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O que está por trás da venda de armas da Rússia

Tatiana Kondratenko | ac
2 de junho de 2020

A exportação de armas é uma componente essencial da economia da Rússia. Nas últimas duas décadas, Moscovo conseguiu aprofundar as suas relações com África nesse ramo e tornou-se o maior fornecedor de armas do continente.

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Foto: Getty Images/AFP/J. Moore

A empresa estatal exportadora de armas da Rússia, a Rosoboronexport, anunciou em abril que assinou um contrato para o fornecimento de fragatas de guerra a um país da África subsaariana. A identidade do destinatário ainda não foi revelada. Sabe-se, no entanto, que se trata do primeiro contrato de exportação de produtos navais finais russos para essa região, nas últimas duas décadas. Embora essas notícias não tenham despertado muita atenção internacional, uma coisa é certa: a Rússia está empenhada em ampliar a cartilha de clientes no continente africano.

Outrora um importante fornecedor durante a era soviética, a Rússia perdeu influência em África depois do colapso da URSS. Mas em 2000 a situação começou a inverter-se: a Rússia voltou ao ataque, voltando a ser o maior exportador de armas para o continente. Atualmente, representa 49% do total das exportações de armas para África, de acordo com o banco de dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI).

Desde 2000, as exportações de armas da Rússia para África cresceram significativamente. Contribuiu para esse aumento sobretudo o mercado argelino - a Rússia exporta cada vez mais armas para a Argélia.

Data visualization PT Arms export volume to Africa over time

Rússia: De olho em África

A Argélia continua, pois, a ser o maior destinatário de armas russas em África, seguida pelo Egito, pelo Sudão e por Angola. Segundo Alexandra Kuimova, investigadora do Programa de Despesas Militares e Armas do SIPRI, o número de países africanos que compram armas russas tem vindo a aumentar nas últimas duas décadas. No início dos anos 2000, 16 países africanos recebiam armas russas. Entre 2010 e 2019, o número subiu para 21.

A partir de 2015, a Rússia começou a vender armas para Angola, rica em petróleo - principalmente aviões e helicópteros de combate. Há muito que Luanda mantém fortes laços com Moscovo, que remontam aos tempos da guerra civil angolana. Em 1996, a Rússia perdoou 70% da dívida de 5 mil milhões de dólares de Angola, resultado principalmente de vários créditos à exportação que a URSS havia concedido para a compra de armas e equipamentos militares soviéticos. No novo milénio, a Rússia foi uma escolha previsível para Angola assinar novos acordos de armas, e, nos últimos cinco anos, Angola tornou-se o terceiro maior cliente africano de armas russas, depois da Argélia e do Egito. Os outros fornecedores de Luanda são a Bulgária, a Bielorrússia, Itália e China, em percentagens bastante mais pequenas.

Data visualization PT Map African importers of Russian arms

Na Argélia, o maior importador de armas russas no continente africano, verifica-se uma situação semelhante: os contactos existentes, que já vinham dos tempos da União Soviética, permitiram à Rússia recuperar a sua posição, tendo Moscovo perdoado completamente a dívida de 5,7 mil milhões de dólares da Argélia em 2006. Nesse mesmo ano, a Argélia assinou outro acordo de armas para comprar armas russas por 7,5 mil milhões de dólares.

"Os governantes de muitos países africanos olham para Moscovo a partir dos elos da era soviética, e Moscovo aproveita-se do facto, conseguindo manter a sua influência. No caso da Argélia [e de Angola], isso é feito mediante o perdão de dívidas antigas. Por vezes, a Rússia também faz promessas generosas, assegurando que vai construir oficinas ou instalações para fabricação ou manutenção", afirma Paul Stronski, pesquisador sénior do Programa Rússia e Eurásia do fundo de pesquisa Carnegie.

Angola | russischer Außenminister Lawrow mit Angolas Präsident Joao Lourenco
Chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov (esq.), durante visita a Presidente angolano, João Lourenço, em março de 2018Foto: imago/ITAR-TASS/A. Shcherbak

Novos mercados alinhados com visão geopolítica

O crescente interesse da Rússia no continente africano é definido não apenas por razões económicas, mas também políticas e estratégicas. A Rússia vê África como um potencial parceiro privilegiado numa ordem mundial multipolar.

