Ilha de Moçambique em risco de desaparecer

Considerada Património Mundial da Humanidade, desde 1991, a Ilha de Moçambique corre o risco de desaparecer devido aos problemas relacionados com as alterações climáticas. Um dia pode mesmo acordar no fundo do mar...

Diariamente, a histórica cidade insular continua a receber muitos turistas. Alguns apaixonam-se pela ilha ao ponto de não voltarem às terras de origem.

Foi a primeira capital de Moçambique até 1898 quando a capital passou a ser Maputo no sul do país. Hoje, a Ilha de Moçambique é famosa pelo seu valor histórico e cultural. Nesta pequena ilha com cerca de três quilómetros de comprimento, localizada na província nortenha de Nampula, vivem perto de 15 mil pessoas.

A ilha está a ruir

Mas o seu futuro está em risco. Por causa das alterações climáticas, a ilha já está a ruir. Nos últimos anos, sempre que o mar enche demasiado, as águas têm invadido parte da cidade, causando estragos nas vias de acesso e nas casas. E a erosão costeira também tem aumentado, estando as alterações climáticas entre os principais fatores.

Até ao momento já foram consumidos cerca de 300 metros, dentro da ilha, e mais de 500 metros na parte continental. Para proteger a ilha da erosão, o Conselho Municipal necessita de mais de três milhões de dólares.

"Temos uma parte de erosão do muro da contra-costa por causa do nível das ondas que está a subir cada vez mais, está a corroer. Também a zona do Lumbo [área continental], que também faz parte do município, está a desaparecer, assim como a zona da fortaleza e a zona da piscina, na própria ilha, que é um caso muito preocupante", afirma Saíde Amur Gimba, presidente do Conselho Municipal da Cidade da Ilha de Moçambique.

Praia no lado continental da Ilha de Moçambique - aqui também se verifica o problema da erosão costeira

O Governo Provincial de Nampula diz que a situação que se vive na Ilha de Moçambique não é única na província. De acordo com Omar Aquiamundo, diretor provincial adjunto da Cultura e Turismo, há várias outras ilhas que podem desaparecer "devido a factores de aquecimento global". 

Neste contexto, acrescenta o responsável, a Ilha de Moçambique encontra-se numa situação mais vantajosa, uma vez que possui "um gabinete de restauro e controlo”. "Há projetos concretos a acontecer que visam proteger a própria ilha. E há muitas organizações internacionais, falo da UNESCO, que olham por ela", acrescenta.

Para travar o problema e evitar um eventual desaparecimento da cidade insular por causa da erosão, o autarca local diz que já há uma solução à vista: o Projeto de Desenvolvimento dos Municípios. "Na parte insular já temos um financiamento do PRODEMO [Projeto de Desenvolvimento dos Municípios] que vai apoiar numa extensão avaliada em dois milhões e quinhentos meticais. Esta parte não é muito crítica, mas vamos fazer para prevenção. Para a parte crítica estamos ainda a precisar de dinheiro. São valores elevados, acima de 1,5 milhões de dólares", explica.

Fortaleza de São Sebastião

A importância da preservação da arquitetura

O património arquitetónico e cultural histórico fez com que, em 1991, a Ilha de Mocambique passasse a ser considerada Património Mundial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

No entanto, atualmente, e segundo habitantes ouvidos pela DW África, a preservação da arquitetura já não se observa tanto na hora de construir ou reabilitar moradias. Genito Molava tem 27 anos e nasceu nesta ilha onde continua a viver. O também guia turístico oficial da UNESCO mostra-se preocupado com esta prática, afirmando que "os empresários e/ou as pessoas ricas que acham que o dinheiro é tudo, fazem o que querem. Às vezes desrespeitam mesmo que se exija um grande respeito. Tem havido grandes problemas de desvios do património artificial na construção de algumas casas, outras foram construídas, outras trocadas”, alerta.

