Falta de aplicação do Acordo de Conacri preocupa comunidade internacional

Parceiros da Guiné-Bissau reuniram-se com Presidente José Mário Vaz para manifestar preocupação face à ausência de progressos no cumprimento do Acordo de Conacri.

As cinco principais organizações internacionais parceiras da Guiné-Bissau (ONU, União Africana, Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e União Europeia) estão preocupadas com o silencio do Presidente guineense, José Mário Vaz, após a posição do Conselho de Segurança, que recomenda ao chefe de Estado guineense a nomeação de um novo primeiro-ministro, cumprindo com o Acordo de Conacri, que visa acabar com a crise vigente no país.

José Mário Vaz não reagiu até agora aos apelos internacionais que vão no sentido de promover diálogos com os cinco partidos representados no Parlamento para a formação de um novo executivo de consenso.

Ovídio Pequeno, representante da União Africana na Guiné-Bissau foi o porta-voz do grupo da comunidade internacional, designada por P5, que se reuniu com o chefe de Estado guineense para lhe transmitir essa preocupação.

Ovidio Pequeno

Ovídio Pequeno

"P5 pediu audiência com o Presidente para manifestar a sua preocupação pela ausência de progresso com vista a implementação do Acordo de Conacri, uma vez que neste quadro tinha sido dado um espaço de tempo, de 30 dias, para a solução da crise", disse Ovídeo Pequeno.

Tanto a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), organização sub-regional, bem com o Conselho de Segurança da ONU, anunciaram o dia 25 de maio como a data limite para que o Presidente guineense cumpra com o Acordo de Conacri.

Após a reunião desta quarta-feira (17.05.) com José Mário Vaz, a comunidade internacional espera que seja relançado o novo processo de diálogo com os atores políticos na busca de uma solução para a nomeação de um novo primeiro-ministro, disse Ovídio Pequeno.

"Nós viemos, outra vez, dizer ao Presidente da República, na qualidade do garante da Constituiçao, que tem a tarefa maior de tentar encontarar uma soluçao através de dialogo, inclusive com o PAIGC".

PAIGC reune-se com o "grupo dos 15"

O encontro do Presidente guineense com a comunidade internacional decorreu no Palácio da Republica a escassos cinco metros da sede do PAIGC onde também tinha lugar uma reunião entre a direção do partido e o antigo primeiro-ministro, Baciro Djá, um dos 15 deputados expulsos do partido quando se alinhou com o Presidente José Mário Vaz no inicio da crise.

Baciro Djá, atualmente de costas voltadas com o regime no poder, chegou a ser nomeado por duas vezes primeiro-ministro pelo Presidente guineense.

Aos jornalistas, Djá deu a entender que a sua reintegração está num bom caminho e agradeceu a direção do partido pela iniciativa de perdão e diálogo:

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"Discutimos a implementaçao do Acordo de Conacri. Sou militante do PAIGC, estou disponivel a voltar ao PAIGC. Está em causa a reconciliaçao da familia do partido, portanto, devo felicitar de coração a direçao do PAIGC pela iniciativa".Por seu lado, o secretário nacional do PAIGC, Ali Hijazy enalteceu os progressos alcançados no processo de reintegração de Baciro Djá e lamentou o facto do resto do grupo dos quinze deputados terem condicionado a participação na reunião de negociação mediante a presença de outros militantes expulsos mas que não são deputados. Aly recorda que o Acordo de Conacri prevê apenas a reintegração dos militantes expulsos que são deputados.

Guinea-Bissau Ministerpräsident Baciro Dja

Baciro Djá

"Condicionaram a paraticipação deles à presença de Luis Oliveira Sanca ( nao é deputado) na reunião e que o encontro não seria na sede do PAIGC. Entendemos com os 15 que não estão a repeitar o ponto 10 do Acordo de Conacri que prevê a reitengraçao apenas dos deputados expulsos. O PAIGC nao vai ceder até este ponto".

Quando faltam oito dias para o termo do ultimato lançado pela comunidade internacional e perante a inércia do Presidente guineense, José Mário Vaz convocou um comício popular em Bissau, para esta quinta-feira à tarde, pelas 16h00, para fechar a sua primeira presidência aberta que o conduziu a todas as regiões da Guiné-Bissau.

Primeira votação desde o golpe de Estado de 12 de abril de 2012

As eleições gerais (presidenciais e legislativas) deste domingo (13.04.) na Guiné-Bissau decorreram sem incidentes até ao encerramento das urnas às 17 horas. Segundo a Comissão Nacional de Eleições, CNE, a taxa de participação no escrutínio foi de 79,4%, a mais alta da história do país.

