Angola: "É preciso melhorar indicadores financeiros da TAAG para depois privatiza-la"

Economista Francisco Paulo considera que ao privatizar empresa com resultados negativos o Estado arriscaria a vendê-la potencialmente negativa a preço baixo. Relatório indica que TAAG está em falência técnica há 3 anos.

Um relatório às contas da companhia aérea nacional de Angola indica que ela está em falência técnica pelo terceiro ano consecutivo, revela o jornal Expansão. Apesar de tudo, de 2016 a 2017 a TAAG, Transportes Aéreos de Angola, terá conseguido reduzir os prejuízos para a metade, altura em que estava a ser gerida pela internacional Emirates. E o relatório da auditora Ernst & Young, de março de 2018, alerta para dificuldades de sobrevivência da TAAG. A recapitalização é apontada como solução pelos gestores da companhia. A DW África entrevistou o economista Francisco Paulo sobre a situação.

DW África: O jornal Expansão cita um relatório às contas da TAAG, que revela que a companhia aérea está em situação de falência técnica pelo terceiro ano consecutivo e por isso precisa de um aumento de capital. Estando Angola ainda em situação de crise financeira e económica, o Estado, que é o único acionista, estaria em condições de investir na empresa?

Francisco Paulo (FP): A TAAG é uma empresa que pode ser lucrativa e tem um mercado. É possível, com uma boa gestão, terminar esse círculo de resultados negativos e fazer com que a empresa apresente resultados positivos ao ter mais receitas do que custos. O relatório a que o Jornal Expansão faz referência, de facto, durante três anos consecutivos a TAAG apresentou resultados líquidos negativos. E como em qualquer outra empresa, quando, de facto, a empresa não está a conseguir gerar resultados positivos, isso tem resultados no capital próprio. Essa série de resultados líquidos negativos faz com que o capital próprio da empresa seja negativo e para [resolver] isso é preciso uma recapitalização.

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NOTÍCIAS | 08.02.2019

Angola: "É preciso melhorar indicadores financeiros da TAA...

DW África: E qual seria a solução para a companhia: uma parceria externa, a semelhança do que aconteceu já com a Emirates ou a entrada de um novo acionista na estrutura da TAAG?

FP: Note que nos meses em que a Emirates esteve a fazer a gestão da TAAG a empresa conseguiu diminuir os resultados negativos. Acho que em 2016 a TAAG apresentou resultados negativos de 15,1 mil milhões de kwanzas, já em 2017 o resultado diminuiu para 7,7 mil milhões. Possivelmente se a Emirates não tivesse abandonado a TAAG até 2018 ou 2019, a empresa já poderia ter apresentado resultados positivos, o que seria o ideal. Então, é importante, de facto, rever este contrato para ver em que termos a Emirates pode regressar e fazer com que a empresa apresente resultados positivos novamente. Somente assim daria jeito privatizar, porque privatizar uma empresa com resultados negativos o Estado estaria a arriscar vender uma empresa potencialmente negativa a preço baixo porque apresenta resultados negativos. Então, acho que é importante melhorar os indicadores financeiros e económicos da empresa, depois poder alienar parte das ações e finalmente convidar o setor privado.

DW África: Em novembro de 2018 falou-se da possibilidade da entrada da Emirates como acionista com cerca de 35%. Entretanto não se confirmou nada até agora. Mas tomando em conta a gestão da TAAG pela Emirates, a sua entrada como acionista seria vantajosa para a companhia de bandeira angolana?

Stand da TAAG na Feira de Turismo de Berlim, 2014

FP: Muita vantagem, iria melhorar a eficiência. A nível mundial a Emirates é uma companhia de aviação muito eficiente, quase tem rotas para toda a parte do mundo. Dubai conseguiu tornar-se um hub das interconexões de voos internacionais porque a Emirates é eficiente. E tendo a Emirates ações na TAAG claro que iria geri-la com bom gosto, não vai querer ver o seu capital mal aplicado, portanto, seria uma das alternativas.

DW África: Acredita-se que a TAAG tenha um excesso de mão de obra. Para uma empresa que está a apresentar maus resultados esta é uma das situações a ser rapidamente sanada?

FP: Sim, acho que o próprio Presidente da República [João Lourenço] e o próprio ministro dos Transportes quando assumiram os cargos reconheceram isso, que a TAAG tem de resolver o problema dos trabalhadores. Há muita gente que na verdade não faz quase nada, então, é melhor ver como esses trabalhadores podem ser melhor utilizados, isso é um facto. Agora, cabe a empresa e o Estado analisarem isso, a melhor forma de lidar com esses trabalhadores.

Angola: Jovens desempregados marcham em Luanda

Caminhar por mais emprego

Onde estão os 500 mil empregos que o Presidente da República, João Lourenço, prometeu durante a campanha eleitoral de 2017? Foi uma das questões colocadas pelos jovens desempregados que marcharam nas ruas de Luanda. A marcha decorreu sob o lema "Emprego é um direito, desemprego criminaliza".

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Apoio popular

Populares e vendedores ambulantes apoiaram o protesto deste sábado, que foi também acompanhado pelas forças de segurança. Participaram na marcha algumas associações como o Movimento Estudantil de Angola (MEA) e a Associação Nova Aliança dos Taxistas. Os angolanos que exigem criação de mais postos de trabalho marcharam do Cemitério da Sant Ana até ao Largo das Heroínas, na Avenida Ho Chi Minh.

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Níveis alarmantes

O Governo angolano reconhece que o nível de desemprego é preocupante no país. 20% da população em idade ativa está desempregada, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados no ano passado. Os jovens em Angola são os mais afetados - 46% não têm emprego.

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Palavras de ordem

Os manifestantes exibiram vários cartazes com mensagens dirigidas ao Presidente e ao Governo: "João Lourenço mentiroso, onde estão os 500 mil empregos?", "Ser cobrador de táxi não é minha vontade" e "Por kunangar perdi respeito em casa”, foram algumas das questões levantadas.

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Estágios, inclusão e subsídios

Além de empregos, os manifestantes exigem políticas de estágio - para que os recém formados tenham a experiência exigida pelas empresas – e programas que beneficiem pessoas com deficiência física. Este sábado, pediram também ao Governo que atribua subsídio de desemprego aos angolanos que não trabalham.

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Sem perspetivas de trabalho

O índice do desemprego piorou com a crise económica e financeira em Angola, desde 2015. O preço do crude caiu no mercado internacional, e, como o país está dependente das exportações de petróleo, entraram menos divisas. Muitas empresas foram obrigadas a fechar as portas e milhares de cidadãos ficaram desempregados.

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Formados e desempregados

Entre os manifestantes ouvidos pela DW África em Luanda, histórias como a de Joice Zau, técnica de refinação de petróleo, repetem-se. Concluiu a sua formação em 2015 e, desde então, não teve quaisquer oportunidades de emprego: "Já entreguei currículos em várias empresas no ramo petrolífero e nunca fui convocada", conta. Gostaria de continuar a estudar, mas, sem emprego, são muitas as dificuldades.

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É preciso fazer mais

Para a ativista Cecília Quitomebe, o Executivo está a "trabalhar pouco para aquilo que é o acesso ao emprego para os jovens". No final da marcha, a organização leu um "manifesto" lembrando que a contestação à política de João Lourenço começou a 21 de julho, quando o mesmo grupo de jovens exigiu mais políticas de emprego. Na altura, a marcha realizou-se em seis cidades. Este sábado, ocorreu em 12.

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