O presidente do Conselho Municipal da Cidade da Ilha de Moçambique, Saíde Amur Gimba, assevera que não são permitidas mudanças arquitetónicas, apenas melhorias – desde que não se "apaguem as marcas" típicas. De acordo com Saíde Amur Gimba, a "Ilha de Moçambique é um património, portanto, não são permitidas alterações. Nós temos um regulamento de níveis de edifícios a considerar: edifícios de nível A, que não se alteram nem dentro e nem fora; nível B, que não se alteram por fora, mas podem ser alterados por dentro; nível C, nos quais se pode alterar por dentro por completo; e temos de nível D que se pode alterar dentro e fora”, enumera.

As alterações climáticas ameaçam o futuro da ilha

Desrespeitos na "cidade de macuti”

A Ilha de Moçambique está dividida em duas partes: a "cidade de pedra e cal" e a "cidade de macuti". A primeira acolhe os principais monumentos e edifícios melhorados. A segunda é composta por casas de construção precária, na sua maioria cobertas por macuti – as tradicionais folhas de coqueiro espalmadas.

À DW, o autarca Saíde Amur Gimba admite que há desrespeito de algumas normas na "cidade de macuti", mas associa a situação à falta da matéria-prima, que está a escassear devido a fatores climatéricos. "Como todo mundo sabe, há escassez de macuti e de pau por causa da doença de coqueiros e as pessoas não vão perder as suas casas por causa disso", explica.

Há cinco anos, a Ilha de Moçambique era uma das cidades da província de Nampula que mais sofria com o problema do fecalismo a céu aberto, pois muitos residentes não tinham latrinas. Esta era uma situação que afetava sobretudo o turismo, no entanto, a situação está agora melhor.

Mariamo Cebola, de 44 anos e moradora na ilha, mostra-se satisfeita com o progresso: "O município aconselha sempre todos a usarem os sanitários, mas há pessoas que vão defecar na praia. Este [existência do fecalismo] não é um problema do Governo, é nosso”, dá conta. Atualmente, as autoridades camarárias estão a tentar erradicar o problema de vez.

Moradores da ilha descontentes

Os problemas da ilha não se ficam por aqui. Os cidadãos daquela que foi a primeira capital do país queixam-se também dos cortes e oscilações constantes da corrente elétrica, sobretudo desde o ano passado. Segundo moradores ouvidos pela DW África, a empresa responsável pelo fornecimento de energia não cumpre o aviso prévio e nunca assume os prejuízos.

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NOTÍCIAS | 06.02.2017

Ilha de Moçambique em risco de desaparecer

António Pinto, de 65 anos, é gerente de uma estância turística na cidade. O moçambicano de origem portuguesa reconhece que a ilha está melhor do que antes, mas os problemas de energia estão a fazer retroceder os avanços. Segundo este morador, "não há dia que não haja um corte de energia, por duas, três ou mais horas. E o pior é que são cortes que parece que alguém está a ligar e desligar o interruptor, o que dá cabo das aparelhagens ligadas à corrente. Quando há este problema falha tudo, internet, sistemas no banco...''.

O Fundo do Património de Abastecimento de Água (FIPAG) é uma das empresas que não escapa aos prejuízos originados pelos cortes diários de energia. De acordo com Amade Omar, gestor no FIPAG na ilha de Moçambique, "com o transtorno da energia, em algum momento as nossas bombas danificam-se e queimam-se através das oscilações. E também não garantem o abastecimento a 100% às populações e isso faz com que forneçamos água com restrições”.

A DW África não conseguiu ouvir os responsáveis da empresa Eletricidade de Moçambique (EDM), que se mostraram sempre indisponíveis. Mas o presidente do Conselho Municipal da Ilha de Moçambique reconhece o problema, que diz ser "preocupante".