Guineenses elegem um presidente e 102 deputados

Mais de 770.000 cidadãos inscritos nos cadernos eleitorais escolheram entre 13 candidatos presidenciais e 15 partidos a concorrerem à Assembleia Nacional Popular. De acordo com as diferentes missões de observação eleitoral, tanto na capital como no interior foram detetados apenas pequenos problemas que não afetam a votação. A CNE deverá apresentar os resultados definitivos dentro de uma semana.

Quem for eleito "deve ser abraçado por todo o povo", diz Chissano

O ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano (à esq.) pediu aos guineenses que estejam prontos para aceitar com "calma" os resultados das eleições gerais. De acordo com o chefe da missão de observadores eleitorais da União Africana, estavam reunidas todas as condições para a realização das eleições na Guiné-Bissau. A UA tem uma equipa de cerca de 60 pessoas a acompanhar as eleições gerais no país.

"Paz, paz" foram as palavras do chefe das forças armadas guineenses

O general António Indjai, que liderou o golpe de Estado que em 2012 interrompeu as eleições presidenciais na Guiné-Bissau, lançou pombas brancas depois de votar este domingo em Bissau. Para as eleições, Indjai trocou o uniforme por uma túnica branca. A impunidade do exército é considerado um dos grandes problemas do país e uma reforma é considerada tarefa urgente do novo Presidente.

Bissau parou no último dia de campanha eleitoral

Na sexta-feira (11.04.), comércio e instituições da capital guineense fecharam as portas durante a tarde e milhares de cidadãos saíram às ruas para celebrar a democracia. De forma a evitar confrontos entre apoiantes dos diferentes candidatos e partidos, mais de 2.000 homens das forças de defesa e segurança garantiram a segurança através de barreiras entre os espaços ocupados pelos candidatos.

Campanha marcada por "desobediência à disciplina dos partidos"

As clivagens no seio dos partidos guineenses foram notórias durante a campanha eleitoral: tanto dirigentes, como militantes dos diferentes partidos apoiaram candidatos de outros quadrantes. Nos comícios viram-se também apoiantes com adereços do partido que apoiam nas legislativas e com material de um candidato presidencial de outra força. A dissidência foi mais vincada entre os jovens.

Ramos-Horta pediu ao partido vencedor que inclua as outras forças políticas

Para José Ramos-Horta, desde o golpe de Estado de abril de 2012 na Guiné-Bissau passaram dois anos difíceis em que se abriram muitas feridas. Segundo o representante da ONU em Bissau, as sanções impostas ao país só poderão ser aliviadas através de “um ato eleitoral que não deixe dúvidas à comunidade internacional” quanto à sua transparência.

Amos Sawyer quer integração e desenvolvimento sustentado na Guiné-Bissau

O chefe da missão de observadores eleitorais da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, CEDEAO, pediu aos líderes dos partidos guineenses que estejam “prontos para fazer sacrifícios em prol do país”. O ex-Presidente interino da Libéria lidera a missão de 220 observadores que a CEDEAO enviou para acompanhar as eleições gerais na Guiné-Bissau.

Serifo Nhamadjo quer "o mundo a aplaudir as eleições" na Guiné-Bissau

Numa mensagem aos guineenses no último dia de campanha, o presidente de transição apelou à participação em massa no escrutínio: "o mundo está de olhos postos em nós”, disse Nhamadjo, referindo que a população deve votar “em liberdade e consciência”. As eleições são um dos últimos passos no período de transição política que o país vive desde o golpe de Estado de 12 de abril de 2012.

Morte de Kumba Ialá gerou preocupação entre políticos e população

De acordo com fontes familiares, Kumba Ialá morreu devido a doença cardíaca a 4 de abril passado. Segundo o seu médico particular e sobrinho, Kumba "pediu para ser sepultado só depois da vitória de Nuno Gomes Nabiam", candidato presidencial que apoiava. Recentemente, o representante da ONU em Bissau, José Ramos-Horta, apelou para que “não haja aproveitamento político” da morte do ex-Presidente.

Cidadãos guineenses na diáspora depositam confiança nos seus futuros governantes

Apesar de reclamações pela lentidão com que decorreu a votação por limitação de urnas, a comunidade guineense em Portugal participou com entusiasmo nas eleições. Os futuros dirigentes da Guiné-Bissau terão a responsabilidade de criar condições para o regresso dos que foram obrigados a deixar o país devido à instabilidade política.