Inhaminga: De centro urbano a vila em ruínas

Mais de 25 anos depois, ainda é visível a destruição deixada pela guerra na vila de Inhaminga, no centro de Moçambique. Os habitantes continuam a pedir mais investimento do Governo para reabilitar o antigo centro urbano.

No tempo colonial, a vila ferroviária de Inhaminga, era considerada o segundo centro urbano da província de Sofala, depois da cidade da Beira. Hoje em dia, é uma das vilas na região com mais edifícios em ruína.

As marcas da guerra civil moçambicana ainda são visíveis nas perfurações nas paredes. Décadas depois, a vila parece ter caído no esquecimento. Enquanto outras zonas da província florescem, os edifícios têm estado a degradar-se cada vez mais em Inhaminga, que tem cerca de 20 mil habitantes.

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MEDIATECA | 09.08.2018

Inhaminga: De centro urbano a vila em ruínas

Celestino Dique nasceu e cresceu nesta vila. Atualmente, gere um complexo residencial, que estava em ruínas, e que foi reabilitado em 1999. Defende a criação de parcerias entre as autoridades e os empresários. O objetivo, diz, é desenvolver a localidade, "dando liberdade às pessoas, aos empresários que querem [o desenvolvimento], e não criar impedimentos". 

Já o ancião Elias Languitone lembra que, nos últimos anos, o Governo recuperou alguns edifícios. "Muitos escombros já foram reabilitados. Para dizer que o nosso Governo fez boas coisas", frisa.

Caminhos de Ferro com plano de reabilitação

A DW não conseguiu chegar ao contacto com as autoridades. Muitas das ruínas em Inhaminga pertencem aos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). A empresa pública diz que está a cumprir, a pouco e pouco, um plano de reabilitação, tanto de edifícios, como de comboios.

O plano prevê a "reabilitação de tudo o que é possível reabilitar em função das possibilidades, porque não é possível reabilitar tudo de uma única vez", explica em entrevista à DW África Augusto Atumane Abdul, diretor-geral dos CFM na região centro. "Em função da necessidade e do tempo, [a empresa] tem reabilitado as infraestruturas e reaproveitado algum material circulante. O que não é possível reaproveitar é abatido", acrescenta.

A beleza de Inhaminga está a ser ofuscada pelas ruínas, comenta o agente económico António João Jone. Mas isso pode mudar, se os proprietários também começarem a "arregaçar as mangas" e a reabilitar ou a vender as suas casas, defende. "Aqueles que têm as casas em escombros, neste momento, que as possam vender para outras pessoas as reabilitarem, mantendo assim a vila como estava", diz.

Inhaminga - cidade de ruínas

Ruína em Inhaminga

A localidade moçambicana de Inhaminga, no tempo colonial, era um ponto de confluência de várias vias, entre elas de comboio. Os edifícios coloniais já desmoronaram. Inhaminga tem cerca de 20mil habitantes e situa-se na provincia de Sofala, a cerca de 180 quilómetros a norueste da cidade da Beira. Esta localidade terá sido, também, palco de massacres perpetrados pela PIDE no tempo colonial.

Inhaminga - cidade de ruínas

Decadência depois de 1975

Muitos imóveis coloniais, depois da independência em 1975, foram ocupados por funcionários da FRELIMO. Mas os novos donos – regra geral - não se responsabilizaram pela manutenção dos mesmos. E assim não se conseguiu evitar a ruína de muitos edifícios como este em Inhaminga, no centro de Moçambique.

Inhaminga - cidade de ruínas

As ruínas ainda albergam moradores

Os telhados caíram, as portas e janelas apodreceram, mas a maior parte dos edifícios continua a albergar moradores. Algumas das casas foram cobertas com telhados de chapa. Corrente elétrica pública é algo que não existe. O fornecimento de água é assegurado através de algumas fontes públicas.

Inhaminga - cidade de ruínas

Avenida em Inhaminga

As avenidas que rasgam Inhaminga são largas e parecem mesmo super-dimensionadas. Espaço é coisa que aqui não falta. A linha ferroviária de Sena tinha sido destruida na guerra, mas foi reaberta em 2012 para assegurar o transporte de carvão extraído em Moatize, provincial de Tete, para o porto da Beira. Inhaminga voltou assim a recuperar alguma importância estratégica, há muito tempo perdida.

Inhaminga - cidade de ruínas

Cinema em Inhaminga

Este edifício corre um sério risco de desmoronar. Mas por enquanto continua a ser parcialmente utilizado para a exibição de filmes.

Inhaminga - cidade de ruínas

Fecalismo a céu aberto

As antigas antigas piscinas municipais também já viram melhores dias. Há muito tempo que fecharam. Alguns habitantes utilizam agora o local para fazer as suas necessidades.

Inhaminga - cidade de ruínas

Calvário de pau

Na igreja de Inhaminga vêem-se peças de Madeira que retratam o tema da Guerra: Inhaminga – durante mais de vinte anos– foi palco de conflitos armados. Primeiro surgiu a guerra entre a FRELIMO e o poder colonial. Depois da independência foi a vez dos rebeldes da RENAMO desafiar o governo da FRELIMO durante a guerra civil moçambicana.

Inhaminga - cidade de ruínas

Memórias da guerra

Nos tempos coloniais, o Sr. Espanhol trabalhou como motorista da missão católica de Inhaminga. Ele conta que a PIDE matou dois dos seus irmãos. „Foram enterrados vivos com a ajuda de um bulldozer“, recorda o Sr. Espanhol.

Inhaminga - cidade de ruínas

Antiga sede da administração colonial

O antigo edifício-sede da administração colonial portuguesa encontra-se numa zona limítrofe ao centro de Inhaminga. É mais um dos edifícos que ameaça ruir em breve por completo.

Inhaminga - cidade de ruínas

Símbolos do poder colonial

A fila de pilares é imponente e faz lembrar que o edifício administrativo era um verdadeiro símbolo do poder colonial. Desde o iníco da guerra colonial, em 1964, a PIDE esteve sempre presente e levou a cabo muitas operações, que culminaram em ataques e detenções arbitrários.

Inhaminga - cidade de ruínas

Quartel do exército colonial

Também este edifício se encontra destruído: um símbolo do fim da era colonial: o quartel do exército que combatia o movimento de libertação nacional FRELIMO situava-se mesmo ao lado do edifício administrativo.

Inhaminga - cidade de ruínas

Massacres de Inhaminga

Em Inhaminga todos conhecem o local, onde terão acontecido os massacres das populações locais, durante o tempo colonial. Diz-se que atrás de um muro, a cerca de três quilómetros de distância do centro de Inhaminga, ainda jazem os corpos das vítimas. Pouco se sabe sobre história e práticamente ninguém conhece o local.

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