Dos jogos à geografia: os extremos do Euro 2020

Para um Europeu diferente, um alinhamento diferente. O "ranking" do futebol no velho continente já não é o que era e o enquadramento do Euro 2020 reflete justamente a nova ordem e os novos tempos.

Não ser "cabeça-de-série" num sorteio para a fase de qualificação de uma competição internacional era certamente coisa que não passava pela cabeça da seleção alemã. Os vice-campeões da Europa em 2008 e campeões mundiais em 2014 vivem a mais profunda crise de resultados das últimas décadas e trabalham com emergência numa renovação imposta pela péssima presença no Mundial da Rússia e na Liga das Nações, onde a equipa de Joachim Löw foi, inclusivamente, despromovida à liga B.

Desporto | 22.11.2018
Fussball Champions League Spieltag 5 Gruppe E l Fc Bayern vs Benfica 2:0

Manuel Neuer, um dos gigantes alemães talvez no final de ciclo

Por capricho do sorteio realizado este domingo em Dublin, a Alemanha fica alinhada de novo com a Holanda, que defrontou na UEFA Nations League, empatando em Gelsenkirchen e perdendo (3-0) em Amsterdão.

A nova "laranja mecânica" de Ronald Koeman é o pior adversário que poderia calhar aos germânicos, que beneficiam, porém, do facto de as duas primeiras equipas de cada grupo seguirem diretamente para a fase final do próximo Campeonato da Europa. No entanto, é bom não esquecer que o grupo C integra também as representações da Irlanda do Norte, da Estónia e da Bielorússia.

"Nova Europa", menos equilíbrio

Os novos tempos e o renovado mapa geopolítico do continente europeu obrigam a uma maior abertura e, em rigor, a um acentuado desequilíbrio de valores no alinhamento dos diversos grupos da competição. Ao contrário da Liga das Nações, em que a distribuição obedece aos critérios do "ranking" de seleções da UEFA, no Europeu essa clivagem de qualidade é estimulada pelas regras do sorteio.

Nações como Gibraltar (jogará com Suíça, Dinamarca, Irlanda e Geórgia), Andorra (num grupo com os campeões do mundo franceses, Islândia, Turquia, Albânia e Moldávia) ou San Marino ("acasalada" com Bélgica, Rússia, Escócia, Chipre e Cazaquistão) pouco mais podem fazer do que tentar sofrer goleadas contidas, não escapando aos últimos lugares dos respetivos grupos.

FIFA Fußball-WM 2018 | Achtelfinale | Uruguay vs. Portugal

Bernardo Silva é a imagem da renovação de Portugal, campeão da Europa a projetar o período "pós-Cristiano Ronaldo"

Sensações mistas para os portugueses

O campeão da Europa e finalista "a quatro" da Liga das Nações não foi dos mais "azarados" no sorteio da capital irlandesa. Portugal tem na Lituânia e no Luxemburgo adversários acessíveis, enquanto a Ucrânia e, sobretudo, a Sérvia, prometem dar luta aos defensores do título. Seleções incómodas, sobretudo em Kiev e Belgrado, ucranianos e sérvios terão, neste momento, legítimas esperanças de poder surpreender o favoritismo português no grupo B.

O processo de "renovação controlada" encetado pelo selecionador Fernando Santos tem, até agora, dado resultado. Apesar da eliminação pelo Uruguai nos oitavos-de-final do Mundial, a equipa das "quinas" conseguiu uma presença meritória na Liga das Nações, preparando-se agora para organizar a "final four". Nomes como Bernardo Silva, Rúben Dias, André Silva, Gelson Martins e Bruno Fernandes emergem como basilares na formação portuguesa, e garantem, de algum modo, a obrigatória transição para o período "pós-Cristiano Ronaldo”.

Os favoritos do costume mas... com cuidado!

