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Instabilidade política agrava situação no Nepal

Gabriel Domínguez (gb)28 de abril de 2015

Para especialistas, impasses políticos tiveram impacto direto sobre preparo do governo para lidar com terremoto de 7,8 de magnitude. Premiê reconhece que país não estava pronto para responder a desastre dessa dimensão.

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Nepal Kathmandu Starkes Erdbeben
Foto: Reuters/N. Chitrakar

O terremoto que castigou o Nepal no último fim de semana foi o pior a atingir o país em mais de 80 anos. Além de deixar milhares de mortos e feridos, o tremor de 7,8 de magnitude destruiu casas e prédios históricos. Para piorar as coisas, após a tragédia, uma série de novos tremores atingiu a região, causando mais mortes e danos e fazendo com que as pessoas abandonassem suas residências em busca de locais seguros.

Três dias depois do terremoto de sábado, dezenas de milhares ainda precisam de ajuda e cuidados e aguardam a chegada de ajuda internacional. Segundo a ONU, os hospitais estão superlotados, e materiais de emergência estão se esgotando. O Nepal tem apenas 2,1 mil médicos e 50 camas de hospitais para cada 10 mil pessoas, de acordo com um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2011.

De acordo com Alison Evans, analista-chefe para a Ásia da empresa de análise IHS, a instabilidade política dos últimos anos teve um impacto direto sobre o preparo do Nepal para lidar com desastres.

"Em 2008, o país finalizou sua Estratégia Nacional para Gerenciamento de Risco de Desastres, mas a situação política fragmentada tem impedido que haja progresso significativo quanto ao rigor envolvendo construções ou quanto a atividades de conscientização da população", diz.

Depois de séculos de monarquia, em 2008, o Nepal elegeu uma Assembleia Constituinte, na qual o Partido Comunista Unificado do Nepal (Maoísta) tinha a maioria dos assentos. No entanto, devido à falta de consenso, a assembleia foi dissolvida quatro anos depois.

Na eleição seguinte, em novembro de 2013, os conservadores do Congresso Nepalês e o Partido Marxista-Leninista Comunista Unido do Nepal ofuscaram os maoístas e formaram uma coalizão, temporariamente aliviando o impasse político. A nova assembleia, porém, também não conseguiu chegar a um consenso sobre questões-chave, o que provocou agitação em todo o país.

Evans acredita que o fato de a atual Assembleia Constituinte não ter conseguido chegar a um acordo sobre uma nova constituição indica que os impasses políticos tendem a continuar. "Isso deve prejudicar os esforços para responder com eficácia ao desastre atual, bem como esforços para implementar, nos próximos anos, políticas que limitem o número de mortes no futuro."

George Varughese, que mora em Katmandu e representante o Nepal na Fundação Ásia, também afirma que políticas públicas têm sido reféns da situação política. "Ter uma constituição poderia ter ajudado. Entretanto, isso também não teria garantido a execução apropriada dos planos de emergência", pondera.

O que importa, segundo ele, é que questões de segurança nacional, como desastres naturais, sejam consideradas questões de alto nível para o governo, dizendo respeito ao gabinete do primeiro-ministro, por exemplo.

Nepal Menschen verlassen ihre Häuser nach Erdbeben in Bhaktapur
Dezenas de milhares de nepaleses permanecem na rua, com medo de voltar para casaFoto: Reuters/N.Chitrakar

O Nepal tem um centro de coordenação nacional com vários funcionários capazes de atender em curto prazo. Mas, segundo Varughese, quando algo dessa magnitude acontece, qualquer prevenção ou preparação parece inadequada para o que é exigido imediatamente após o ocorrido.

"Falhas de execução têm se repetido: do deslizamento de Sunkoshi e do ciclone Hudhud ao acidente aéreo da Turkish Air, à epidemia de gripe suína e ao terremoto, tudo isso em um ano", disse.

"Não estávamos preparados"

Com um PIB de 20 bilhões de dólares no ano passado — apenas mil dólares per capita —, o Nepal tem uma capacidade extremamente limitada para lidar com as consequências do terremoto e financiar esforços de reconstrução em longo prazo.

Dias depois do terremoto, o governo local finalmente admitiu que o país não estava pronto para encarar um desastre do tipo. "Não estávamos preparados para uma tragédia dessa dimensão", declarou o ministro do Interior, Bam Dev Gautam. “Não temos recursos suficientes e precisaremos de mais tempo para dar assistência a todos”, completou.

Enquanto quase todos os 100 mil soldados do Exército nepalês estão envolvidos nas operações de resgate, de acordo com autoridades locais, a maioria das áreas abertas Katmandu ainda está cheia de pessoas, que, sentadas, aguardam em estado de choque. Também há relatos de estradas lotadas, que levam os motoristas para fora do vale onde fica a capital, e longas filas no aeroporto, com pessoas desesperadas para conseguir um voo.

Especialmente nas horas que se seguiram ao terremoto, as autoridades e os serviços de energia pareciam simplesmente sobrecarregados. "Após o terremoto, ficou evidente que a preparação era insuficiente em relação à triagem e ao deslocamento das vítimas para locais de atendimento", diz Varughese.

"Os hospitais logo ficaram sobrecarregados. Mesmo com remédios e sangue estocados, havia poucos funcionários treinados para tratar ferimentos e prestar cuidados. Houve estudantes que foram doar sangue e acabaram ajudando a fazer curativos e inserir cateteres", conta.

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Sem chegar a consenso sobre questões-chave, Assembleia Constituinte provocou nova agitação em todo o paísFoto: AFP/Getty Images/P. Mathema

Tragédia previsível?

Especialistas apontam que, ao menos em termos geológicos, o terremoto era um desastre que poderia acontecer a qualquer momento. Foi resultado de uma colisão entre as placas tectônicas indiana e eurasiana. Sismólogos descobriram que o subcontinente indiano está se movendo em direção ao norte a uma velocidade de 45 milímetros por ano, para baixo da placa eurasiana – formando, assim, a cadeia de montanhas do Himalaia.

Essa linha corre ao longo da fronteira ao sul do Nepal, e a constante fricção entre as placas eventualmente libera enorme quantidade de energia, na forma de terremotos. Conforme a Sociedade Nacional para Tecnologia de Terremotos do Nepal, os registros sísmicos da região indicam que um grande terremoto ocorre, aproximadamente, a cada 75 anos. O último tremor de magnitude semelhante ao do último fim de semana havia ocorrido em 1934.

Para o economista chefe da IHS, Rajiv Biswas, o padrão de construção de moradias no país é considerado extremamente baixo, o que explica por que os danos aos prédios foram extremamente severos. Em 2013, um relatório de desastres feito pelo Ministério de Assuntos Internos do Nepal já havia alertado sobre o fato de que construções de baixo padrão resultariam em danos no caso de um abalo sísmico.

Agora, para lidar com os danos estruturais causados pelo terremoto, uma reconstrução de longo prazo no Nepal poderia custar mais de 5 bilhões de dólares — com obras de alto padrão, específicas para zonas com risco de terremoto.

Isso corresponderia a aproximadamente 25% do PIB do país, o que exigiria ajuda de países doadores e de instituições de financiamento para o desenvolvimento, sob a gestão de instituições multilaterais, como a ONU.