Marcha em Nampula contra assassinato de Amurane

Cidadãos da cidade de Nampula (Moçambique) chocados com o assassinato do edil Mahamudo Amurane, saíram à rua para exigirem justiça. A polícia usou balas de borracha e gás lacrimogéneo contra os manifestantes.

Na a cidade de Nampula (norte de Moçambique), centenas de cidadãos saíram à rua esta quinta-feira (05.10.) para protestar contra o assassinato, até agora sem esclarecimento por parte das autoridades policiais, do edil da cidade Mahamudo Amurane, morto na véspera (04.10.) à queima-roupa com três tiros disparados por desconhecido.

A marcha, na qual participou uma grande maioria de jovens, teve por objetivo patentear a indignação da população da cidade de Nampula face ao assassinato do presidente da edilidade Mahamudo Amurane, ocorrido na sua residência particular, em Namutequeliua, perpetrado por indivíduo ainda a monte.

Mahamudo Amurane, Bürgermeister von Nampula sagt, er ist kein Mitglied der MDM-Partei mehr

Mahamudo Amurane

Empunhando dísticos e entoando cânticos que enaltecem o trabalho realizado por Amurane à frente da edilidade, os manifestantes percorreram as diferentes ruas e avenidas até à residência do autarca assassinado. Ao longo do percurso, os manifestantes não cessaram de exigir justiça por este ato que todos consideraram de "bárbaro".

"Amurane foi um bom pai para Nampula", diz manifestante

Mateus Duarte um dos participantes na manifestação, muito comovido explicou à DW África as razões que levaram as pessoas a participar em grande número nessa marcha.

"Esta marcha é a forma de chorarmos [por Amurane] porque ele foi um bom pai para todos nós habitantes dessa cidade. A morte dele para nós é uma grande perda. E agora pergunto: Onde vamos parar sem Amurane?"

Adriano, um outro cidadão ouvido pela DW-Africa, sem entrar em detalhes, condenou o assassinato do edil e suspeita que o mesmo tenha sido influenciado por questões politicas.

Mosambik, Protest in Nampula

"Penso que este assassinato esteja ligado a uma motivação política. Não posso dizer mais nada. Nós os munícipes gostávamos de Amurane, porque ele estava a fazer um excelente trabalho", reconheceu.

A marcha que era pacífica conheceu contudo alguns momentos conturbados e de muita violência, perpetrada pela Polícia quando esta decidiu disparar balas de borracha e atirar granadas com gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes. Algumas pessoas ficaram feridas, mas sem gravidade. Ninguém foi preso pelas autoridades policiais.

Mateus Duarte lamentou a atuação da policia, cuja tarefa era de enquadrar e proteger os participantes na marcha, mas decidiu utilizar a violência visando interromper o percurso previamente escolhido pelos cidadãos da cidade de Nampula para homenagearem o autarca assassinado. "A polícia só esteve a andar atrás de nós para impedir a realização da marcha. Deveria ter tido uma outra postura", lamentou.
Polícia agrediu jornalistas

Mosambik, Protest in Nampula

Jornalistas na cobertura da manifestação em Nampula: (Da esq.para direita): Sitoi Lutxeque (DW), Chimoio Marques, Adina Sualehle e Luís Rodrigues.

Os jornalistas que cobriam o protesto também não escaparam à violência policial. Adina Sualehle, correspondente da Voz da América (VOA) em Nampula, praticamente perdeu os sentidos devido ao efeito de uma granada de gás lacrimogéneo atirada pela polícia contra os manifestantes.

Sualehle, que foi prontamente socorrida pelos colegas lamentou a atitude das autoridades policiais."A questão das pessoas manifestarem-se é um direito que consta na nossa Constituição, e penso que o grupo estava a protestar sem criar distúrbios, isto é de forma pacífica. A polícia devia apenas fazer o acompanhamento da marcha sem agir daquela maneira violenta, porque algumas pessoas foram feridas e passaram mal. Eu pessoalmente passei muito mal. Caí na via púbica e perdi o meu telefone celular que estava a usar para fazer algumas imagens", disse.

