Críticas a Presidente português por felicitar João Lourenço

O chefe de Estado português felicitou o candidato do MPLA, João Lourenço, pela vitória nas eleições de 23 de agosto, antes de serem conhecidos os resultados finais. A mensagem gerou uma onda de indignação.

O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou o Presidente eleito, João Lourenço, de acordo com os resultados eleitorais provisórios divulgados pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE) de Angola, que dão vitória ao partido no poder, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). O Ministério dos Negócios Estrangeiros português emitiu igualmente um comunicado, em que "saúda o novo Presidente eleito da República de Angola".

Os principais partidos da oposição portugueses ainda não se pronunciaram sobre os resultados. No entanto, analistas em Lisboa criticam a posição de Marcelo Rebelo de Sousa, bem como do Governo português.

A Plataforma de Reflexão, que reúne vários angolanos na diáspora, considera infeliz a mensagem de felicitação do Presidente da República de Portugal, antes de serem divulgados os resultados finais das eleições de 23 de agosto: "O professor Marcelo Rebelo de Sousa acabou por cometer um erro de profunda responsabilidade, porque ele dá ónus a uma circunstância que ainda não é nem oficial, nem legal. Em termos legais, o processo continua muito questionável", afirma Manuel dos Santos, um dos membros da Plataforma.

Presidência portuguesa felicitou cabeça-de-lista do MPLA antes de CNE divulgar resultados finais oficiais

O sociólogo angolano critica ainda a imprensa portuguesa por não questionar o posicionamento oficial de Marcelo Rebelo de Sousa, além da falta de posicionamento dos partidos políticos portugueses, "com excepção do Bloco de Esquerda".

Em período de férias, as lideranças dos partidos não se pronunciaram sobre as eleições em Angola, salvo algumas declarações e posições pontuais em debates televisivos com figuras partidárias convidadas para comentar o escrutínio.

Mensagem do Governo

De acordo com os dados provisórios de sexta-feira (25.08), o MPLA venceu as eleições gerais angolanas com 61,05% dos votos, elegendo João Lourenço como o próximo Presidente da República. A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e a Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral (CASA-CE), principais forças da oposição, ocupam a segunda e a terceira posição, respetivamente com 26,72% e 9,94% dos votos. Mas a oposição angolana não aceita os resultados, alegando ilegalidades.

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NOTÍCIAS | 29.08.2017

Críticas a Presidente português por felicitar João Lourenço

Numa reação a estas reclamações, a ministra portuguesa da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques, considerou que "é natural que existam esse tipo de problemas e reclamações dos diferentes partidos concorrentes".

"Esperamos que elas sejam resolvidas segundo as regras da democracia e que possa resultar deste processo um período de estabilidade, como tem acontecido desde há alguns anos", afirmou a governante.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros português congratulou, em comunicado, a "muito expressiva" participação da população nas eleições gerais em Angola. Manifestou ainda total empenho em trabalhar com a nova liderança política para continuar a aprofundar as "estreitas relações que unem Portugal e Angola".

"Incompreensível"

Numa carta endereçada a Marcelo Rebelo de Sousa, o investigador universitário angolano Nuno Dala, um dos 17 ativistas condenados à prisão em Luanda por atos preparatórios de rebelião, também é crítico em relação à "incompreensível mensagem" de felicitação do chefe de Estado português, por nenhum candidato ter ainda sido declarado vencedor.

Eugénio Costa Almeida: "Presumo que as relações serão normais"

Mas para o analista Eugénio Costa Almeida é natural – e não precipitada – a posição de Marcelo Rebelo de Sousa, por ser normal no sistema diplomático, que felicitou João Lourenço sem que este tenha sido confirmado como Presidente de Angola. Declarações presidenciais à parte, a confirmar-se a vitória do sucessor de José Eduardo dos Santos, não haverá "grandes alterações" nas relações entre Portugal e Angola, quer no plano político, quer económico, comenta o professor do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (CEI-IUL).

