Ciclone Idai: "Apoio às vítimas ainda é insuficiente", diz Graça Machel

Recursos para ajudar vítimas do ciclone Idai em Moçambique ainda são poucos e o número de afetados deve ultrapassar estimativas do Governo, diz a presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, Graça Machel.

O número de pessoas afetadas pelo ciclone Idai poderá ultrapassar os três milhões e os recursos necessários para a assistência humanitária são ainda muito insuficientes, referiu neste sábado (23.03) Graça Machel, presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade.

"Posso arriscar: temos muito acima de três milhões de pessoas afetadas e todo o apoio ainda é insuficiente", disse a ex-primeira-dama de Moçambique e viúva de Nelson Mandela, em conferência de imprensa, em Maputo.

"O Governo e as Nações Unidas fizeram um apelo muito por baixo", considerou, referindo que cerca de 30 milhões de dólares "servirá só para pôr a bola a rolar. Não se tinha uma avaliação completa da escala e magnitude dos problemas".

Graça Machel

Graça Machel deixou um alerta: "o mundo que se prepare" para números maiores. "Há de ser necessário, com números mais precisos, fazer outro apelo e provavelmente um terceiro", acrescentou.

"Toda ajuda será necessária"

A presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade falava em conferência de imprensa ao lado de Henrietta Fore, diretora executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que fez uma visita à região afetada na sexta-feira.

Henrietta Forre referiu que há muitas crianças separadas das suas famílias e vão ser necessários orfanatos e outras instituições para lhes dar apoio. Toda a ajuda vai ser necessária, frisou, em inglês.

Graça Machel considera que a prioridade deve continuar a ser o salvamento: "Imaginem o que significa estar pendurado em cima de um telhado ou árvore durante oito dias. As pessoas começam a cair de exaustão", descreveu. Ela considera que o Governo do país "trabalhou bem no alerta" para o ciclone, "embora haja quem diga que depois não se removeram as pessoas", mas realça que a dimensão do problema é avassaladora.

Residentes do distrito de Buzi, em Sofala, refugiam-se no telhado das casas

A ex-primeira-dama frisou que "vamos precisar de ajuda internacional por muito tempo", mesmo antes da fase de reconstrução. "Esta é uma emergência nunca vista na nossa história. Todos nós estamos devastados. Não temos experiência de gerir a complexidade desta emergência", acrescentou.

"Obviamente que a economia já estava sob pressão e isso significa que o Governo, de antemão, já tinha muitos poucos recursos", acrescentou, questionada pelos jornalistas.

Nesta sexta-feira, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, fez um chamado para que toda a comunidade internacional contribua com fundos para fazer frente aos estragos causados pela passagem do ciclone Idai. "É necessário um apoio internacional muito maior", advertiu o diplomata português, que pediu solidariedade ao mundo com os três países afetados – além de Moçambique, Zimbabué e Malawi.

O balanço provisório da passagem do ciclone Idai em Moçambique voltou a aumentar, subindo para 418 mortos, segundo dados fornecidos pelo Conselho de Ministros à Televisão Pública de Moçambique.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Ciclone Idai faz mais de 200 mortos

A passagem do ciclone Idai afetou mais de 1,5 milhões de pessoas em Moçambique, no Zimbabué e no Malawi, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Mais de 200 pessoas morreram nos três países e milhares estão desalojadas. O levantamento do número de vítimas está por concluir, dado que há locais de difícil acesso devido à subida do nível dos rios.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Beira é a cidade mais atingida de Moçambique

Há pelo menos 84 mortos em Moçambique, segundo os últimos dados. Mas o Presidente Filipe Nyusi afirma que "tudo indica que poderemos registar mais de mil óbitos". A cidade da Beira foi a mais afetada. Os ventos e chuvas fortes deixaram a cidade parcialmente destruída, sem luz nem telecomunicações.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Ciclone visto do espaço

Esta imagem de satélite feita pela NASA mostra a passagem do ciclone Idai pelos países africanos. "A situação é terrível, a magnitude da devastação é enorme", disse o líder da equipa de avaliação da Cruz Vermelha na Beira, Jamie LeSueur. "Enquanto o impacto físico do Idai começa a emergir, as consequências humanas ainda não estão claras", lê-se num comunicado.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Deslocados à procura de abrigo

