Angola e Moçambique querem modernizar agricultura

Angola e Moçambique desenham um plano de desenvolvimento e projeção da agricultura familiar. As diretrizes para a sua implementação nos países lusófonos constam da Carta de Lisboa, agora assinada na capital portuguesa.

Angola quer redinamizar a agricultura, pela via da industrialização. Para isso, terá de desenvolver políticas exclusivas de desenvolvimento, de forma a incrementar a agricultura familiar tradicional. Quem o afirma é a Associação Industrial de Angola (AIA), que alerta que este método será a via para inverter a tendência de importação de mais de 90% dos produtos consumidos no país.

Para além de Angola, também Moçambique deve seguir o mesmo caminho. A Federação Nacional das Associações Agrárias Moçambicanas defende uma aposta na agricultura familiar, num país onde a agricultura de grande escala tem gerado polémica.

As diretrizes para o desenvolvimento da agricultura familiar nos países lusófonos constam da Carta de Lisboa, assinada esta quarta-feira (07.02), na capital portuguesa. O acordo foi oficializado no final dos trabalhos da Reunião de Alto Nível deste setor, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian.

Obstáculos financeiros

Quando se fala na urgência de diversificar a economia angolana, fala-se também no peso da agricultura, pela sua potencialidade. Mas há sérios desafios apela frente, sublinha o vice-presidente da Associação Industrial de Angola, Eliseu Gaspar. "Nós temos um país com imensas terras aráveis, com potencial hídrico de invejar e temos uma população que, na sua maioria - mais de 50% das famílias angolanas - se dedica à agricultura, mais especificamente à agricultura familiar", afirma.

Eliseu Gaspar: "Vamos ter um ano bastante difícil"

A "petrodolarmania" que vigorou nos últimos anos – assente na exploração petrolífera – relegou para segundo plano o setor da agricultura, lembra ainda o vice-presidente da Associação Industrial de Angola. Mas com a atual grave crise financeira e económica em que o país está mergulhado, o novo Governo pretende agora apostar no agro-negócio.

No entanto, a verba prevista para este setor no Orçamento de Estado para 2018 inquieta Eliseu Gaspar. "Se tivermos em conta que a União Africana, em resolução recente, aprovou 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a agricultura e para o nosso orçamento deste ano foi disponibilizado zero vírgula qualquer coisa por cento, estamos a falar de uma fasquia bastante irrisória", diz.

Se não houver apoios estatais, a população encontrará dificuldades para continuar a viver da agricultura familiar, sublinha Eliseu Gaspar. Outra preocupação é a seca, que afeta as províncias do sul e o acesso à água dos rios, que é desviada para grandes propriedades. "Apesar destes obstáculos, Angola tem um potencial hídrico que permite uma agricultura intensiva durante todo o ano. Mas temos que modernizar a nossa agricultura, temos que deixar de praticar uma agricultura de subsistência, para passar a uma agricultura virada para o desenvolvimento e isso pressupõe deixar de fazer uma agricultura a contar com a chuva".

Fomento do setor privado

Apesar destas vontades e necessidades, Eliseu Gaspar está ciente das dificuldades económicas e deixa o futuro a seu tempo. "Os governos estão a atravessar enormes dificuldades. No caso de Angola, por exemplo, o preço do petróleo baixou, herdámos um país com uma dívida externa e interna bastante elevada, e há que repor aquele poder de financiamento que, infelizmente, não temos. Vamos ter um ano bastante difícil, um ano de adaptação e vamos ver o que pode acontecer."

Ao vivo agora
03:31 min
MEDIATECA | 09.02.2018

Angola e Moçambique unidos pela Agricultura Familiar

Na perspetiva de Eliseu Gaspar, a alternativa é o fomento do setor privado, com recurso a fundos externos, através da Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO) e do Banco Mundial. Será também necessário, promover políticas públicas que fomentem a fixação das famílias no meio rural. Esta é, igualmente, a estratégia de Moçambique, através de um projeto de cadastro prévio, que envolve os apoios do Brasil e da FAO, segundo revelou Sandra Silva, diretora de Extensão Rural.

"Pretende-se com este projeto, fortalecer as capacidades de Moçambique, desenhando um instrumento com vista a realizar o cadastro do setor familiar. Portanto, 99% são famílias abarcando este setor, mas a identificação e a caraterização deste setor familiar vai permitir um melhor direcionamento de políticas públicas, para este grupo alvo", disse.

Prioridade para famílias sem recursos

Moçambique também defende a inclusão. No entanto, enfrenta dificuldades de ordem financeira para apoiar as famílias, que não têm acesso ao crédito bancário, lembra Julina Harculette, delegada da Federação Nacional das Associações Agrárias de Moçambique.

Julina Harculette

"As grandes empresas servirão de garantia para que nós possamos ter acesso aos outros mercados. O pequeno agricultor não tem certificado, tem problemas de qualidade, de transporte, de embalagem. Vamos fazer uma espécie de cadeia, uma espécie de formação. Se formos a ver a agricultura familiar, é praticada 90% pelas mulheres e raparigas. Além disso, temos os jovens que não têm trabalho, não têm emprego. Então, essa inclusão já pode trazer algum progresso e pode fazer alguma diferença", explicou.

No que toca à facilitação de acesso a financiamento por parte do agente agrícola, Julina Harculette lembra que "o agricultor familiar não tem garantias a não ser a terra, que pouco ou nada serve de garantia para o banco". Por isso, acrescenta, "esse mecanismo vai criar uma facilitação, através das empresas que nele estão incluídas. Vamos procurar financiamento, para dar garantias aos agricultores e daí, poderem desenvolver as suas atividades".

