerar.

Vitaminas congeladas

Muitos evitam comer legumes e verduras congelados, acreditando que eles tenham menos vitaminas do que os frescos. No entanto, vegetais congelados contêm mais nutrientes por serem processados diretamente após a colheita, em vez de ficar dias nas prateleiras dos supermercados, esperando para ser comprados.

Peixe todo-poderoso

Há alguns anos, dizia-se que os ácidos graxos ômega-3 poderiam prevenir doenças como câncer, problemas cardiovasculares – e até mesmo déficit de atenção, hiperatividade e depressão. Os especialistas aconselhavam a ingestão diária de suplementos de ômega-3. De fato: esses ácidos graxos são importantes para algumas funções do corpo. Mas não trazem benefícios na maioria das doenças listadas.

Excesso do que é bom também faz mal

Vitaminas são essenciais para o metabolismo. Então o que seria mais saudável do que tomar suplementos vitamínicos diariamente? Em especial de vitamina C, tida como proteção contra todos os tipos de doenças, inclusive resfriados. Só que até hoje nenhum estudo comprovou tais afirmativas. Na verdade, os suplementos vitamínicos podem até ser prejudiciais – pelo menos é o que se diz hoje em dia...

Beber sem ter sede?

A natureza é bem inteligente. Quando precisamos de água, temos sede. Mas alguém disse certa vez que se deve beber antes ter sede, pelo menos três litros por dia. A teoria talvez se baseie no fato de os idosos costumarem perder o senso de sede. Mas em condições normais, o corpo humano sabe muito bem avisar que está na hora de ingerir líquidos.

Bênção ou maldição do leite

O leite contém cálcio, que é bom para os ossos e o sistema imunológico. Isso é o que nos ensinaram. Mas um estudo sueco que vem sendo realizado há décadas sugere que quem bebe muito leite talvez morra mais cedo. Será que a responsável é a lactose? Ninguém sabe. Por enquanto, continue bebendo leite, mas com moderação.

Trigo: o novo vilão

Numerosos sites de nutrição alertam sobre os perigos do trigo, acusando-o de "inflamar o corpo, causar vazamento dos intestinos e desencadear doenças autoimunes". Certos médicos e autores dizem que trigo pode até causar calvície, alucinações e ideias suicidas. Apesar de não haver estudos que comprovem tais afirmativas, muitos têm abdicado do cereal que sustentava seus ancestrais.

Nem tudo o que é orgânico é ouro

Se a comida normal contém química em excesso, como dizem, então a solução seriam os alimentos orgânicos, produzidos sem adubo químico ou substâncias "do mal". Porém estudos sugerem que os alimentos orgânicos não são mais ricos em nutrientes nem melhores do que os demais. São apenas mais caros.

Equilíbrio é a chave

Independente do que digam todas as teorias e estudos, o estilo de vida realmente faz diferença. As estatísticas mostram claramente que fumar, beber demais e obesidade não são saudáveis, podendo até matar. Mas não se preocupe demais com os relatórios que louvam só um tipo de alimento ou outro. O que importa é o equilíbrio. Portanto, seja lá o que for, faça com moderação.

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