Moçambique: Saída do "indivíduo A" significa ou não alguma coisa?

Exoneração de António do Rosário da direção de inteligência económica da secreta é entendida por uns como desobstrução no acesso à informação omitida no caso das dívidas ocultas. Também há quem desvalorize a exoneração.

Na sua edição desta quarta-feira (06.12.), o jornal Canal de Moçambique informa que o chefe da inteligência económica do SISE, Serviços de Informação Segurança do Estado, foi demitido do cargo. Supõe-se que António Carlos do Rosário é uma das peças-chave na contratação das dívidas ocultas e a pessoa que teria dificultado o acesso da auditoria Kroll a informações cruciais sobre este processo.

A sua exoneração seria uma forma de desobstruir o acesso as tais informações ou uma tentativa de mostrar serviço aos doadores internacionais ou até uma simples exoneração regular?

Pedro Nhacete é pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais e supõe que "pode ser que o Presidente [Filipe Nyusi] já tenha compromissos com os doadores internacionais, então ele quando o exonera do cargo é mais para abrir caminho, de facto, para que as coisas apareçam sem a intervenção e obstrução dele [Carlos António do Rosário] lá dentro."

O pesquisador recorda que "ele não teve uma colaboração satisfatória com a Kroll. Mas também pode haver uma segunda dimensão, que ele, por exemplo, pode, se calhar, ter criado forma de sair para obstruir, ou por outra, solicitado a exoneração."

É preciso mais do que uma demissão

Das Logo der Schweizer Grossbank Credit Suisse und die Schweizer Flagge

O Credit Suisse é um dos bancos envolvidos no caso

Mas há quem não interprete esta saída da mesma forma. Para a diretora executiva da Nweti, ONG que trabalha na área de advocacia para políticas públicas, o que jogaria um papel importante no esclarecimento da contratação das dívidas é mais do que uma exoneração. Denise Namburete: "Não acho que seja uma forma de garantir o acesso à informação. Acho que o que se pretende neste momento é que as lacunas de investigação no relatório da Kroll sejam sanadas. E essas lacunas não serão sanadas com uma simples demissão."

Para Namburete "é necessário que para além da demissão ele seja de alguma forma forçado ou impelido a prestar as declarações, os documentos e dados necessário para sanar as lacunas de informação no relatório da Kroll. E será satisfatório tanto para os parceiros de desenvolvimento como para o FMI ou para o cidadão moçambicano."

Suposto "indivíduo A" tem de abandonar gestão da Ematum, MAM e Proindicus?

Entretanto, António do Rosário continua a fazer parte do Conselho de Administração das empresas que se beneficiaram do dinheiro de bancos estrangeiros, de acordo com o Canal de Moçambique. O SISE, Serviços de Informação Segurança do Estado, é acionista do trio Ematum, MAM e ProIndicus, as beneficiárias do empréstimo.

Sendo considerado com um dos maiores "obstrutores" faria sentido também o seu afastamento da gestão das famigeradas empresas?

Pedro Nhacete não tem dúvidas e considera que "seria lícito, neste momento ele devia ser afastado do cargo de Presidente do Conselho de Administração (PCA), porque estando lá pode ser que haja obstrução da informação ou pode haver maior dificuldade tal como quando ele estava na secreta e não conseguiu colaborar com a Kroll."

Já Denise Namburete minimiza o papel de António Carlos do Rosário, que é percebido por muitos como o "indivíduo A" citado pelo relatório da Kroll e argumenta: "Eu acho que é indiferente na medida em que essas empresas efetivamente não existem. Os dados indicam que as empresas não são operacionais."

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