Julina Harculette encabeça a delegação moçambicana da sociedade civil, que veio a Lisboa participar na reunião de três dias, sobre a agricultura familiar e desenvolvimento sustentável na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O encontro, que contou com a participação de José Graziano da Silva, diretor geral da FAO, terminou esta quarta-feira (07.02), com a assinatura ao mais alto nível da Carta de Lisboa pela Agricultura Familiar.

África luta contra as alterações climáticas

África luta contra as alterações climáticas

Os países industrializados são os principais responsáveis pela produção de gases de efeito de estufa, que contribuem para as alterações climáticas. Mas as principais vítimas estão no hemisfério sul. Enquanto África sofre com a seca, as tempestades, a erosão e a desertificação, os africanos estão a lançar iniciativas para combater as alterações climáticas.

África luta contra as alterações climáticas

20 milhões em fuga das alterações climáticas em África?

Na Beira, em Moçambique, os efeitos já se fazem sentir. O nível das águas do mar está a subir e as inundações destroem bairros inteiros. Segundo a Greenpeace, todos os anos fogem das consequências das alterações climáticas mais do dobro das pessoas que fogem da guerra e da violência. Especialistas estimam que haverá cerca de 20 milhões de "refugiados do clima" africanos dentro de uma década.

África luta contra as alterações climáticas

Desafiar a força do mar

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), o nível do mar deverá subir de 40 a 80 centímetros até 2100. Mas a Beira quer proteger-se das inundações e, para isso, construíram-se novos canais e cancelas: quando a maré sobe, a cancela fecha-se para proteger a parte baixa da cidade. Em caso de chuvas fortes, a cancela abre-se e auxilia na drenagem da água.

África luta contra as alterações climáticas

A "Grande Muralha Verde"

As areias do deserto do Saara continuam a avançar para sul, destruindo os terrenos agrícolas da África Subsaariana. Onze países estão a tentar travar a desertificação com um "muro" de floresta com 7,750 km de comprimento e 15 km de largura. As raízes das árvores estabilizam e ventilam o solo, permitindo a absorção de água. O projeto também significa novos meios de subsistência para os habitantes.

África luta contra as alterações climáticas

Prevenir a erosão

Cada vez mais agricultores deixam de poder trabalhar os seus campos por causa da erosão e da desertificação. Com um sistema de irrigação especial, Souna Moussa, do Níger, torna o seu solo fértil novamente. A técnica tem vários séculos, mas foi totalmente esquecida. Os especialistas também recomendam o cultivo de culturas mais tradicionais, que se adaptam melhor às terras.

África luta contra as alterações climáticas

Energia hidroelétrica em vez de carvão

Muitos governos africanos apostam na água para garantir o fornecimento de energia nos seus países e estão a ser construídas novas infraestruturas. A energia hidroelétrica é amiga do ambiente, mas alguns projetos são controversos: por vezes, destroem-se vastas áreas de floresta e deslocam-se comunidades inteiras para abrir espaço para a construção de barragens.

África luta contra as alterações climáticas

Energia limpa para África

Até 2030, a eletricidade chegará a todo o continente africano. Este ambicioso objetivo foi estabelecido por 55 chefes de Estado e de Governo africanos na Conferência do Clima de Paris, em 2015. A Iniciativa para as Energias Renováveis em África pretende alimentar a rede elétrica africana com 300 gigawatts de eletricidade limpa por ano. Parques eólicos como este, na Etiópia, são apenas o começo.

África luta contra as alterações climáticas

Autossuficiência

Cada vez mais pessoas em África geram a sua própria energia - e não dependem mais da rede elétrica pública ou de geradores. A queda do preço da energia solar torna a eletricidade renovável mais acessível, seja no fornecimento de energia a hospitais e escolas com painéis solares ou na iluminação de casas com pequenas lâmpadas alimentadas por energia solar.

África luta contra as alterações climáticas

Garrafas de plástico em vez de tijolos

Em África, a reciclagem não conquistou apenas o mundo da moda: já chegou ao setor da construção. Na Nigéria, constroem-se casas com garrafas de plástico usadas que, de outro modo, seriam deitadas fora, contribuindo para o aumento da poluição. Estima-se que, a cada minuto, seja comprado um milhão de garrafas de plástico em todo o mundo.

África luta contra as alterações climáticas

A jovem heroína do ambiente da Tanzânia

Gertrude Clement, de 16 anos, está empenhada na proteção do ambiente. Uma vez por semana, a adolescente da Tanzânia apresenta um programa ambiental na sua estação de rádio local. "Espero que os meus ouvintes estejam a fazer alguma coisa para mudar a situação - para proteger o ambiente e manter a nossa água limpa", disse à DW. Na foto, Gertrude fala na Assembleia Geral da ONU, em abril de 2016.

África luta contra as alterações climáticas

Procuram-se especialistas do clima

Para que África consiga enfrentar as alterações climáticas, é preciso entender melhor os seus efeitos a nível local e regional. O Centro Científico para as Alterações Climáticas da África Austral, criado por Angola, Namíbia, Botsuana, África do Sul, Zâmbia e Alemanha está a trabalhar para isso. A organização quer reduzir o impacto das alterações climáticas na agricultura e nos recursos hídricos.

Conteúdo relacionado