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Raposas em Berlim

J.P. Cuenca
31 de outubro de 2019

O que realmente David Bowie fez em Berlim quando morou por lá no final dos anos 70? Como uma raposa numa metrópole, fez dela sua casa transitória. Depois disso, ele e a cidade jamais seriam os mesmos.

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David Bowie durante show em Berlim, em 1987
David Bowie durante show em Berlim, em 1987Foto: picture-alliance/dpa/C. Hoffmann

David Bowie conheceu Berlim em abril de 1976, quando fez seu primeiro show na cidade. Antes do fim daquele ano, decidiu abandonar o zoológico paranoico e alcaloide de Los Angeles para, depois de breve temporada num hotel-palacete em Grunewald, instalar-se no seu lendário apartamento de sete quartos num primeiro andar em Schöneberg, bairro genérico na parte ocidental da cidade. Ali morou, entre idas e vindas, pelos próximos três anos. O alienígena finalmente encontrava outro Planeta. Bowie e Berlim jamais seriam os mesmos.

Chegou aqui em estado de colapso físico e mental, buscando anonimato e detox na cidade barata – isolada do mundo como uma ilha dentro do bloco comunista. Apaixonado pelo Expressionismo Alemão, Fritz Lang, Brecht e pelo Krautrock, e com uma visão romântica da República de Weimar, Bowie sabia para onde estava indo – embora não pudesse imaginar que em tão pouco tempo ultrapassasse sua crise concluindo uma trilogia de discos (Low, Heroes e Lodger) que mudaria a sua carreira e, com ela, a história da música popular. Especialmente em Heroes (1977), gravado com Brian Eno e Tony Visconti no estúdio Hansa by the wall, de onde eles podiam ver as estrelas vermelhas nos quepes dos soldados da torre de segurança do outro lado, quando Potsdamer Platz ainda era uma terra de ninguém destruída na Segunda Guerra e riscada pelo muro.

J.P. Cuenca
O colunista J.P. Cuenca vive hoje entre São Paulo e BerlimFoto: privat

(E não podemos esquecer os dois primeiros álbuns solo de Iggy Pop, que Bowie produziu e ajudou a compor no mesmo lugar – ao mesmo tempo que trabalhava na sua trilogia. Se Heroes, a maior canção de Bowie, virou um hino da cidade e da queda do muro, Passenger, de Iggy, é uma ode ao S-Bahn, sistema de trens suburbanos que ele costumava usar até Wannsee. Sem falar de Lust for life – música-tema eterna sobre ficar chapado em Berlim.)

O que Bowie fez por aqui enquanto estava fora do estúdio está disperso em entrevistas, livros, lendas e canções – como a comovente Where are we now?, de 2013. Entre eufórico e deprimido, diz-se que foi expulso de um palco porque ninguém o reconheceu, que frequentava cabarés, que pintava num ateliê em casa, que quase se matou acelerando um carro contra uma pilastra numa garagem, que se separou da mãe do seu primeiro filho, que namorou uma drag queen (Romy Haag fez disso uma carreira até hoje) e que não exatamente se desintoxicou, indo parar num hospital enfartado por uma overdose de cocaína.

Patti Smith escreveu na época: "Imagino Bowie em Berlim apaixonado pelo mundo inteiro ou totalmente morto."

Talvez Bowie estivesse ocupando esses dois lugares ao mesmo tempo. Apaixonado pelo desconhecido, nos outros e nele mesmo, caminhando pelos vastos espaços e cicatrizes de Berlim, ele deixaria de ser, mais uma vez, quem era. Muito morto, profundamente acordado. Como tantos antes e depois dele, entre ruínas que ecoam o passado e uma weltschmerz difusa, Bowie se reinventou na cidade-portuária sem mar, mas com horizontes internos tão grandes quanto o céu aberto em seus parques.

Pensei em Bowie – e em você – na semana passada quando vi uma raposa. Era pouco mais que duas horas da manhã na Schönhauser Allee, artéria movimentada de Prenzlauer Berg, onde, durante o dia, automóveis, bicicletas, bondes elétricos e uma linha suspensa de metrô convivem sem hostilidade. Ali, de madrugada, sob o silêncio e a escuridão meio sépia que faz as esquinas de Berlim parecerem câmeras anecoicas, a raposa atravessava a rua lentamente.

Eu parei de caminhar, e a raposa me olhou com prateados olhos felinos – eles refletiam a luz dos postes como nas fotografias da nossa infância. Ela tinha o pelo castanho avermelhado e um rabo longo, uma pena gigantesca suspensa no ar.

Como outros animais selvagens que povoam a cidade (guaxinins, castores, águias e javalis, até), as raposas vivem na vastidão de Berlim e suas florestas urbanas, trilhos abandonados e lagos. Navegam pelas ruas à noite de um ponto a outro da cidade aberta. Imigrantes eternamente em trânsito, como quem não pertence a lugar nenhum – como quem pertence a todos.

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Escritor e cineasta, J.P. Cuenca é autor de cinco livros traduzidos para oito idiomas. Seu último romance, Descobri que estava morto, foi vencedor do Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional e deu origem ao longa-metragem A morte de J.P. Cuenca, exibido em mais de 15 festivais internacionais. Ele hoje vive entre São Paulo e Berlim. Siga-o no Twitter, Facebook e Instagram como @jpcuenca

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