Empresa introduz novo conceito na recolha de lixo em Maputo

Todos os dias produzem-se em Maputo mais de mil toneladas de lixo e a recolha dos resíduos é um grande problema da cidade. A empresa UX lançou um projeto que desafia os habitantes a "mopar". Sabe do que se trata?

Amélia Vangana, de 56 anos, vive no populoso bairro de Maxaquene A, que separa a parte urbana e periurbana no centro da capital. É considerado o bairro mais problemático na gestão do lixo.

De pá na mão e botas de cano alto, junta o lixo para ser removido pelos chamados "tchovas", carrinhos de tração humana de duas rodas usados para a recolha de resíduos sólidos na periferia.

"Vêm estes da carrinha, mas não é agora. Talvez daqui a duas semanas virão recolher o lixo", comenta. Mas duas semanas é muito tempo para o lixo ficar no quintal - Amélia Vangana ainda não sabe que a recolha do lixo pode melhorar através do uso de um simples telemóvel.

Mosambik Start-Up-Unternehmen UX aus Maputo

O MOPA usa a tecnologia para monitorizar e melhorar a recolha do lixo em Maputo

O projeto chama-se MOPA (Monitoria Participativa Maputo) e foi idealizado pela UX, uma empresa moçambicana que usa a tecnologia para monitorizar e melhorar a recolha do lixo. A empresa está a trabalhar em parceria com o Conselho Municipal da capital.

Tiago Borges Coelho, um dos fundadores da UX, explica à DW África que o procedimento é simples - basta ter um telemóvel.

Mosambik Start-Up-Unternehmen UX aus Maputo

Tiago Borges Coelho é um dos fundadores da UX

"O *311# é um código que se pode digitar em qualquer operadora a nível nacional e que ativa um menu interativo, onde as pessoas podem escolher a sua localização e que tipo de problema estão a ver - lixo fora do contentor ou um contentor que está a arder, por exemplo". Enviam o relatório e este será reencaminhado ao Conselho Municipal e aos operadores de lixo na cidade.

O projeto, testado primeiramente em quatro bairros de Maputo, trouxe uma nova designação para reportar problemas de lixo: "mopar".

Por semana, já "mopam" em média mil pessoas. Mas ainda é pouco, diz Tiago Borges Coelho. "O que nós estamos a fazer é lidar com os secretários dos bairros. Mover campanhas a nível de base e educação das pessoas para que elas comecem a usar este canal", explica.

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NOTÍCIAS | 06.02.2017

Empresa introduz novo conceito na recolha de lixo em Maputo

Um problema de todos

Mais a norte da capital, é no bairro de Magoanine C que os munícipes têm estado a "mopar", explica Elsa Manhique. Segundo a fiscal do Conselho Municipal de Maputo, "como certos munícipes ainda não sabem da hora da recolha dos contentores, por vezes 'mopam' fora do horário estipulado pela empresa. 'Mopam' nas primeiras horas, período em que as microempresas entram para o terreno para fazer a limpeza em volta do contentor".

Segundo Tiago Borges Coelho, o objetivo da empresa UX passa por envolver todos os cidadãos na solução do problema do lixo neste território.

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"O que nós queremos é que os cidadãos sejam parte da solução. É dever dos cidadãos, sempre que virem um problema, usar a plataforma para o reportar, para que do lado do Conselho Municipal e dos operadores haja mais informação sobre onde é que estão estes sítios problemáticos nos bairros", explica.

No bairro da Polana Caniço A, na parte este de Maputo, Derque Gomes, de 29 anos, põe sempre o lixo num contentor. À DW África, afirma que sabe que pode "mopar", embora não saiba bem o que isso significa: "Já ouvi falar, mas nunca procurei inteirar-me sobre o assunto", admite.

Também Lídia Augusto, de 42 anos, reside neste bairro e acaba de depositar lixo ao lado de um contentor que já está cheio. Em entrevista, Lídia revela que, às vezes, passa um mês sem que o lixo seja recolhido. O resultado é uma montanha de resíduos sólidos.

Mosambik Müllabfuhr in Maputo

Funcionários do Município de Maputo fiscalizam os "tchovas"

O papel dos fiscais

No local encontramos um funcionário do Município de Maputo que fiscaliza os "tchovas". Em mãos, o fiscal Sebastião Alfeu tem uma longa lista de cidadãos que "moparam", mas os problemas persistem.

