Moçambique: Ossufo Momade confirma candidatura à liderança da RENAMO

Ossufo Momade diz que quer dar continuidade ao projeto do falecido líder Afonso Dhlakama. O candidato falou à DW África sobre os seus projetos para a RENAMO. O partido terá pela primeira vez um líder eleito.

O novo presidente do maior partido da oposição em Moçambique deverá ser escolhido no VI Congresso a acontecer de 15 a 17 de janeiro na Serra da Gorongosa, bastião da RENAMO. Crescimento, união no partido e eleições gerais de 2019 serão outros temas importantes em discussão. A DW África entrevistou Ossufo Momade, líder interino do partido, sobre o Congresso e a sua candidatura:

DW África: Confirma a sua candidatura à liderança da RENAMO?

Ossufo Momade (OM): Confirmo, sim, que tenho uma motivação no sentido de querer contribuir com a minha experiência e saber no crescimento e fortalecimento do partido e pela democracia em Moçambique. Tendo trabalhado lado a lado com o malogrado [Afonso Dhlakama] há uma necessidade e vontade das bases do partido e da sociedade também de apoio de forma inequívoca de dar continuidade ao projeto do presidente Dhlakama.

DW África: Que propostas o senhor Ossufo tem para a RENAMO?

OM: São várias, sabe muito bem que a RENAMO é um grande partido, que tem um projeto que é governar Moçambique. E nós queremos desenhar boas políticas, na medida em que Moçambique é um país rico e o mundo ambiciona essas riquezas, mas os nossos irmãos da FRELIMO fazem o que querem do nosso país. Quero elevar Moçambique a um nível que possa conquistar os países vizinhos, assim como o mundo inteiro.

Afonso Dhlakama, falecido líder da RENAMO, o maior partido da oposição em Moçambique

DW África: São já conhecidos dois nomes que pretendem candidatar-se a liderança do partido: Elias Dhlakama e Manuel Bissopo. Caso sejam aceites as candidaturas estaria preparado para disputar o lugar com estas duas figuras?

OM: A RENAMO é um partido democrático e eu penso que o congresso vai decidir sobre quem vai dirigir o partido daqui para frente. Neste momento quem coordena a comissão política e a própria RENAMO é o Ossufo Momade, mas a partir deste congresso vamos encontrar a pessoa eleita para dirigir a RENAMO. E este é um ano eleitoral e do congresso sairá o nosso candidato para as eleições do dia 15 de outubro deste ano.

DW África: A RENAMO não realiza congressos há vários anos. Quais serão os temas em cima da mesa depois de tanto tempo?

OM: Crescimento, a união e podermos levar a RENAMO ao poder. Qualquer partido quando vai ao congresso tem o objetivo de traçar os projetos que possam garantir a sua vitória nas eleições. E neste momento a nossa preocupação são as eleições que estão à nossa porta, unir a família RENAMO, levar a RENAMO ao poder, governarmos o país e tira-lo da pobre que está a viver.

DW África: Após a morte de Afonso Dhlakama a coesão da RENAMO chegou a estar em causa nalgum momento?

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MEDIATECA | 11.01.2019

Moçambique: Ossufo Momade confirma candidatura à liderança...

OM: Não, nós estamos unidos, estamos juntos, por isso estamos neste momento a preparar o congresso para que encontremos aquele que vai dirigir a RENAMO, porque o que está no meio de tudo isto é a RENAMO unida, a RENAMO rumo à vitória.

DW África: A escolha do líder da RENAMO será por meio de votação, de indicação... Como será?

OM: Vamos realizar o congresso que tem os seus critérios e os seus meios para encontrar a pessoa que vai dirigir o partido. Se fosse por indicação não haveria a necessidade de realizarmos as conferências distritais, as conferências provinciais. O líder será escolhido através de uma votação numa eleição.

DW África: Relativamente aos requisitos do seu partido para a escolha do candidato a liderança, um deles, por exemplo, é ter ocupado uma posição de relevo no partido, como secretário-geral ou ter sido membro da comissão política, ou ter 15 anos de militância. Estes requisitos não limitam a possibilidade do chamado sangue novo se candidatar à liderança?

OM: Não, esses critérios não foram impostos pelo Ossufo, o perfil apresentado foi aprovado no conselho nacional, foi uma aprovação unânime. Não podemos contrariar a vontade do conselho nacional.

DW África: Porque Gorongosa foi o lugar escolhido para acolher o congresso?

As eleições autárquicas de 2018 foram marcadas por irregularidades

OM: É um lugar sagrado e é aqui onde o coordenador da comissão política está a residir nos últimos meses. E sabendo que vivemos cá e que neste momento não temos possibilidades de nos deslocarmos para qualquer cidade de Moçambique, porque não há segurança adequada, o conselho nacional deliberou que o congresso fosse realizado na Serra da Gorongosa.

DW África: As eleições gerais estão previstas para outubro de 2019. Depois das irregularidades das eleições autárquicas de 2018 acha que há condições para a realização das eleições gerais?