Fußball UEFA Euro 2020 Logo Vorstellung

A "Europa unida" no mapa do Euro 2020: um mês, 12 países, 51 jogos

Seleções como a Espanha, Inglaterra ou Bélgica parecem ter caminho aberto para a fase final. Porém, os espanhóis (agora treinados por Luís Enrique, antigo técnico do Barcelona) terão pela frente e verão com muita atenção duas equipas nórdicas (Suécia e Noruega), para lá da Roménia, Ilhas Faroé e Malta. Já os belgas têm missão dificultada pela presença da Rússia e da Escócia no grupo I, enquanto os ingleses medem forças com a República Checa, a Bulgária, o Montenegro e o Kosovo. As equipas oriundas do desmembramento da antiga Jugoslávia representam uma escola prestigiada e podem sempre ser ossos duros de roer, sobretudo perante os seus adeptos.

Italianos e croatas são claramente favoritos, e tiveram um sorteio "macio": para os vice-campeões do mundo, que neste ciclo ainda poderão contar com nomes como Modric, Rakitic, Kalinic ou Mandzukic, Gales, Eslováquia, Hungria e Azerbaijão não parecem oferecer problemas inultrapassáveis. Já a Itália, a querer retornar aos grandes momentos depois da ausência do Mundial da Rússia, mede forças com a Bósnia e Herzegovina, a Finlândia, a Grécia, a Arménia e o Liechtenstein. Nada que assuste Roberto Mancini, apostado em "ressuscitar" a mística da "squadra azurra".

Um mês, 24 seleções, 12 países, 12 cidades

É justamente em Itália (no estádio Olímpico de Roma) que começa um Europeu verdadeiramente continental: doze países, outras tantas cidades, viagens mais longas, 24 seleções espalhadas pela Europa, da Irlanda ao Azerbaijão.

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Rom Stadio Olimpico

A 12 de junho de 2020, o estádio olímpico de Roma receberá o jogo inaugural do Campeonato da Europa de futebol

Os seis grupos da fase final têm duas sedes cada. Roma e Baku (grupo A), São Petersburgo e Copenhaga (grupo B), Amsterdão e Bucareste (grupo C), Londres e Glasgow (grupo D), Bilbau e Dublin (grupo E), Munique e Budapeste (grupo F).

As meias-finais e a final terão lugar no estádio de Wembley, em Londres. Na sua 16ª edição, o Europeu celebra 60 anos de existência, e essa foi justamente a razão apontada por Michel Platini (antigo presidente da UEFA e mentor desta fase final atípica) para uma celebração muito especial, envolvendo vários países europeus, alguns deles sem condições para receber uma fase final na íntegra, mas com excelentes estruturas para albergarem algumas partidas da competição.

Em 2024, o regresso "à normalidade”, com a fase final do Campeonato da Europa a ser organizada pela Alemanha, o que sucederá 18 anos depois do Mundial'2006, a última grande prova para seleções domiciliada em solo germânico.

Éder

O jogador que marcou o decisivo 1:0, aos 108 minutos, na final do Europeu de futebol de 2016 contra França nasceu em 1987 em Bissau, na Guiné-Bissau. Éderzito, mais conhecido como Éder, joga atualmente como avançado no Lille. A sua convocatória para a seleção principal de futebol não foi bem vista por todos, mas revelou-se decisiva para a obtenção do título.

Danilo

Danilo Luís Hélio Pereira ou simplesmente Danilo também nasceu em Bissau. Atua sobretudo no meio-campo e joga atualmente no Futebol Clube do Porto. Começou a carreira profissional em 2010 no Parma, tendo sido emprestado ao Aris e ao Roda nas épocas seguintes. Em 2013, passou pelo Club Sport Marítimo. Só em 2015 ingressa no Futebol Clube do Porto.

Nani

Nani, ou Luís Carlos Almeida da Cunha, nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1986. Profissionalizou-se pelo Sporting Clube de Portugal em 2005, mas dois anos depois rumou ao Reino Unido onde jogou pelo Manchester United até 2014, ano em que foi emprestado ao Sporting. Em 2015/2016 Nani jogou pelo Fenerbahçe e durante o Euro 2016 o Valência anunciou contrato com o jogador por três épocas.