Milhares de pessoas estão desalojadas na zona centro de Moçambique. O Presidente Filipe Nyusi, que sobrevoou a região, indicou que aldeias inteiras desapareceram nas enchentes e que há regiões totalmente incomunicáveis. "Vimos durante o voo corpos flutuando, um verdadeiro desastre humanitário de grandes proporções", assinalou o chefe de Estado.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Estrada de acesso à cidade da Beira fechada

Com as fortes chuvas, o nível dos rios subiu. Um deles, o rio Haluma, transbordou e cortou a estrada nacional 6, espinha dorsal do centro de Moçambique e única via de acesso à Beira. A cidade ficou isolada. Em entrevista à AFP, o ministro do Meio Ambiente de Moçambique, Celso Correia, afirmou que "este é o maior desastre natural ocorrido no país".

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Motoristas isolados na estrada

Isolados na estrada nacional 6, única via de acesso à Beira, moçambicanos aguardam até que a via seja desbloqueada. Formou-se uma longa fila de camiões e outros veículos. Os ventos fortes derrubaram postes.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Noutras vias, mais destruição

A estrada número 260, que liga Chimoio a Mossurize, também não escapou à intempérie. A ponte sobre o rio Munhinga foi arrastada, isolando os dois distritos. Formaram-se enormes buracos nas rodovias, a isolar zonas de Moçambique e a dificultar o acesso às equipas de socorro.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

A fúria das águas

A ponte sobre o rio Haluma, em Nhamatanda, zona central de Moçambique, ficou submersa. É mais uma zona afetada pelas cheias e pelo nível elevado dos rios. Uma camioneta que transportava dez pessoas foi arrastada ao passar pelo local. Seis pessoas morreram e quatro conseguiram salvar-se, penduradas em cima de um camião basculante.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

População precisa de ajuda médica

Mais de cem salas de aulas ficaram destruídas nas regiões mais afectadas pelo ciclone e cheias nos distritos moçambicanos de Chinde, Maganja da Costa, Namacurra e Nicoadalá. Em visita à Zambézia, o Presidente Filipe Nyusi afirmou que, além de bens alimentares, a população necessita também, com prioridade, de assistência médica.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Ciclone Idai leva a cancelamento de voos

A passagem do fenómeno também afetou os transportes aéreos. O aeroporto da Beira ficou inoperante entre quinta-feira (14.03.) e domingo (17.03). Todos os voos domésticos foram suspensos. Dezenas de voos previstos para descolar do aeroporto internacional de Maputo, o maior de Moçambique, foram cancelados. O fecho dos aeroportos também dificultou a chegada de ajuda humanitária.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Depois de Moçambique, Zimbabué e Malawi

O ciclone Idai atingiu a Beira na quinta-feira (14.03), tendo seguido depois para oeste, em direção ao Zimbabué e ao Malawi, afetando mais milhares de pessoas, em particular nas zonas orientais da fronteira com Moçambique. Casas, escolas, empresas, hospitais e esquadras ficaram destruídas. Estradas e pontes desapareceram, o que dificulta os trabalhos de resgate.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Plantações devastadas pela força do ciclone

No Zimbabué, o número de mortos após a passagem do ciclone Idai chega a 82. O Presidente Emmerson Mnangagwa disse que a resposta do Governo está a ser coordenada pelo Departamento de Proteção Civil através dos comités de Proteção Civil nacional, provincial e de distrito, com o apoio de parceiros humanitários.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Ciclone Idai chega ao Malawi

Os distritos de Chikwawa e Nsanje, no Malawi, ficaram inundados com a passagem do ciclone Idai. Segundo o balanço mais recente do Departamento de Gestão de Riscos, no país foram registadas 56 mortes. Quase 1 milhão de pessoas foram afetadas pela passagem do ciclone. De acordo com a Federação Internacional da Cruz Vermelha, 80 mil viram as suas casas destruídas e estão sem onde se refugiar.

Ciclone Idai causa mortes e destruição

Cheias nos rios aumentam risco de doenças

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou as autoridades para a importância de se levar a cabo um levantamento dos estragos nos serviços de saúde, já que o agravamento das cheias nos próximos dias, devido à continuação de chuvas fortes, aumenta o risco do aparecimento de doenças transmissíveis pela água e pelo ar.