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Sob Lula, mulheres ganham influência política

3 de janeiro de 2023

Presidente recebeu mais votos femininos que masculinos. Onze dos 37 ministros são mulheres – um recorde no país. Elas assumem pastas importantes, de Meio Ambiente à Saúde, que pela primeira vez tem uma mulher à frente.

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Lula, no centro, posa ao lado de Anielle Franco, Marina Silva, Sônia Guajajara, Daniela Carneiro, Simone Tebet e Aparecida Gonçalves (da esq. para dir.)
Lula e suas ministrasFoto: Ton Molina/Fotoarena/IMAGO

Saúde, meio ambiente, ciência, cultura, igualdade racial, igualdade de gênero: tudo isso a cargo das mulheres no novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Elas ocupam posições-chave e também tomam decisões importantes nos bastidores.

As mulheres constituem 52% do eleitorado brasileiro, e mais da metade votou no recém-empossado presidente. Elas estão representadas na Esplanada no comando de 11 dos 37 ministérios – um recorde na história da República.

É grande ainda a influência política da esposa de Lula, Rosângela Lula da Silva, a Janja. A socióloga de 56 anos não recebeu um cargo no gabinete, mas atua nos bastidores do novo governo em Brasília. Em poucas semanas, a feminista se tornou a nova superestrela política do país.

"Se o presidente recém-eleito teve uma votação feminina determinante, isso se deveu ao fato de que as mulheres endossaram a 'chapa' Lula-Janja", escreveu a colunista Vera Iaconelli no jornal Folha de S. Paulo. "Janja representa um estilo de primeira-dama para o qual o Brasil, e arrisco dizer, grande parte dos governos, ainda não está preparado."

Lula e sua primeira-dama, filiada ao PT desde 1983, se conhecem há mais de 30 anos. O relacionamento começou em abril de 2018, um ano após a morte de Marisa Letícia, segunda mulher de Lula. Foi Janja quem organizou a cerimônia de posse de 1º de janeiro de 2023.

Primeira-dama Janja segura cachorra no colo
Primeira-dama Janja atua nos bastidores do novo governoFoto: Ueslei Marcelino/REUTERS

Meio ambiente e direitos indígenas

Na Esplanada, duas mulheres estão a cargo da proteção ambiental e climática, um dos temas centrais do novo governo: Marina Silva voltou a liderar a pasta do Meio Ambiente, enquanto a ativista indígena Sônia Guajajara comanda o recém-criado Ministério dos Povos Indígenas.

Multipremiada e reconhecida internacionalmente, Marina assume agora o desafio de frear a destruição da Amazônia promovida pelo governo Jair Bolsonaro nos últimos quatro anos.

Nascida numa família de seringueiros no Acre, em 1994, aos 36 anos, ela se tornou a mais jovem senadora da história da República. Foi nomeada ministra do Meio Ambiente pela primeira vez em 2003, também por Lula. Cinco anos mais tarde, Marina deixou o cargo e se desfiliou do PT, após uma disputa sobre restrições ambientais à construção de hidrelétricas. Em 2014, concorreu à Presidência da República por seu próprio partido, a Rede.

Já Sônia Guajajara foi eleita em 2022, pela revista americana Time, uma das 100 personalidades mais influentes do mundo. Nascida em 1974 na reserva indígena de Arariboia, no Maranhão, ela coordenou as campanhas da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) por dez anos e é conhecida internacionalmente por sua participação nas conferências climáticas da ONU.

Nas eleições de 2018, Guajajara se tornou a primeira indígena a compor uma chapa presidencial, tendo sido candidata a vice de Guilherme Boulos (Psol). Em 2022, foi eleita deputada federal por São Paulo, com mais de 150 mil votos válidos.

Sônia Guajajara
Sônia Guajajara é primeira ministra indígena do paísFoto: Vincent Bosson/Fotoarena/IMAGO

Igualdade Racial e Mulheres

Outras duas nomeações de mulheres enviaram um sinal político importante contra o racismo e a violência de gênero, que vem crescendo no Brasil desde 2015: Anielle Franco foi empossada ministra da Igualdade Racial, enquanto Aparecida Gonçalves é a nova ministra das Mulheres.

"Em nome da memória da minha irmã e das mais de 115 milhões de pessoas negras no Brasil, que são maioria da população e que precisam de um governo que se preocupe com os seus direitos de bem viver, de oportunidades, com segurança, comida, educação, emprego, cultura, dignidade", escreveu Anielle nas redes sociais ao aceitar a nomeação.

Jornalista, escritora, educadora e ativista dos direitos das mulheres e dos negros, Anielle é irmã de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março de 2018.

Já Aparecida Gonçalves é ativista do movimento feminista e especialista em gênero e violência contra a mulher. Nos dois primeiros mandatos de Lula e nos de sua sucessora, Dilma Rousseff (PT), ela atuou como secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres.

Lula e Aparecida Gonçalves
Aparecida Gonçalves é a nova ministra das Mulheres Foto: Ton Molina/Fotoarena/IMAGO

Saúde e outras pastas

Simone Tebet, ex-candidata à Presidência que apoiou Lula no segundo turno das eleições de 2022 após ser derrotada no primeiro, é a nova ministra do Planejamento e também se descreve como feminista. Ainda vale mencionar a nomeação de outras duas mulheres para pastas importantes: Margareth Menezes assumiu o comando da Cultura, enquanto Luciana Santos chefia a Ciência e Tecnologia.

Outro aceno de Lula às mulheres foi a escolha da socióloga Nísia Trindade como primeira ministra da Saúde da história do Brasil. A especialista em saúde pública foi também a primeira mulher presidente da Fiocruz, cargo que ocupava desde 2017. Sob sua chefia, o instituto de pesquisa teve papel fundamental no combate à covid-19.

Enquanto o ex-presidente Bolsonaro descrevia a doença como uma "gripezinha" e minimizava a importância das vacinas, Trindade coordenou a cooperação com a farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford para o desenvolvimento do imunizante anticovid. A parceria permitiu a produção doméstica e o fornecimento da vacina para a população brasileira.

Observadores políticos concordam: sob Lula, as mulheres ganharam influência política, mesmo que o novo presidente ainda pudesse ter feito mais – como equiparar o número de homens e mulheres na Esplanada dos Ministérios. Das 37 pastas, 26 serão comandadas por homens e 11, por mulheres. É a maior representação feminina num gabinete, na história do país, superando o recorde anterior, do governo Dilma, que teve oito ministras. Ainda assim, 70% dos ministros são homens.