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Paz é uma ilusão em Cabul

Estelina Farias14 de outubro de 2003

Alemanha recebe sinal verde da ONU para enviar 450 soldados à província de Cunduz, enquanto a insegurança é crescente no Afeganistão e a tropa de paz multilateral de 5 mil soldados corre riscos cada vez maiores em Cabul.

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Soldados alemães em CabulFoto: AP

O regime talibã foi liquidado na guerra liderada pelos Estados Unidos, em nome do combate ao terrorismo internacional, e as tropas internacionais de paz encontram-se estacionadas na capital afegã há quase dois anos a fim de garantir a segurança do governo do presidente Hamid Karsai e a reconstrução do país devastado.

Mas a situação em geral não é nada estável, conforme um estudo do Centro Internacional para Conversão, com sede em Bonn e a meta de converter armas em material para fins civis. A paz em Cabul é apenas ilusória, concorda o general alemão Götz Gliemeroth, comandante da tropa de proteção da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

O instituto faz uma análise teórica a distância e o general fala do cotidiano in loco, mas ambos concordam que a insegurança em geral é um fato no Afeganistão. "Superficialmente, Cabul dá uma impressão de tranqüilidade, mas a realidade é outra e nós sentimos isto na origem das ameaças de terror, no número considerável de forças infiltradas, de combatentes árabes e chechenos altamente profissionais e bem equipados", diz o general alemão em Cabul. A capital é única área de atuação da tropa internacional, até a ida do contingente alemão para Cunduz.

Falta estratégia político-militar

- Os meses da agosto e setembro foram especialmente ruins, tanto em termos quantitativos de ataques a soldados estrangeiros, instituições do governo do presidente Karsai e organizações de ajuda humanitária quanto de número de mortos, segundo o instituto alemão. Temendo pela vida de seu pessoal, muitas ONGs se retiraram de várias partes do país, onde prestavam ajuda humanitária e contribuíam com a reconstrução. "Isto tem amplas e graves conseqüências, porque, se os afegães não recebem o que precisam, aumenta a decepção com a ordem estatal do pós-guerra", analisa Mark Sedra, um dos autores do estudo.

O estudo critica sobretudo a falta de uma estratégia político-militar a longo prazo para o futuro do Afeganistão. Seus autores não apresentam, todavia, uma proposta, mas recomendam que, primeiramente, se concentre em medidas concretas para melhorar a segurança interna, como por exemplo, na formação de um corpo policial. Entre os países engajados no Afeganistão, especialmente a Alemanha dedica-se a esta tarefa, seguindo uma tradição dos anos 60 e 70, quando a monarquia afegã criou sua polícia com apoio da República Democrática Alemã, a ex-RDA comunista.

Afghanistan Wiederaufbau Ziegelstein
Produção de tijolos para a reconstruçãoFoto: AP

Desconfiança e perigo

- Os cientistas alemães criticam as duas partes da missão dos Estados Unidos no Afeganistão: o combate ao terrorismo e a reconstrução do país. As duas metas se chocam com freqüência, quando deveriam ser consonantes. Por isto, os autores do estudo vêem com muito ceticismo as chamadas equipes de reconstrução regional, nas quais trabalham soldados e civis alemães. A despeito de várias advertências para o perigo de a presença de soldados despertar desconfianças da população e tornar as equipes em alvos de ataques, a Alemanha vai mandar uma equipe para Kunduz,

Os cientistas apelaram aos políticos ocidentais para que tenham uma certa compressão com as peculiaridades culturais afegãs. Entre elas, contam os líderes de milícias regionais, os chamados warlords, que minam, constantemente, a autoridade do governo central e são uma dor de cabeça para os ocidentais. Mas, de outro lado, os warlords são muito bem vistos em suas regiões, contam com seguidores fiés e até gozam de vantagens financeiras.

Não dá, simplesmente, para impor padrões ocidentais no Afeganistão, aconselha o cientista Conrad Schetter, do instituto em Bonn. "Sem estes warlords não temos chance alguma de encontrar a paz neste país, porque não existe um monopólio estatal que possa passar por eles. Quer dizer, nós temos que lidar com eles de alguma forma".