Após definir futuro de seus homens armados, RENAMO espera "total e verdadeira reconciliação nacional"

Porta-voz do partido voltou a defender reintegração militar incluindo postos de comando e reinserção social digna para forças residuais. José Manteigas acredita que processo será "célere".

Em Moçambique, o principal partido da oposição está satisfeito com a condução do processo de desarmamento, desmobilização, integração e reinserção social dos seus homens armados, laçado no passado sábado (06.10).

Em entrevista à DW África, ao descrever as etapas do processo, o porta-voz da formação política não definiu um prazo para a conclusão do processo, mas disse acreditar que será realizado de forma "célere".

José Manteigas defendeu, no entanto, a necessidade de se corrigir falhas na reintegração nas instituições militares com seus homens a ocuparem posições em todos os níveis.

Para Manteigas, a integração social tem de ser feita de forma "mais humanizada e com maior dignidade".

Polizeizentrale in Cabo Delegado, Mosambik

Sede da PRM em Nampula

DW África: Quais são as etapas do processo de desarmamento, reintegração, integração e reinserção social dos homens armados da RENAMO?

José Manteigas (JM): Primeiro dizer que, em termos de princípio, a RENAMO diz que o processo é de reintegração e integração, desarmamento e reinserção social dos guerrilheiros ou da força da residual da RENAMO. E, em segundo lugar, pelos passos que estão a ser dados, de fato são passos bons no âmbito dos entendimentos que estamos a ter, que já tivemos antes [do falecimento] do malogrado Presidente, saudoso Afonso Dhlakama.

Recentemente, o Presidente da República anunciou o processo de reintegração das forças residuais na PRM e reintegração dos nossos oficiais e comandos nas Forças Armadas de Moçambique.

Portanto, isto está a funcionar e está a caminhar nos termos em que até aqui tivemos os entendimentos com o Governo, na pessoa do Presidente da República.

DW África: Em termos práticos, como é que vai ser conduzido este processo? Quais são os passos a seguir?

JM: O anúncio que o senhor Presidente da República fez, relativamente ao início desse processo, está a iniciar com a chegada dos nossos amigos internacionais, observadores, que vão apoiar este processo.

Mosambik Treffen Nyusi und Dhlakama in Gorongosa

Encontro histórico do Presidente Nyusi com Afonso Dhlakama, na Gorongosa

DW África: Sim, mas esses observadores que estão em Moçambique vão acompanhar o processo. Há passos relativos a esse processo. Quais são os passos?

JM: Os passos são os que eu mencionei antes. Porque nós temos, num dos elementos, a reintegração dos nossos companheiros, que foram reintegrados nas Forças Armadas ou levados para posições secundárias e até mesmo inexistentes. Como sabe, chegou-se a levar um oficial das Forças Armadas para exercer a função de assessor e esta figura não existe no seio das Forças Armadas.

O que sabemos agora e o que foi acordado é que esses oficiais que foram integrados nas suas comissões, nos seus comandos devem ser reintegrados. Este é o primeiro processo.

No segundo processo, temos as forças residuais que estão nas várias bases em Moçambique. E essas forças residuais, aqueles que têm capacidade física e formação para incorporar a Polícia da República de Moçambique e os serviços de informação e segurança do Estado, esses não são patriotas, vão ser integrados.

O remanescente dessas forças residuais é esse que vai ser desarmado e depois reintegrado na vida social. Mas, o que nós temos estado a dizer é que têm de ser integrados na vida social de forma humana e de forma digna - para evitar aquelas situações em que lhes são entregues uma catana e uma enxada e simplesmente são enviados para a sua casa. Isso tornou esses nossos companheiros muito vulneráveis em termos de necessidades.

Portanto, estamos a dizer que mesmo a integração social tem de ser mais humanizada e com maior dignidade.

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Portugiesisch | 09.10.2018

RENAMO espera "total e verdadeira reconciliação nacional"

DW África: Qual é o prazo estipulado para o fim deste processo?

JM: Sabe muito bem que as questões militares são questões muito sensíveis. Pela maneira como o Presidente da República está a dirigir este processo e pela maneira também como o general Ossufo Momade, o nosso coordenador nacional, está a dirigir o processo, acreditamos que esse processo vai ser célere e poderá culminar, de fato, com uma total e verdadeira reconciliação nacional, que é o que nós pretendemos.

DW África: Face a esses passos considerados positivos que estão a ser dados, quando o coordenador nacional da RENAMO, Ossufo Momade, sairá da Serra da Gorongosa?

JM: O coordenador Ossufo Momade sairá da Gorongosa quando tivermos um entendimento definitivo. Portanto, todo esse processo tem de ser liderado pelo general Ossufo Momade. Ele não pode abandonar os nossos compatriotas para vir à cidade antes de que haja um entendimento.

DW África: A RENAMO manterá alguns homens armados para funções como segurança, por exemplo? Como vai ser?

JM: O que eu devo dizer é que os nossos homens, essas forças residuais que vão ser enquadradas na PRM, deverão estar nos comandos aos vários níveis, desde o comando-geral aos comandos provinciais e distritais e também nas esquadras. Esse é o nosso entendimento.

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