Redes de pescadores em frente da Igreja de Santo António

Desemprego é outro dos problemas da ilha

Outro problema que a cidade turística enfrenta é o desemprego. Armando Ruas tem 21 anos e é pescador desde os 16, altura em que quando abandonou a escola. À DW explica que a pesca é a única forma que tem de ganhar dinheiro para ajudar a família."Quando chega janeiro [até abril] morre muito peixe e a gente faz muito dinheiro. Uma pessoa pode ganhar por dia dois mil e ou cinco mil, depende do mar também”, explica o jovem.

O Governo Provincial de Nampula promete continuar a potenciar o turismo na Ilha de Moçambique com vista a gerar mais empregos.

Ainda assim... esta é uma ilha apaixonante

Apesar de todos estes problemas, o turismo não esmorece. E há mesmo quem visite a ilha e já não queira voltar à sua terra de origem. Kyra Castello, é italiana, tem 27 anos e apaixonou-se pela Ilha de Moçambique, há cerca de dois anos, quando a visitou pela primeira vez integrada num passeio turístico. Nunca mais abandonou a ilha, estando agora noiva do guia moçambicano Genito Molava. "Normalmente volto para visitar (à Itália) para visitar a família a cada seis meses, oito, por aí. De momento vamos ficar cá,” afirmou Kyra Castello.

Hotel Terraço das Quitandas, Ilha de Moçambique

Todos os dias, visitam a ilha novos turistas. Alguns compram casas de residentes e fixam aí a sua moradia, o que também cria receios de que um dia a ilha possa voltar a ser colonizada, tal como aconteceu há 500 anos, relembra Saíde Amur Gimba.

"Orgulha-nos, mas também ficamos preocupados. O nosso receio é de que isso [a ilha] não venha a ser colonizada pela segunda vez. Sendo a ilha de Moçambique património cultural não se pode alterar as fachadas das casas e os moçambicanos não têm a capacidade de reabilitar uma ruína. O que está a acontecer é que a maioria das ruínas já estão nas mãos de estrangeiros. E o nosso maior receio é que eles entrem em massa e comecem a ditar os seus princípios”, explica o edil.

A idade da Ilha de Moçambique já começa a pesar, mas a cidade quer continuar a ser um lugar para viver e ser visitado. Governo e parceiros prometem, por isso, continuar a redobrar esforços para criar melhores condições sócio-económicas. E a preservar o histórico património mundial da humanidade.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Primeira capital de Moçambique

Situada na Província de Nampula, a Ilha de Moçambique é um destino turístico muito procurado na África Austral pelo seu vasto património histórico e cultural. "Descoberta" pelo navegador português Vasco da Gama, em 1498, aquando da viagem marítima para a Índia, esta ilha foi a primeira capital de Moçambique. É atualmente habitada por cerca de 15 mil pessoas.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Pequena ilha, grande história

Apesar de ter apenas três quilómetros de comprimento e 400 metros de largura, esta pequena ilha carrega uma grande história. Quando Vasco da Gama a "descobriu", ela já era um importante lugar de trocas comerciais entre os africanos e os povos árabes. Após a chegada dos portugueses, a ilha ganhou uma importância estratégica na rota que ligava Lisboa a Goa, a "Carreira da Índia".

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Habitações com história

A Ilha de Moçambique está dividida em duas partes: a “cidade de pedra e cal” e a “cidade de macuti“. Na primeira (à direita da rua), eram construídas as casas que pertenciam às camadas mais altas da sociedade, onde estavam os palácios e fortalezas. Na segunda (à esquerda da rua), viviam as pessoas de classes mais baixas.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Cidade de "macuti"

Na chamada “cidade de macuti“ viviam os mais pobres - os pescadores, por exemplo. É nesta parte da cidade que se encontram, como o nome indica, as construções mais precárias cobertas por macuti - as tradicionais folhas de coqueiro espalmadas.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Património Mundial da Humanidade

Foi em 1991 que a ilha de Moçambique passou a integrar a lista dos destinos considerados Património Mundial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO. De passagem pela ilha há vários monumentos que não pode deixar de visitar.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Fortaleza de São Sebastião