"Alguns munícipes têm 'mopado' fora do horário da recolha do contentor por falta de informação. Ou 'mopam' num horário em que o contentor está cheio e as microempresas estão ainda a trabalhar ou a depositar os resíduos nos contentores", conta à DW.

Muitas vezes, os cidadãos depositam o lixo fora do horário estabelecido, às seis horas da manhã. Em resultado, cria-se uma lixeira.

O fiscal Sebastião Alfeu também tem a tarefa de solucionar estes casos. "Alguém 'mopou' que no bairro X tem uma lixeira informal. Então temos de nos deslocar para ver o grau desta lixeira informal e por que é que ela existe, se temos uma microempresa que é responsável pela recolha de resíduos no bairro", explica.

Mosambik Müllabfuhr in Maputo

Por semana já "mopam”, em média, mil pessoas

 MOPA é famosa no bairro de Maxaquene B

Em todos os bairros suburbanos, a partir das seis horas ouve-se o soar de um apito, e no bairro de Maxaquene B, muitos jovens, cada um com o seu carrinho, procuram sacos com lixo.

É neste bairro que o MOPA é mais usado, embora também haja habitantes que pouco sabem sobre como se pode fazer a recolha do lixo usando o telemóvel. Jacinto Zucula, de 29 anos, é um deles. Desesperado, lamenta o fato de os "tchovas" aparecerem poucas vezes nos becos de Maxaquene.

"Há carrinhas que passam, mas na minha casa nunca entraram. Não sei como é que eles trabalham. É regular, semanalmente, acho que é duas vezes por semana”, afirma.

Zucula gostava de saber "mopar" para resolver o problema do lixo."Se eu soubesse, iria reclamar e dizer o que está a acontecer aqui na zona", dá conta o morador.

Mosambik Start-Up-Unternehmen UX aus Maputo

Jovens integram equipa da empresa UX

UX afina pormenores do projeto

Nos escritórios da empresa UX, usam-se computadores para identificar áreas com problemas de lixo. Mas a empresa está mais preocupada em reduzir o tempo de espera dos cidadãos quando "mopam".

Depois de reportado o problema, o cidadão espera entre três a quatro dias. Segundo Tiago Borges Coelho, este é o problema que a UX quer atacar.

Mosambik Start-Up-Unternehmen UX aus Maputo

UX quer reduzir o tempo de espera dos cidadãos quando "mopam"

"O MOPA permite que o Conselho Municipal consiga saber em tempo real quais são os operadores que estão a trabalhar melhor ou pior nos seus bairros. Sempre que entra um relatório de um cidadão, não só o Conselho Municipal é notificado, como também os SMS são enviados para as microoperadoras. Estas empresas beneficiam de saber no seu bairro quais são as zonas que têm maior problema o que lhes permite trabalhar de maneira mais eficiente”.

Há cinco anos, o maior problema que a cidade de Maputo enfrentava era o lixo. Agora, com o MOPA, é um "mal menor", afirma a UX, acrescentando que "com o progresso do tempo a relação com o lixo está a ser melhorada em grande parte devido ao esforço da direção municipal de resíduos sólidos e de empresas de reciclagem que têm estado a fazer esforços nesse sentido."

O MOPA ganhou um prémio em Accra, a capital do Gana, em 2016, num concurso internacional de inovação onde foram apresentadas 300 ideias. É um projeto que já está a dar frutos em Maputo e a melhorar a vida dos cidadãos.

Esta base para tachos foi feita de jornais

A organização moçambicana ALMA - Associação de Limpeza e Meio Ambiente produz uma variada gama de produtos de artesanato do lixo que recolhe no Tofo, uma aldeia na costa da província de Inhambane, no sul de Moçambique, que é famosa pelas suas praias e pelos locais de mergulho. Por exemplo, de jornais usados fabricam-se bases para tachos. Os artigos são vendidos em Moçambique e no estrangeiro.

ONG faz a recolha do lixo

Com o apoio da Câmara Municipal de Inhambane (CMI), a ALMA é responsável pela recolha do lixo no bairro Josina Machel, onde também se situa a localidade do Tofo. A aldeia é um centro do turismo ecológico em Moçambique. Muitos turistas procuram esta parte da costa do Oceano Índico para mergulhar com raias jamanta e tubarões baleia que são encontrados com frequência.