Assuntos relacionados

Luís Rodrigues, também jornalista do Jornal Makholo, um semanário independente disse à nossa reportagem que "fiquei com uma lesão ao fugir da violência policial... estava devidamente identificado mas a polícia nem sequer olhou e atuou contra mim como se fosse um dos manifestantes", disse.Também o repórter da DW África viveu situação semelhante aos seus colegas. Tentaram tirar-lhe a maquina fotográfica e o telefone celular e a polícia exigiu-lhe que apagasse algumas imagens feitas da manifestação.

Refira-se que um contingente policial fortemente armado continua a patrulhar as ruas da cidade de Nampula para impedir qualquer tipo de aglomeração ou movimentação popular.

Entretanto, o porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM) disse que a corporação vai pronunciar-se sobre o que aconteceu durante o dia de hoje em Nampula, mas não convocou a imprensa até o envio desta crónica.

Cadeia de riquezas minerais

Em Moma, a província moçambicana de Nampula tem algumas das maiores reservas de areias pesadas do mundo, das quais se podem extrair minerais como a ilmenite, o zircão e o rutilo. As areias pesadas da região são parte de uma cadeia de dunas que se estendem desde o Quénia até Richards Bay, na África do Sul. Em Moma, exploram-se os bancos de areia de Namalote e as dunas de Topuito.

Areias para diferentes indústrias

Unidade de lavagem de areias pesadas da mineradora irlandesa Kenmare, um dos chamados "megaprojetos" estrangeiros em Moçambique. A ilmenite, o zircão e o rutilo, extraídos das areias, são usados, respetivamente, na indústria de pigmentos, cerâmica e na produção de titânio. O rutilo, um óxido de titânio, é fundamental para a produção do titânio usado para a construção de aviões.

Lucro após prejuízo

Os produtos são transportados através de um tapete rolante até um pontão no Oceano Índico. Segundo media moçambicanos, a extração de areias pesadas na mina de Topuito, em Moma, resultou num lucro de 39 milhões de dólares no primeiro semestre de 2012. No mesmo período de 2011, a empresa registou prejuízo de 14 milhões por causa da baixa dos preços devido à crise económica mundial.

Problemas trabalhistas?

O semanário moçambicano Savana repercutiu, em outubro de 2011, a decisão do ministério do Trabalho de suspender 51 trabalhadores estrangeiros em situação ilegal na Kenmare. Segundo o Savana, na mesma altura, a Inspeção Geral do Trabalho descobriu que 120 trabalhadores indianos estavam para ser recrutados pela Kenmare. O recrutamento foi cancelado.

Mudança de aldeia

Para poder explorar as areias pesadas em Nampula, entre 2007 e 2010 a mineradora irlandesa Kenmare transferiu as moradias de centenas de pessoas na localidade de Moma, no norte do país. A empresa prometeu acesso à água, casas melhores e postos de saúde. Na foto, nova escola primária para a população local.

Acesso à água

Em 2011, o novo bairro de Mutittikoma, em Moma, ainda não tinha um poço d'água. Esta é transportada até o vilarejo com um camião cisterna. O acesso à água também é garantido com uma tubulação que a Kenmare instalou ali. Porém, como a mangueira só deixa correr um fio d'água, as mulheres que vêm buscá-la esperam no sol durante horas a fio para encher baldes e recipientes.

Responsabilidade social

Uma casa construída pela Kenmare para a população desalojada por causa da exploração das areias pesadas em Moma. No início de setembro, Luísa Diogo, antiga primeira-ministra de Moçambique, disse que o país deve estar "muito atento" para que os grandes projetos de recursos naturais – como carvão e gás – beneficiem as populações. Ela também defende renegociação de contratos multinacionais.

Em busca do brilho

Para além das areias pesadas, o solo da parte sul da província moçambicana de Nampula oferece mais riquezas. Na foto: garimpeiros à procura da pedra preciosa turmalina em Mogovolas. Os garimpeiros recebem cerca de um euro por dia para cavar buracos com vários metros de profundidade. As pedras são vendidas a um comerciante intermediário.

Verde raro

As pedras de turmalina costumam ter várias cores. Uma das mais conhecidas é a verde. Mas existe outro verde precioso que se torna cada vez mais raro em Mogovolas: o da vegetação. Os buracos cavados pelos garimpeiros podem não ter pedras, mas permanecem após a escavação e sofrem erosão. As plantas não são plantadas novamente, apesar de a recomposição da vegetação ser prevista pela lei.