Angola: Novo Governo, problemas antigos

Nada mudará com o Governo de João Lourenço, acredita Orlando Castro. Por exemplo, a corrupção deve continuar em alta e a prova disso é o facto de Angola entrar em litígio por causa de Manuel Vicente, diz o analista.

A DW África conversou com o analista e jornalista luso-angolano Orlando Castro sobre as expetativas em relação ao novo Governo em Angola. Podem-se esperar mudanças no que diz respeito ao combate à corrupção, melhorias das condições de vida das populações conforme prometeu João Lourenço durante a caça ao voto? Angola daqui para frente: continuidade ou ruptura? Leia a entrevista.

DW África: João Lourenço nomeou 32 ministro para o seu Governo quando tinha prometido que não teria um Governo tão grande. Este é um sinal de que o seu Executivo será despesista?

Orlando Castro (OC): Naturalmente que vamos ter um Governo despesista, porque isso está um bocado no próprio ADN do MPLA. E João Lourenço já não está a cumprir com o que prometeu na campanha eleitoral, que era ter um Governo mais curto e também não está a cumprir com o que referiu no seu discurso de posse, em que também voltou a falar num Governo mais curto. Portanto, vamos ter um Governo, que como utiliza dinheiro do erário público, do povo e que apesar da crise não custa assim tanto a ganhar, vamos ter um Governo mais despesista, um Governo mais vocacionado para obras de fachada do que, de facto, para a tomada de decisões estruturais de fundo.

Interview mit dem Blogger Orlando Castro

Orlando Castro, analista político e jornalista

DW África: João Lourenço está em condições de cumprir com o que prometeu? Por exemplo, na melhoria das condições de vida para a população e combate à corrupção tomando em conta que tem mostrado uma espécie de continuidade em relação às políticas do anterior Governo?

OC: Ele não está em condições de tomar essas medidas e nem de cumprir com o que prometeu, porque desde logo é um Governo de continuidade. Alguns dos ministros transitam de um lado para o outro, e portanto, João Lourenço mesmo que quisesse, o que tenho sérias dúvidas, não vai conseguir cumprir o que prometeu. Em relação à corrupção isto é mais ou menos como prometer que se vai cuidar das galinhas e depois por a raposa dentro do galinheiro a cuidar das galinhas. Uma forma de dar sinal de que estariam interessados em combater a corrupção seria não entrar em litígio com Portugal no caso Manuel Vicente (ex-vice-Presidente de Angola). Se Vicente não deve não tem o que temer, o que é da política é da política e o que é da justiça é da justiça. E se eles dissessem que o Manuel Vicente vai defender-se em tribunal nós começaríamos a creditar que, de facto, o regime queria rejuvenescer-se, mas não me parece que isso venha a acontecer nos tempos mais próximos.

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NOTÍCIAS | 02.10.2017

02.10.17. ONLINE Angola Governo Castro - MP3-Mono

DW África: João Lourenço e alguma ala do MPLA teriam força suficiente e coragem para tentar mudar a direção do partido, tirando, por exemplo, José Eduardo dos Santos da liderança do MPLA, para que Lourenço possa ter a oportunidade de governar plenamente o país?

OC: José Eduardo dos Santos disse que ficaria na política ativa até 2018, a ser verdade ele deixará a liderança do MPLA em 2018. E se isso acontecer é natural que se notem alguns laivos de alteração na política de João Lourenço. Mas o problema todo está em que o núcleo duro do MPLA é o núcleo a que pertence também João Lourenço. Ou seja, com José Eduardo dos Santos a liderar o MPLA ou o João Lourenço a liderar a situação básica de Angola vai manter-se, porque não há um rompimento, não há uma clivagem com a filosofia do próprio partido que continua a funcionar numa tese de democracia com um partido único. Isto é, Angola é formalmente uma democracia, tem partidos, mas o partido dominante continua a funcionar como se fosse um partido único. E as pessoas que estão ligadas à José Eduardo dos Santos, ou que eventualmente venham a estar ligadas à João Lourenço comungam todas desses mesmos princípios. Portanto, é extremamente difícil fazer qualquer ruptura com o sistema.

Política

Pouco espaço para a oposição

Na pré-campanha, a oposição afirmou que nas ruas de Luanda só se viam cartazes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Segundo a Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral (CASA-CE), as agências publicitárias recusavam-se a divulgar materiais da oposição, sob risco de perderem as licenças e os espaços publicitários atribuídos pelo Governo Provincial de Luanda.

Política

Propostas na rádio e televisão

Após a pré-campanha, a Comissão Nacional Eleitoral estabeleceu o período de 23 de julho a 21 de agosto para a campanha eleitoral. Além dos atos de massa, os partidos puderam apresentar as suas propostas nos meios de comunicação social do país. A oposição voltou a dizer que não teve o mesmo espaço que o partido no poder.

Política

Combate à corrupção

Combater a corrupção foi uma das metas apresentadas pelo MPLA. O partido no poder, que tem João Lourenço (foto) como cabeça-de-lista, reconheceu durante a campanha que o país "não pode mais sofrer com a corrupção". A ausência do candidato à vice-presidência, Bornito de Sousa, e do Presidente cessante José Eduardo dos Santos, que supostamente estavam doentes, também marcou a campanha eleitoral.

Política

"Interesse nacional"

Entre as propostas da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) está a gratuidade da educação até o ensino secundário. O maior partido da oposição também prometeu um Governo em que o "interesse nacional" esteja acima de "interesses partidários, setoriais ou pessoais". O partido liderado por Isaías Samakuva encerrou sua campanha eleitoral no Cazenga (foto), em Luanda.

Política

Mudança depois de 42 anos

A CASA-CE, segundo maior partido da oposição, reuniu ao longo da campanha milhares de apoiantes em diferentes atos de massa nas províncias (foto em Benguela, a 29 de julho). No ato de encerramento, em Luanda, o candidato Abel Chivukuvuku pediu confiança dos angolanos para pôr fim aos "42 anos de sofrimento e má governação".

Política

Estados federados

A campanha do Partido de Renovação Social (PRS) foi marcada pela proposta de implantar um sistema federalista no país. O cabeça-de-lista Benedito Daniel (ao centro da foto) defendeu que só através dessa reforma as províncias angolanas – convertidas em estados – teriam autonomia para governar.

Política

Angolano no "centro da governação"

A campanha da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) deu especial atenção à pobreza, saúde, educação e emprego. Liderado por Lucas Ngonda, o partido diz que é a "única formação partidária que tem o angolano como centro da sua governação". A abertura da campanha eleitoral aconteceu no Bié (foto), berço do antigo braço armado do partido, a União Para a Libertação de Angola (UPA).

Política

"Dubai africano"

A Aliança Patriótica Nacional (APN) é o partido com o candidato à Presidência mais jovem. Durante a sua campanha eleitoral, o ex-deputado Quintino Moreira (à esquerda na foto) prometeu criar um milhão de empregos – o dobro do que o MPLA prometeu nestas eleições. Além disso, disse que transformaria a província do Namibe num "Dubai africano".

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