As praias limpas do Tofo

Para além da recolha normal de lixo, que é feita duas vezes por semana, os membros da ALMA limpam as ruas e as praia. "Uma vez por mês fazemos uma limpeza geral", conta Gito Nhanombe, o coordenador da ALMA. "Sem a ALMA o Tofo não estaria tão limpo", diz Nhanombe. A limpeza torna o Tofo mais atrativo para turistas. "E menos lixo na praia, significa também menos lixo no mar", diz o coordenador.

Evitar imagens como esta

Com a limpeza regular das ruas e praias do Tofo, a ALMA quer evitar imagens como esta (foto da Indonésia). O lixo plástico no mar é perigoso: pode asfixiar tartarugas que confundem sacos plásticos com medusas e tentam comê-los. Mas o plástico nos oceanos também ameaça a saúde dos homens, pois após a sua decomposição entra na cadeia alimentar através do consumo de peixes que comeram o granulado.

Separação de lixo

Em alguns lugares, como aqui em frente da esquadra local da Polícia da República de Moçambique no Tofo, existem vários contentores de lixo. Cada um serve para diferentes tipos de lixo. Neste caso para separar plástico do lixo comum para facilitar a reciclagem. Um sistema que já é amplamente usado em países como a Alemanha.

Triagem do que pode ser reutilizado

Os membros da ALMA separam do lixo tudo o que podem usar para o fabrico de artesanato ou para a reciclagem. Guardam as tampas de garrafas de cerveja e de refrigerantes numa caixa. Guardam também papel, cavilhas de latas e pacotes de bebidas. Neste momento não há recolha de plástico, mas a ALMA espera encontrar um novo comprador para as grandes quantidades de plástico reciclado.

Tampas como base

As tampas de garrafas são forradas com restos de capulanas, que são fornecidos por um alfaiate de Inhambane. No total, 11 pessoas trabalham nos dois setores de limpeza e artesanato da ALMA: seis mulheres e cinco homens. A venda do artesanato e do material reciclado permite à organização não-governamental criar empregos e pagar salários.

Bases para tachos

Depois de forrarem as tampas, os artesãos juntam várias destas caricas para criar bases para tachos em formato hexagonal. Um conjunto destas bases custa 250 meticais moçambicanos (equivalente a 6,25 euros) e pode servir para colocar tachos, garrafas e copos na mesa.

Jornais usados ganham nova vida

Entre os materiais procurados pelos artesãos da ALMA estão os jornais. Se não chegarem muito sujos à ALMA, podem ser processados. O papel dos jornais tem boa textura e, quando é impregnado com cola, pode ser enrolado e transformado em bases. Neste caso, custam 150 meticais (equivalente a 3,75 euros).

A lixeira da ALMA

Mas mesmo com reciclagem e com o aproveitamento de alguma parte do lixo para artesanato, ainda sobra uma grande parte do lixo recolhido. Este material é depositado numa lixeira a céu aberto no terreno da ALMA junto à estrada principal de acesso ao Tofo. Se houver um comprador para o plástico reciclado, a quantidade de lixo depositado poderá ser reduzida.

Loja local no Tofo

Os produtos produzidos localmente são vendidos na loja da ALMA. O coordenador da ALMA, o jovem moçambicano Gito Nhanombe (na foto), apresenta os produtos aos interessados e explica os materiais que foram usados. Esta bolsa é feita de pacotes de leite.

Venda principalmente a turistas

Em vários pontos de Moçambique encontram-se pontos de venda da ALMA. São principalmente turistas os clientes da ALMA, mas alguns moçambicanos também fazem compras. No Restaurante Sul do Tofo (na foto), uma montra junto ao balcão mostra alguns produtos. Também há vendas na Europa através de encomendas. A cooperação alemã GIZ já apresentou trabalhos da ALMA numa exposição em Bona, Alemanha.

Quem adivinhava que eram anilhas de latas?

À primeira vista, muitas peças da ALMA não fazem pensar em reciclagem de lixo. Estes suportes de copos foram feitos com anilhas de latas de alumínio. Os artesãos moçambicanos uniram-nas com fio de croché, em forma de flor. O artesanato amigo do ambiente cria empregos e contribui para manter uma parte da costa moçambicana limpa.