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Relações perigosas

3 de agosto de 2011

Os Estados Unidos conseguiram evitar o risco de calote, que teria efeitos catastróficos para a economia mundial. Mas a desvalorização do dólar persiste e deve continuar causando problemas para as exportações do Brasil.

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Queda do dólar é uma das maiores ameaças para economia brasileiraFoto: picture alliance/dpa

O pânico de que a crise da dívida norte-americana pudesse causar um colapso na economia mundial foi afastado momentaneamente. Também em Brasília a apreensão diminuiu. "Todo o sistema financeiro está arquitetado um pouco na ideia de que os títulos do Tesouro norte-americano são os mais seguros que existem. Então, qualquer coisa que afetasse isso afetaria todo o mundo, inclusive o Brasil", diz o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Carlos Márcio Cozendey.

O Congresso dos Estados Unidos deixou a decisão crucial para o último minuto e só nesta terça-feira (02/08) evitou que a maior potência do mundo entrasse na lista de maus pagadores. Mesmo assim, isso não deverá alterar o quadro de desvalorização do dólar, que prejudica a indústria e as exportações brasileiras.

O especialista Marcus Vinícius Freitas, do Centro de Estudos Americanos da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), prevê que a política monetária norte-americana vá deixar mais dólares disponíveis no mercado e, consequentemente, causar a desvalorização da moeda. "Essa abundância de dólares no mercado faz com que haja uma alocação desses recursos para países que, em princípio, não estejam passando por uma situação econômica tão complicada como a dos Estados Unidos e da Europa", acrescenta Freitas.

O Brasil e os demais emergentes que apresentam bom desempenho da economia devem receber uma "enxurrada" da moeda, afirma o estudioso. "E esses recursos extras farão com que o Brasil enfrente, por um período ainda mais longo, um dólar mais baixo, com impacto na sua industrialização."

Competitividade e solavancos

O setor produtivo já reclama faz tempo da desvalorização do dólar, que diminui a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) revelou que metade das empresas exportadoras brasileiras perdeu mercado em 2010 – 48% delas sofreram redução no mercado externo ou mesmo deixaram de exportar no ano passado, nas pequenas empresas esse índice chegou a 55%.

Como grande exportador de commodities, cujos preços são negociados em dólares, o Brasil também se vê ameaçado. Para Simão Davi Silber, especialista da Universidade de São Paulo, esse setor sofreria os efeitos da turbulência provocada nos Estados Unidos.

"Um calote na dívida traria problemas para o Brasil. Por várias razões: a mais importante seria através da desaceleração econômica no mundo", diz. Como o Brasil depende muito de exportação de commodities, uma desaceleração econômica mundial derrubaria os preços desses produtos, trazendo prejuízos às exportações brasileiras.

Freitas vê com distanciamento a possibilidade de o governo norte-americano não conseguir pagar suas contas. "Não vejo os Estados Unidos dando um calote na dívida. Primeiro: são eles que imprimem a moeda que o mundo usa. Existe uma confiança na capacidade do governo norte-americano, apesar de todos os problemas, de honrar seus compromissos. E os maiores prejudicados seriam o governo chinês e o japonês. O Brasil é o quarto, ou quinto, detentor de papéis norte-americanos", comenta o especialista sobre os maiores credores dos norte-americanos.

Aproximação ainda maior durante a crise

Mas a fragilização da economia nos Estados Unidos não deverá afetar o compromisso assumido recentemente pela presidente da República, Dilma Rousseff, e pelo presidente dos EUA, Barack Obama, durante a visita do líder norte-americano ao Brasil: estreitar a relação entre os dois países.

"Evidentemente que os Estados Unidos continuam a ser uma das principais economias do globo e continuam sendo muito importantes para o Brasil", comentou Cozendey sobre a ameaça do agravamento da crise norte-americana. Na semana passada, ele se reuniu com subsecretária do Tesouro dos EUA, Lael Brainard, para dar continuidade ao processo de aprofundar a parceria econômica e financeira.

A velocidade de aproximação entre os dois países foi acelerada porque a competitividade nesse campo também é grande. "Com a maior presença do Brasil no cenário internacional, vários países têm manifestado interesse de manter conversas regulares com o Brasil na área econômica e financeira", diz Cozendey.

Os números da balança comercial brasileira de julho, divulgados nesta segunda-feira, mostram um salto nas exportações de commodities: minério de ferro, café, milho, soja. Depois da China, os Estados Unidos são os maiores compradores de produtos brasileiros – e também os maiores fornecedores para o mercado brasileiro.

Autora: Nádia Pontes
Revisão: Alexandre Schossler