"Menos europeu, menos transatlântico e focado mais nas potências e regiões em ascensão", foi assim que a Rússia reforçou os seus laços com países como o Zimbabué ou Sudão, diz Stronski.

O Zimbabué está sujeito a sanções económicas do Ocidente desde o início dos anos 2000. O Estado foi alegadamente responsável pela violência, tortura e assassinatos de opositores ao ex-Presidente Robert Mugabe. Apesar da ampla condenação internacional ao regime de Mugabe, a Rússia ficou do lado do Zimbabué, juntamente com a China, vetando a resolução do Conselho de Segurança da ONU para um embargo de armas em 2008 e criticando as sanções ocidentais. A Rússia exporta uma série de matérias-primas e acabadas para o Zimbabué, como madeiras, trigo e fertilizantes, material eletrónico e maquinaria. A Rússia, por sua vez, importa café e tabaco do Zimbabué.

As empresas russas também estão envolvidas em projetos de mineração de diamantes e ouro no Zimbabué. De acordo com Gugu Dube, um investigador do programa "Crime e Ameaças Internacionais" no Instituto de Estudos de Segurança (ISS) de Pretória, a Rússia tem vindo a ampliar as suas atividades de mineração de recursos como coltan, cobalto, ouro e diamantes em vários outros países africanos. No Zimbabué, as empresas russas também estão envolvidas num empreendimento conjunto no projeto Darwendale, para a mineração e fundição de um dos maiores depósitos mundiais de metais do grupo da platina, planeada para 2021.

No ano passado, a Rússia foi também anfitriã da primeira cimeira russo-africana. O objetivo, na altura, era identificar novas possibilidades de cooperação em todo o continente africano. Durante a cimeira, o Presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que "o fortalecimento dos laços com os países africanos é uma das prioridades da política externa da Rússia."

Vários acordos para o fornecimento de armas foram assinados durante a cimeira russo-africana. Delegados africanos foram convidados para exposições de armas russas: do caça subsónico Yakovlev Yak-130 ao sistema de mísseis Pantsir e aos sistemas de mísseis terra-ar Tor-M2KM, passando pelas armas menores, incluindo uma nova arma de assalto da série Kalashnikov AK-200. A Rússia quer concentrar-se em melhorar os modelos mais exigidos nos mercados internacionais e, em particular, africanos.

Infografik PT African states: Most-ordered weapons from Russia

Isso inclui aeronaves, mísseis, tanques, sistemas de defesa aérea e artilharia. Só a Argélia comprou cerca de 200 unidades de aeronaves da Rússia entre 2000 e 2019, entre helicópteros de transporte a helicópteros de combate, caças e aeronaves de combate terrestre. Vários modelos de mísseis terra-ar (SAM), projetados para destruir aeronaves ou outros mísseis, foram encomendados pela Argélia (várias encomendas entre 2000 e 2019), pelo Burkina Faso, pelo Egito (várias encomendas), pela Etiópia, pela Líbia e por Marrocos. A Argélia encomendou também mais de 500 tanques, e o Uganda 67.

Armas baratas - poucas dúvidas

Nos documentos estratégicos da Rússia, de acesso público, os estados africanos são definidos como pertencentes a um continente instável, representando uma ameaça internacional, devido a atividades de grupos terroristas, principalmente no norte do continente. Tais documentos oficiais russos destacam os objetivos da Rússia de alargar as ligações a África, desenvolvendo relações comerciais e económicas benéficas e apoiando a prevenção de conflitos e crises regionais.

A instabilidade e insegurança em África contribuem para que o mercado de armas continue lucrativo. Para Moscovo, África representa um mercado importante, sobretudo depois das sanções económicas impostas pelo Ocidente em consequência da anexação da Crimeia por parte da Federação Russa. África é o continente para o qual a Rússia pode empurrar livremente um dos elementos principais de suas exportações: material de guerra. O comércio de armas representa 39% da receita da indústria de defesa da Rússia.