"Presumo que as relações serão normais", considera Eugénio Costa Almeida. "Vão continuar a ser umas relações de Estado, continuará a haver relações económicas, porque Portugal continua sendo um dos principais exportadores para Angola e não vejo que essa política, essa relação económica fique diferente."

O académico recorda que Portugal continua a ser o país que os angolanos utilizam, preferencialmente, como plataforma de acesso ao mercado europeu. "É aquele país que acolhe os fundos angolanos colocados em bancos portugueses", refere, concluindo que, mais do que uma ligação linguística, "há uma união de afetos entre angolanos e portugueses".

Angola vota: Eleições em imagens

João Lourenço, o sucessor

João Lourenço é o cabeça-de-lista do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), no poder há mais de quatro décadas. Tinha acabado de votar e mostrou o indicador direito marcado com tinta azul quando se ouviu um apelo para que levantasse quatro dedos - o sinal da posição do partido no boletim de voto. Lourenço recusou o pedido.

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Dia histórico

23 de agosto de 2017 já é um dia histórico para a República de Angola. Os mais de nove milhões de angolanos inscritos começaram cedo a escolher o sucessor do atual líder do país, José Eduardo dos Santos, que está no poder desde 1979. O próximo Presidente de Angola é o cabeça-de-lista do partido mais votado.

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Eleitores prontos

Já por volta das 7 horas da manhã, os eleitores angolanos faziam fila para votar. Em Luanda, o ambiente das assembleias de voto era tranquilo. Entretanto, cidadãos disseram ter dificuldades em localizar as suas assembleias de voto.

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Eleitores do Huambo

Idalina Salomé, de 26 anos, votou pela primeira vez e apelou aos eleitores que ainda não votaram para exercerem o seu direito de cidadania. Na cidade do Huambo, o correspondente da DW, José Adalberto, diz que os munícipes têm afluído em massa às urnas.

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Quartas eleições

Essas são as quartas eleições já realizadas e as segundas nos moldes atuais, com a eleição direta do Parlamento e indireta do Presidente da República. As eleições estão a ser vigiadas por mais de 100 mil agentes de segurança e foi decretada tolerância de ponto em todo o país.

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Adeus José Eduardo dos Santos

O Presidente cessante, José Eduardo dos Santos, líder do MPLA, partido no poder desde a independência do país, em 1975, votou por volta das 9 horas da manhã na Escola Primária de São José de Clunny, no centro de Luanda. Depois de cerca de quatro décadas, deixará o poder oficialmente após as eleições desta quarta-feira.

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Samakuva vota no Talatona

O candidato da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), o principal partido da oposição, votou na Universidade Óscar Ribas, no município de Talatona, na zona sul de Luanda, onde apelou ao voto do angolanos neste importante dia para a história do país. Isaías Samakuva criticou o processo eleitoral por alegadas "irregularidades".

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Abel Chivukuvuku

Depois de votar, o cabeça-de-lista da Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral (CASA-CE), Abel Chivukuvuku, pediu às instituições que tutelam o ato eleitoral para que "cumpram com o seu papel"; de modo a que seja possível "festejar um momento que pode ser um novo começo" para Angola.

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Observadores internacionais

Miguel Trovoada, ex-chefe de Estado são-tomense, lidera a missão de observação eleitoral da CPLP. Já no início da votação, pela manhã, disse à DW que as eleições transcorriam de forma calma.

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O sistema eleitoral angolano

A Constituição do país, aprovada em 2010, prevê a realização de eleições gerais a cada cinco anos. São eleitos 130 deputados pelo círculo nacional e mais cinco deputados pelos círculos eleitorais de cada uma das 18 províncias do país (somando 90). Ao todo, são 220 deputados da Assembleia Nacional. Já o cabeça-de-lista do partido mais votado é automaticamente eleito Presidente da República.