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Escultura radiofônica marca trajeto do Muro de Berlim

Simone de Mello, de Berlim12 de novembro de 2001

Instalação urbana resgata a história da cidade dividida através de documentos sonoros.

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"Charlottenstrasse, esquina Zimmerstrasse. Há exatamente uma hora, o Muro fez mais uma vítima. Duas pessoas de Berlim Oriental tentaram fugir neste ponto da fronteira entre os setores. Uma conseguiu passar; a outra, atingida pelos tiros da guarda, morreu na hora."

A voz do repórter da Emissora Berlim Livre (SFB), que noticiou a morte do fugitivo Peter Fechter no dia 18 de agosto de 1962, soa de um alto-falante instalado perto do Checkpoint Charlie, um dos pontos da antiga fronteira entre Berlim Ocidental e Oriental. Este documento sonoro, parte de um projeto de recuperação da memória da cidade, se mistura agora com o barulho do escapamento dos caminhões que circulam livremente por Berlim-Mitte, exatamente 12 anos após a queda do Muro.

Enquanto o Museu Checkpoint Charlie congela parte da história da divisão de Berlim em setores de ocupação, vendendo-a em forma de souvenir aos turistas, a instalação urbana Hörstelle relembra passagens da história do Muro de uma forma imaterial. Basta apertar um botão para ouvir reportagens, depoimentos e testemunhos literários sobre o monumento que materializou durante 28 anos os conflitos da Guerra Fria.

Mesmo ciclistas apressados, sem tempo para refletir sobre o passado da cidade, numa gélida manhã de sexta-feira, são detidos pelo som do alto-falante. Ao contrário dos museus, as informações veiculadas pela instalação sonora não precisam pagar ingresso para entrar no cotidiano das pessoas.

Instaladas em seis pontos de Berlim-Mitte, as estações desta rota do projeto Hörstelle delineiam o trajeto do Muro de Berlim com palavras invisíveis. A instalação não quer saturar a cidade com mais imagens ou concorrer com o apelo visual dos outdoors. Sem congelar os eventos noticiados num formato "histórico" e consumível, as vozes provindas dos alto-falantes se misturam — vivas — ao presente. Entre os documentos selecionados, ouvem-se testemunhos da construção e da queda do Muro, reportagens do Leste e do Oeste.

Na mesma estação sonora do Checkpoint Charlie, um botão permite ouvir os tanques americanos tentando impedir o fechamento da passagem entre os setores americano e soviético, em 25 de outubro de 1961. Basta apertar o botão de baixo para ouvir a reação das autoridades orientais, dois meses depois: "Há algumas semanas, os americanos já tentaram nos provocar com seus tanques. Foi por isso que começamos a reforçar esta construção democrática e antifascista." E o repórter do Leste acrescenta: "Para os americanos aprenderem a respeitar a soberania da República Democrática da Alemanha."

Os documentos veiculados pelo projeto contrapõem o discurso político e jornalístico específico das duas Alemanhas, sem procurar relativizar a linha divisória entre o Ocidente e o Leste, que ainda é bastante forte na mentalidade da Alemanha reunificada.

A instalação sonora ao longo do Muro de Berlim, inaugurada há três meses, termina nesta sexta-feira (9), marcando a data da queda do Muro. O projeto Hörstelle , realizado pelo Museu Alemão de Técnica, com materiais do arquivo da emissora Deutschlandfunk, também inclui outras rotas de recuperação da memória urbana através de documentos sonoros.