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Caso Odebrecht não teve impacto em Angola

12 de junho de 2019

Ativistas e membros da oposição questionam o "silêncio" da Justiça angolana em relação ao caso Odebrecht. Entre 2006 e 2013, a construtora terá pago mais de 50 milhões de dólares em subornos a políticos em Angola.

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Brasilien - Baukonzern Odebrecht trifft vereinbarung mit Peru - Firmenlogo
Foto: Getty Images/AFP/N. Almeida

Os negócios da Odebrecht em Angola voltam a ser alvo de questionamento, pouco depois de um antigo ministro ser detido em Moçambique por alegado envolvimento num esquema de corrupção relacionado com a construtora brasileira.

Ativistas e políticos da oposição angolana questionam: se o Ministério Público moçambicano investigou as denúncias de corrupção em que a construtora brasileira estará envolvida, porque que é que a Procuradoria angolana não faz o mesmo? Mas o "silêncio" permanece e as críticas aos órgãos do país continuam. Entretanto, passam mais de dois anos desde que a Odebrecht admitiu ter pago subornos.

De acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, a empresa gastou cerca de 788 milhões de dólares em "luvas" para funcionários de Governos de 12 países. Em Angola, a Odebrecht terá desembolsado, entre 2006 e 2013, mais de 50 milhões de dólares para subornar oficiais do Governo e conseguir contratos públicos, segundo as autoridades norte-americanas.

"Silêncio"

De lá para cá, vários ativistas têm pedido à Justiça angolana para dar seguimento ao caso no país. Mas o "silêncio" é cada vez mais ensurdecedor, comenta o jurista e deputado independente da Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral (CASA-CE), Lindo Bernardo Tito.

Lindo Bernardo Tito, CASA-CE in Angola
Lindo Bernardo Tito, deputado angolanoFoto: DW/N.S. D'Angola

"Seria interessante que a própria Procuradoria-Geral da República (PGR) pudesse abrir um inquérito judicial para ver qual foi a relação entre a Odebrecht Angola e o Executivo do Presidente José Eduardo dos Santos", disse o parlamentar da terceira força política em Angola.

A gigante brasileira foi a responsável por grandes empreendimentos em Angola. Construiu as estradas nas províncias de Malanje, a norte, e no Huambo, a sul do país, em 2012. Edificou ainda o sistema de transporte associado ao Aproveitamento Hidroelétrico de Laúca.

Mas para o deputado Lindo Bernardo Tito, a relação entre a antiga governação de José Eduardo dos Santos e a construtora brasileira Odebrechet é "suscetível de muitos questionamentos".
"Deixou muitas zonas cinzentas questionáveis, obviamente. Porquanto é visível que, em várias obras que essa empresa assumiu, algumas não terminaram, e as que terminaram, terminaram com muito defeito. Aliás, a própria aproximação entre o presidente da Odebrecht e do ex-Presidente José Eduardo dos Santos é suscetível de algum questionamento".

Investigação e detenções noutros países

Por seu turno, o ativista cívico angolano Nelson Euclides, que se junta ao coro de vozes que criticam o silêncio da justiça, pede uma investigação aos contratos da construtora Odebrecht em Angola. "É do conhecimento de todos que esta empresa tem sido alvo de polémica a nível internacional, tudo porque há indícios de que em todos os países em que a empresa prestou serviço houve supostamente envolvimento de corrupção".

No Brasil, a Odebrecht está envolvida no maior escândalo de corrupção do país, descoberto no âmbito da "Operação Lava Jato", e vários políticos, incluindo o ex-Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, foram condenados à prisão. O escândalo resvalou para o Peru, onde quatro ex-Presidentes também foram investigados. Um deles, Alan García, que se suicidou pouco antes de ser detido por alegado envolvimento no caso daquela empresa.

Caso Odebrecht não teve impacto em Angola

Este mês, em Moçambique, o antigo ministro dos Transportes e Comunicações, Paulo Zucula, foi detido preventivamente. É suspeito de ter recebido dezenas de milhares de dólares para facilitar a adjudicação de obras do Aeroporto de Nacala à Odebrecht. O ex-ministro das Finanças moçambicano Manuel Chang também é arguido no caso.

A Odebrecht não está apenas associada a esquemas de corrupção. Em 2017, a construtora assinou um acordo de 10 milhões de dólares com a Justiça brasileira por manter mais de 400 trabalhadores em condições semelhantes à escravidão durante a construção da Biocom, uma fábrica de açúcar e etanol em Angola. Antes, em 2016, o jornalista e ativista angolano Rafael Marques também já havia denunciado casos de morte e tortura de camponeses em áreas onde a construtora brasileira operava.

Mas, vários anos depois, ainda não há nenhum processo judicial em curso movido pela Procuradoria-Geral angolana. E o ativista angolano Nelson Euclides questiona: Por que continua a Justiça em silêncio?

"Questiona-se o facto de a nossa PGR não se pronunciar sobre essa empresa uma vez que a mesma prestou muito serviço no nosso país, mas notamos que há um silêncio por parte da PGR e procuramos saber porquê, se noutros países em que a empresa prestou o serviço está a ser julgada, porque no nosso país não se diz nada? Isso é preocupante enquanto cidadão e enquanto país."

 

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