OM: A vontade do povo moçambicano é de que se realizem as eleições de outubro deste ano. Há dias ouvi na Rádio Moçambique que o Governo norte-americano fez um apelo ao regime do nosso país para que houvesse uma revisão da Lei Eleitoral, para que não aconteça o que aconteceu [fraudes] no ano passado. O que está em causa é a forma como o regime trata os processos eleitorais, porque em momentos eleitorais o regime leva a sua máquina a mesa de votação, isso não pode acontecer. É um regime que manda os seus homens fazerem de tudo para que o regime se mantenha no poder. Penso que há uma necessidade de a Assembleia da República fazer um trabalho para que encontremos uma lei que possa corrigir essas irregularidades.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Dhlakama, um começo na FRELIMO que não vingou

Afonso Macacho Marceta Dhlakama nasceu a 1 de janeiro de 1953 em Mangunde, povíncia central de Sofala, Moçambique. Entra para a FRELIMO perto da época da independência em 1975, mas não fica muito tempo. Em 1976 sai do partido que governa o país para co-fundar a RNM (Resistência Nacional de Moçambique), um movimento armado, com o apoio da Rodésia do Zimbabué. O objetivo: por fim a ditadura.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Dhlakama: Desde cedo líder da RENAMO

A guerra civil entre a RNM, depois denominada RENAMO, Resistência Nacional de Moçambique, e o Governo começou em 1976. Dhlakama assume a liderança da RNM depois da morte de André Matsangaíssa em combate em 1979. Já era líder quando o primeiro acordo que visava por fim a guerra foi assinado entre o Governo e o regime do apartheid na África do Sul em 1984. Mas o Acordo de Inkomati fracassou.

Afonso Dhlakama, homem de causas

AGP: Democracia entra no vocabulário com Dhlakama

Depois de 16 anos de guerra Dhlakama assina com o Governo o Acordo Geral de Paz de Roma em 1992 no contexto do fim da guerra fria e do apartheid na África do Sul. Começa uma nova era para o país, depois de uma guerra que fez perto de um milhão de mortos e milhões de refugiados. A democracia passa então a fazer parte do vocabulário dos moçambicanos, com Dhlakama a auto-intitular-se o seu pai.

Afonso Dhlakama, homem de causas

O começo das derrotas de Dhlakama nas eleições

Moçambique entra para a era do multipartidarismo e realiza as suas primeiras eleições em 1994. Dhlakama e o seu partido perdem as eleições. As segundas eleições acontecem em 1999 e Dhlakama volta a perder, mas rejeita a derrota. E desde então não parou de perder, facto que provocou descontentamento ao partido de Dhlakama. Reclamava de fraudes e injustiças. E nasceram assim as crises com o Governo.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Dhlakama: O regresso às matas como estratégia de pressão

O regresso do líder da RENAMO à Serra da Gorongosa em 2013, um dos seus bastiões militares, foi uma mensagem inequívoca ao Governo da FRELIMO. Dhlakama queria mudanças reais, que passavam pelo respeito integral do AGP, principalmente a integração dos militares da RENAMO no exército nacional, e mudança da legislação eleitoral. Assim o país voltou a guerra depois de mais de vinte anos.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Armando Guebuza e Dhlakama em braço de ferro permanente

A 5 de agosto de 2014 o então Presidente Armando Guebuza e Afonso Dhlakama assinaram um cessar-fogo. Estavam criadas as condições para o líder da RENAMO participar nas eleições gerais de outubro de 2014. Dhlakama e o seu partido participam nas eleições e voltam a perder. As crise volta ao rubro e Dhlakama regressa às matas da Gorongosa.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Emboscada contra Afonso Dhlakama

A 12 de setembro de 2015 a caravana em que seguia Afonso Dhlakama foi atacada na província de Manica. Ate hoje não se sabe quem foram os atacantes. A RENAMO considerou a emboscada como uma tentativa de assassinato do seu líder. A comunidade internacional condenou o uso da violência.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Aperto ao cerco contra Afonso Dhlakama

No dia 9 de outubro de 2015, a polícia cercou e invadiu a casa de Afonso Dhlakama na cidade da Beira. As forças governamentais pretendiam desarmar a força a guarda do líder da RENAMO. Os homens da RENAMO que se encontravam no local foram detidos. A população da Beira, bastião da RENAMO, juntou-se diante da casa de Dhlakama manifestando o seu apoio ao líder.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Dhlakama e Nyusi: Menos mãos melhores resultados

O líder da RENAMO e o Presidente da República decidiram prescindir de mediadores e passaram a negociar o acordo pessoalmente. Desde então consensos têm sido alcançados, um deles relativo à revisão pontual da Constituição, no âmbito do processo de descentralização em fevereiro de 2018. A aprovação da proposta pelo Parlamento é urgente, pois as próximas eleições de 2018 e 2019 dependem dele.

Afonso Dhlakama, homem de causas

Dhlakama: Não foi a bala que ditou o seu fim

Na manhã de 3 de maio o maior líder da oposição em Moçambique perdeu a vida vítima de doença. Deixa aos seus correlegionários a tarefa de negociar outro ponto controverso na crise com o Governo: a desmilitarização ou integração dos homens armados da RENAMO no exército nacional. Há quase 40 anos à frente da liderança da RENAMO teve de negociar com todos os Presidentes de Moçambique independente.

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