Russland | Erster Afrika-Russland-Gipfel |  Mi-35P
Um helicóptero russo Mi-35P em exposição na cimeira russo-africana em Sochi, em outubro de 2019Foto: picture-alliance/dpa/Sputnik/E. Lyzlova

"As armas russas são boas, isso é universalmente reconhecido. As armas russas também são relativamente baratas. Não há razão para os países africanos não as quererem", diz Irina Filatova, professora de história da Escola Superior de Economia de Moscovo e professora emérita da Universidade de KwaZulu-Natal, especializada em história e relações russo-africanas.

Em comparação com outros grandes atores, a Rússia não impõe aos seus clientes condições políticas ou referentes ao respeito pelos direitos humanos. Pelo contrário: houve casos em que a Rússia conseguiu penetrar em mercados que os fornecedores europeus ou americanos abandonaram devido a violações dos direitos humanos.

Por exemplo, em 2014, soldados governamentais nigerianos foram acusados ​​de violar os direitos humanos na luta contra os jihadistas do Boko Haram. Posteriormente, os EUA travaram o fornecimento de helicópteros de guerra, apesar de já ter sido assinado um acordo. A Nigéria reagiu rapidamente, fazendo um pedido à Rússia e recebendo, no mesmo ano, seis helicópteros de combate Mi-35M.

O Egito é um caso semelhante. Depois de um golpe militar em 2013, os EUA começaram a cortar a ajuda militar e o fornecimento de armas ao país. Isso abriu à Rússia uma nova oportunidade; o país intensificou rapidamente a venda de armas ao Egito. Entre 2009 e 2018, a Rússia foi responsável por 31% das principais importações de armas do Egito.

Segundo Kuimova, os acordos sobre fornecimento de armas russas são geralmente rápidos e pouco complicados. Se um determinado país precisar de armas imediatamente, e se a Rússia as possuir, a Rússia conseguirá fornecê-as. O que também joga a seu favor é a falta de pressão por parte da sociedade civil local para restringir a venda de armas. A indústria bélica da Rússia age com grande secretismo; a lei não obriga as empresas a informarem sobre a exportação de armas. Geralmente essas informações enquadram-se nas leis de sigilo do Estado. Uma falta geral de transparência criou uma situação em que praticamente não existem grupos da sociedade civil russa capazes de monitorar o comércio de armas.

Russland | Afrika Gipfel in Sotschi
Presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir (esq.), encontra-se com chefe de Estado russo, Vladimir Putin, na cimeira russo-africana em 2019Foto: Getty Images/AFP/Pool/S. Chirikov

Concorrente da Rússia? O potencial das armas chinesas

Por enquanto, a Rússia parece ter pé firme nos mercados de armas em África. Mas a China está de olho no mesmo mercado e vários especialistas afirmam que o país poderá crescer bastante nessa área. Atualmente, a China responde por 13% das exportações de armas para o continente.

"A China melhorou a qualidade e a quantidade do que vende. Eles também fabricam armas russas de engenharia reversa. Desde 2014, a Rússia compartilha tecnologia militar sensível como parte de seus crescentes laços com a China", afirma Stronski.

Kuimova acrescenta que, hoje em dia, a China é capaz de produzir e oferecer todos os tipos de armas. "Em geral, a China está a crescer como exportadora de armas e mostra padrões semelhantes aos da Rússia, não impondo aos países importadores quaisquer condições políticas", explica.

A investigadora Filatova não vê a China como ameaça às armas russas em África: na sua opinião, os principais concorrentes das armas russas permanecerão os mesmos: os EUA e a França. Filatova define o interesse da China em África como predominantemente económico, salientando que, "no domínio do comércio em geral, a Rússia já perdeu contra a China" - porque, economicamente, a Rússia não é capaz de oferecer o que a China consegue.

Moscovo concentra-se, pois, na exportação de recursos naturais e no fornecimento de armamento. Para os importadores de armas, geralmente não é fácil, nem barato trocar de fornecedor. Portanto, é bastante provável que a Rússia garanta, no futuro, novos contratos com os seus compradores africanos de armas.

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