Construída no século XVI pelos portugueses, a Fortaleza de São Sebastião visava dar proteção e apoio aos barcos que navegavam na chamada Carreira da Índia. É um dos mais representativos exemplos da arquitetura militar portuguesa na costa oriental de África.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Capela de Nossa Senhora do Baluarte

A Capela de Nossa Senhora do Baluarte, construída em 1522 na extremidade norte da ilha, é hoje o único exemplo da arquitetura manuelina em Moçambique. O manuelino, ou também gótico português tardio, é um estilo que se desenvolveu no reinado de D. Manuel I nos séculos XV e XVI. O acesso à capela faz-se apenas pelo interior da Fortaleza de São Sebastião.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Palácio de São Paulo

Construído em 1610, o Palácio de São Paulo, também conhecido como Palácio dos Capitães-Generais, funcionou primeiro como Colégio da Companhia de Jesus, tendo sido depois convertido no palácio do governador - função que manteve até a Ilha de Moçambique deixar de ser a capital do país, em 1898. No palácio podemos hoje visitar o Museu da Marinha e o Museu-Palácio de São Paulo.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Outros locais de interesse turístico

O monumento dedicado ao poeta português Luís Vaz de Camões, que viveu entre 1567 e 1569 na Ilha de Moçambique, é outro dos locais que os visitantes da Ilha não podem deixar de conhecer, assim como a Igreja da Misericórdia e Museu de Arte Sacra e a Capela de São Francisco Xavier. Todos estes edifícios históricos estão localizados na Cidade da Pedra.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Um destino multicultural

Apesar da clara influência do povo português, cabem na ilha de Moçambique apontamentos de muitas outras geografias mundiais. Encontramos aqui um largo número de culturas e religiões diferentes. Ao caminharmos pelos diferentes bairros da ilha, cruzamo-nos com várias igrejas e capelas, mas também com mesquitas e um templo hindu.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Escola Maometana

A maioria dos habitantes da ilha pertence à religião muçulmana. A "Escola Maometana / The Mohamedia Madresa School" localiza-se ao lado da "Mesquita Central Seita Sunni" próximo do centro da Ilha de Moçambique. A ilha foi marcada durante séculos pela cultura suaíli e o islão dos povos da África Oriental, como também acontece na vizinha Tanzânia.

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Ilha em risco – um futuro incerto

Nos últimos anos, muitos são os especialistas que chamam a atenção para a possibilidade deste pequeno paraíso poder vir a desaparecer por causa das alterações climáticas. Teme-se que, devido à erosão costeira, um dia a ilha possa acordar no fundo do mar. Até ao momento já foram consumidas várias áreas pequenas.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Fecalismo a céu aberto

Mas para além do câmbio climático, há outros problemas mais profanos no dia a dia da ilha. Muitos habitantes usam as praias como casa de banho, o que ameaça a saúde pública e coloca em perigo os atrativos turísticos da ilha. Para melhorar o saneamento básico, foram construídos sanitários públicos em vários lugares da ilha.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Degradação apesar de Património Mundial

Apesar da classificação em 1991 como Património Mundial pela UNESCO, encontram-se muitos prédios em ruínas na Ilha de Moçambique. A recuperação é lenta. Desde que a capital do país passou para Maputo, no sul de Moçambique, os investimentos públicos concentram-se no sul do país. O norte e a Ilha de Moçambique perderam protagonismo político.

Ilha de Moçambique: a "menina dos olhos" de Nampula

Esforços em torno da preservação

No entanto, e apesar do património histórico omnipresente na ilha, ela quer continuar a ser um lugar para se viver. Por isso, o Governo de Moçambique e parceiros internacionais têm vindo a unir esforços para criar melhores condições sócio-económicas. E, claro, para preservar o património histórico e cultural da ilha.

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