Ciclone Idai: Há pelo menos 5 mil pessoas ainda à espera de resgate em Sofala

Enquanto a cidade da Beira já está em situação considerada controlada quanto ao resgate de sobreviventes, em toda a província de Sofala há ainda 5 mil pessoas em cima de árvores e tetos de casa a esperar por socorro.

Moçambique ainda contabiliza os estragos causados pelo ciclone Idai. O número de mortos no país chega a 242 e pode aumentar. Muito fala-se da situação da cidade da Beira, afinal a segunda maior cidade do país foi afetada em 90% pelo fenómeno. Mas enquanto por lá a situação já pode ser considerada controlada, em outros pontos de Sofala há ainda pessoas em cima de árvores e no teto das casas à esperar de resgate.

O correspondente da DW África em Moçambique, Arcénio Sebastião, esclarece que em toda província há 5 mil pessoas que ainda esperam ser resgatadas.

DW África: A água ainda não baixou em muitos pontos. Ainda há pessoas à espera de resgate?

Arcénio Sebastião: Ao nível da cidade da Beira, a água tende a baixar, mas há certos pontos, como a Praia Nova e um dos bairros que está bem próximo do Oceano Índico, onde as águas ainda não baixaram. Há vários outros pontos da província de Sofala, concretamente o distrito de Búzi onde há várias pessoas que precisam de resgate. Ainda ao fim da quinta-feira (22.03.), quando terminaram as operações de resgate, o ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, e membro do Conselho de Ministros, que está em Sofala, anunciava cerca de 5 mil pessoas que ainda precisam de resgate ao nível de toda província. Portanto, ainda continuam os helicópteros a sobrevoar a busca dessas pessoas que estão em tetos de casa, em cima de árvores e em pontos mais altos que puderam escolher para se salvarem.

Água ainda não baixou em diversos pontos de Moçambique

DW África: Nesse momento, quais são os principais problemas na região afetada pelo ciclone?

AS: O grande problema na província de Sofala, no geral, são as comunicações. Elas estão completamente deficitárias. De um distrito para outro não consegue se comunicar, não se consegue pelo menos saber como os outros estão. Porque não há comunicações mesmo. As condições climatéricas estão mais ou menos a favorecer o sobrevoo e o uso de drones, que ajudam a localizar pessoas em pontos desconhecidos, como algumas ilhas, algumas machambas, algumas baixas. Entretanto, o solo está cada vez mais a abrir, as águas estão a baixar, o nível das águas dos rios também está a baixar. Podemos concluir que há mínimas condições para se trabalhar de modo a resgatar o resto das pessoas ainda em pontos críticos.

DW África: Em relação às necessidades, a população já tem acesso à água, comida, serviços de saúde?

AS: Ainda faltam todas essas condições. Falando de saúde, por exemplo há certo centros de acomodação que não tem posto médico. Deve se recorrer a alguns hospitais que estão distantes e que também foram afetados. Um dos especialistas dizia que cada centro de acomodação tenha um centro de saúde, mesmo que seja uma tenda. Mas são condições que não existe. Agua potável, por exemplo, toda cidade da Beira não tem. O próprio centro de captação teve uma avaria, foi afetado. Não há água potável para consumo na cidade da Beira, na cidade do Dondo. São águas que a população tenta arrastar de um lado pro outro. Pode ser água também não aconselhável ao consumo [humano].

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MEDIATECA | 22.03.2019

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DW África: O Governo tem sido eficaz no socorro e ajuda aos sobreviventes através do INGC, por exemplo?

AS: O governo por seu lado diz que está a trabalhar, dando seu máximo, buscando as pessoas quem precisa de cuidados sanitários, leva-se ao hospital. Quem precisa sentir-se melhor, coloca-se no centro de transição, mais tarde nos centros de acomodação. Porque estes ainda estão a se instalar. Até o momento temos cerca de 88, mas prevê-se que o número pode subir, pois há mais pessoas ainda por vir. Portanto, o governo diz que está a providenciar alimentos, todas as condições que a pessoa humana precisa. Mas alguns dos acomodados dizem que a comida é pouca. São três refeições por dia, mas que não chegam ao ponto de matar a fome de um camponês que tinha quatro, cinco refeições na localidade onde morava. Portanto, são quantidades irrisórias, insignificantes para uma pessoa que habituou-se a alimentar-se a sua maneira.

Sobreviventes aguardam socorro nos tetos das casas em Búzi

DW África: Há registo de roubos na cidade da Beira na sequência do ciclone?

AS: São vários casos. Por exemplo, no bairro do Vaz há um armazém que ficou sem teto. Era um armazém que tinha mais de dez mil toneladas de arroz, de uns comerciantes de nacionalidade indiana. Quando a população se percebeu, saquearam a loja, a polícia teve de se aproximar. Nos próprios centros de acomodação, no ato de distribuição de alimentos, há um movimento estranho em que os próprios beneficiários se arrancam os kits.

DW África: A cidade da  Beira foi devastada em 90% e diz-se que fora da cidade a situação pode ser ainda pior. Essa informação procede?

AS: É verdade. Pelo menos até a cidade da Beira, a situação está controlada, porque todos os pontos críticos em que as pessoas estiveram escondidas já conseguiram localizar. Agora o que falta talvez é procurar em alguns escombros, alguns riachos se existem algumas pessoas afetadas ou sem vida. Mas o distrito mais crítico até o momento é o de Búzi, está completamente alagado. Até a própria administração esteve consumida pela água. Há pessoas que estão nos tetos das próprias casas. Estão em alguns pontos elevados nas machambas. São pessoas que não podem arriscar descer porque as águas ainda têm muita força. Portanto, há ainda trabalho duro por se fazer para resgatar as pessoas.

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