Eliseu

Outro jogador português de ascendência cabo-verdiana é Eliseu. Nasceu em Angra do Heroísmo, na Ilha da Terceira dos Açores. Eliseu Pereira dos Santos começou a sua carreira profissional no Belenenses, o terceiro clube de Lisboa. Depois de uma passagem pelo Málaga de Espanha, o defesa joga desde 2014 no Sport Lisboa e Benfica.

William Carvalho

Nasceu em Luanda, Angola, em 1992. Atua como defesa e joga atualmente pelo Sporting Clube de Portugal. Mudou-se para Portugal ainda durante a adolescência e jogou pelo Recreios Desportivos de Algueirão e União Sport Clube Mira Sintra. Tornou-se profissional no Sporting em 2011 e em 2012/2013 esteve emprestado ao clube belga Cercle Brugge. Na foto com Antoine Griezmann de França (à direita).

Cédric Soares

Cédric Ricardo Alves Soares. Luso-alemão, nasceu em Singen (Hohentwiel), no sul da Alemanha, no estado de Baden-Württemberg. Atualmente joga pelo Southampton, mas profissionalizou-se pelo Sporting em 2010, na altura com 18 anos. Estreou-se pela seleção principal de futebol portuguesa em outubro de 2014, num amigável contra a França.

Raphaël Guerreiro

Nasceu em Le Blanc-Mesnil, Seine-Saint-Denis, França. Raphaël Adelino José Guerreiro atua como lateral esquerdo. Defende atualmente o Borussia Dortmund, depois de ter passado pelo Caen (2012/2013) e pelo Lorient (2013-2016). Passou a integrar a seleção principal de futebol em novembro de 2014, convocado pelo selecionador Fernando Santos.

Adrien Silva

Adrien Sébastian Perruchet Silva nasceu em 1989 em Angoulême, França. Atualmente é o capitão do Sporting de Lisboa, clube no qual se tornou jogador profissional em 2007. Esteve emprestado meia época em 2010 ao Maccabi Haifa e um ano ao Académica de Coimbra (2011/2012). Fez a sua estreia pela seleção A de Portugal em 2014.

Anthony Lopes

O guarda-redes suplente, Anthony Lopes, nasceu em Givors, França. Na foto, festeja o título de campeão europeu de futebol carregando Raphaël Guerreiro, outro dos três jogadores da seleção portuguesa que nasceram em França. Defende atualmente o Lyon, clube da sua juventude e onde se profissionalizou em 2011. Estreou-se pela seleção A de Portugal em março de 2015 num amigável frente a Cabo Verde.

Pepe

O defesa nasceu em Maceió, Brasil, e joga atualmente pelo Real Madrid, clube que conquistou em 2015/2016 o maior título europeu de clubes, a Liga dos Campeões. Na foto com Rui Patrício, guarda-redes de Portugal. Com 18 anos, Képler Laveran Lima Ferreira (Pepe) deixou o Brasil em busca de melhores oportunidades em Portugal. Passou pelo Marítimo B, Marítimo, FC Porto até chegar ao clube espanhol.

Bruno Alves

Bruno Alves tem o número 2 na camisola da seleção portuguesa e é descendente de uma família de brasileiros. A foto (com o jogador galês Hal Robson-Kanu) foi tirada na meia-final do Euro 2016, em que Portugal ganhou 2:0 contra o País de Gales. Defesa central, joga atualmente pelo Cagliari. Na sua carreira desportiva constam clubes como o FC Porto, AEK Atenas, Zenit São Petersburgo e Fenerbahçe.

Renato Sanches

Renato Sanches foi aos 18 anos o jogador mais jovem de sempre numa final de um Europeu de futebol. Oriundo de uma família com ligações a Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, nasceu na Amadora, Portugal. Jogou pelo Benfica e foi contratado pelo campeão alemão, Bayern Munique, para 2016/17. Sanches foi elogiado pela sua grande maturidade.