Moçambique: Arranca II congresso do MDM em Nampula

Cerca de 1.500 pessoas, entre delegados e convidados nacionais e estrangeiros, são esperadas no congresso da terceira força política de Moçambique, que se realiza entre terça (05.12) e sexta-feira (08.12).

A cidade de Nampula, no norte de Moçambique, além de acolher o II congresso é palco da cena mais negra, até agora, da história do Movimento Democrático de Moçambique (MDM).

Política | 05.10.2017

O momento de instabilidade interna começou quando o autarca de Nampula, Mahamudo Amurane, também ele do MDM, acusou publicamente o presidente do partido, Daviz Simango, de ditador e corrupto.

Mahamudo Amurane viria a ser assassinado a 4 de outubro. Na altura, já tinha anunciado que prescindiria do apoio do MDM à sua recandidatura às municipais de 2017.

Mosambik Gemeindeversammlung Nampula

Américo da Costa Iemenle, presidente Assembleia Municipal de Nampula

Na sequência da morte, Manuel Tocova, do MDM, assumiu, em outubro, a presidência de Nampula por inerência da função de presidente da assembleia municipal.

Mas, Tocova foi condenado pela justiça a três meses de prisão com pena suspensa por desobediência, por ter feito exonerações consideradas ilegais na qualidade de presidente interino. Manuel Tocova foi depois detido por posse ilegal de armas, acabando por renunciar ao cargo.

Em substituição de Manuel Tocova, a assembleia municipal de Nampula elegeu Américo Júlio da Costa Iemenle, também do MDM, que viu igualmente a sua decisão de exonerar vereadores ser travada pelo Governo central por ilegalidade.

Poder autárquico

Neste II congresso, o partido vai eleger novos órgãos, incluindo o presidente da organização. "De acordo com os nossos estatutos, o congresso, além de eleger os órgãos do partido, também elege o presidente do partido e as candidaturas são anunciadas logo na abertura", afirmou, na semana passada, o chefe da bancada do MDM na Assembleia da República Lutero Simango.

Lutero Simango, Mitglied der MDM-Partei

Lutero Simango, chefe da bancada do MDM na Assembleia da República

Em consequência de uma cisão com a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), o MDM foi criado em 2009.

Nas eleições gerais (presidenciais e legislativas) desse ano, o MDM conseguiu eleger oito deputados à Assembleia da República, apesar de ter sido impedido de concorrer em oito dos 11 círculos eleitorais do país, devido a irregularidades na candidatura. Nas eleições gerais de 2014, o MDM alargou o seu espaço para 17 assentos parlamentares.

Além de ter conquistado o poder no município da Beira, a segunda maior cidade do país, com Daviz Simango, o MDM conseguiu depois eleger autarcas na cidade de Nampula, terceira maior cidade, e Quelimane, quarta maior cidade, e no município de Gurué.

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