Moçambique: Subida do preço dos alimentos é por causa do ciclone Idai?

Nos mercados de Quelimane o preço dos alimentos disparou. Comerciantes associam a subida ao ciclone Idai. Mas o Governo diz que os preços continuam estáveis e que a especulação não está relacionada com o ciclone. 

A inflação dos preços dos produtos alimentares regista-se desde março no mercado grossista. No mercado central da cidade de Quelimane, por exemplo, há mais reclamações dos revendedores. Queixam-se que não há clientes por causa de subida excessiva dos preços dos produtos.

"As coisas todas subiram de uma única vez, não sabemos o problema que está a acontecer", conta o comerciante Betinho Pedro. "A cebola estava a 1500 e agora compramos a 8 mil, a batata estava a 5 mil, agora está a 7.500. Quando colocamos os preços a 70 meticais por quilograma, os clientes reclamam, dizem que estamos a roubar aos clientes. O alho estava a 1200, subiu para 2500 meticais. Queremos pedir ao Governo para olhar para esta situação, estamos a passar mal", apela.

Há tendências de especulação

A inspetora das atividades económicas na província central da Zambézia, Vera Godinho, em relação aos preços dos produtos básicos alimentares garante: "Tivemos sim no mês de abril oscilação de preço da cebola nacional, disparou até 100 meticais por quilo. Recentemente os preços oscilam entre 80 a 100 meticais o quilograma, digamos que os preços estão estáveis."

Mas ressalva, "embora haja alguns comerciantes com tendências de especulação, os nossos técnicos estão no terreno a controlar os principais mercados."

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MEDIATECA | 16.05.2019

Subida do preço dos alimentos é por causa do ciclone Idai?

Egídio Viagem, outro comerciante de Quelimane, admite que teve de aumentar o preço das batatas. "O preço ainda se mantém, está a 6.500 meticais um saco de 50 quilos de batata na venda, vendemos a 70 meticais e o dinheiro não sai, então vamos subir para 80 por quilo porque quando compramos a 6500 meticais e vendendo a 70 não dá lucro. A batata vem de Angonia, na província central de Tete, isso deve-se às cheias, para conseguir a batata lá não é fácil", explica.

A vendedora Amélia Filipe lamenta a subida de preços de produtos básicos alimentares na capital da província da Zambézia. "Nós aqui estamos a sofrer, os produtos estão mais elevados. Uma bacia de banana, está a mil meticais, batata esta sete mil, verdura 35 a 40 meticais, vou vender quanto? como é que vamos vender os produtos aos nossos clientes? Não estou a entender a situação daqui, se é Governo que está a fazer isso aqui, não houve ciclone, ciclone passou na Beira, aqui ninguém sofreu com ciclone", relatou à DW.

Ciclone não é o culpado, entendem autoridades

A inspetora Vera Godinho descarta também a hipótese de a provável especulação de preços de produtos alimentares na cidade de Quelimane ser um efeito do ciclone Idai, como dizem alguns comerciantes.

Vera Godinho, inspetora das atividades económicas na Zambézia

"Não vamos associar a especulação com o ciclone porque a ser assim teria acontecido logo em março e não agora em meados de maio. No olhamos nesse prisma porque mesmo nos pontos afetados pelo ciclone já estão a se erguer. O ponto mais fustigado pelo ciclone foi a cidade da Beira, estamos numa localização que nos permite receber mercadoria de outros pontos do país", justifica Vera Godinho.

Mas o consumidor Esmeraldo Custódio receia que os preços dos produtos alimentares fiquem mais caros nos próximos dias porque se avizinham as festividades de 1 de junho, dia Internacional da Criança.

"O quilo estava a 50, mas agora está a 60 meticais, a batata, a cebola, muita coisa subiu de preço e vão aumentar, não sabemos quando estivermos próximo das festas como as coisas vão estar", lamenta. 

Moçambique: Vítimas de ciclone tentam o regresso à normalidade após Idai

Rasto de destruição

Estima-se que mais de cinco dezenas de casas ficaram completamente destruídas pelas inundações dos rios Rovúbwe e Zambeze, na cidade de Tete. Foram mais 9 mil pessoas afetadas pelas cheias em toda província de Tete. Muitas das quais, foram desalojadas das suas casas.

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Ainda há casas inundadas

Há também muita água estagnada no interior de algumas casas. Muitos bens perdidos. Contabilizam-se também muitos prejuízos materiais.

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Limpeza das famílias

Várias famílias estão a regressar aos poucos às zonas de origem, mesmo que sejam consideradas de risco. No Bairro Chingodzi, unidade 03 de Fevereiro as poucas casas que resistiram à fúria das águas do rio Rovúbwe, ainda continuam cheias de lama. Os proprietários esforçam-se em limpezas. Em algumas casas a lama chegou a atingir um 1 metro de altura. Acabando por soterrar muitos bens.

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Regressar a casa mesmo que seja em zona de risco

Tatos Fernando, 29 anos de idade. Teve uma casa completamente alagada. Não desmoronou mas tem muitas fissuras. Agora está a construir uma nova casa. Reconhece que está numa zona de risco. Está disponível a abandonar a zona caso o município de Tete e o governo lhe dê um espaço numa zona segura.

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Muitas aulas perdidas

Nino Alferes – é um rapaz de 12 anos de idade. Hoje a sua grande preocupação é recuperar as aulas perdidas. Até porque sabe que não será nada fácil. “Perdi todos os meus livros e muita matéria está perdida”, diz Nino. A semelhança de Nino há muitas crianças que perderam tudo e estão a começar do zero.

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Medo de Crocodilos e Erosão

Francisco Martinho é um dos sobreviventes. Teve a sua casa alagada, mas resistiu. Tenta recuperar muitos documentos e livros que se molharam devido a invasão das águas. A sua casa corre sérios riscos de desabar devido a erosão sobre o rio Rovúbwe, mas também tem medo de crocodilos, “basta dar 18 horas toda família fica dentro da casa, porque de repente podem aparecer aqui crocodilos”, relatou.

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Centro de Reassentamento de Chimbonde

Neste momento, está a ser montado um centro de reassentamento, na região de Chimbonde, cerca de 15 Km do centro da cidade e Tete. No local já estão alojadas mais de 80 famílias. Foram igualmente demarcados mais de 140 talhões. Mas há ainda talhões por demarcar, segundo Richard Baulene. O outro centro será montado no bairro Mpádue.

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Garantidos serviços básicos em Chimbonde

No centro de reassentamento de Chimbonde, cada família recebe uma tenda, feita com lonas, fixadas em estacas, num talhão de 15/20 metros. No local estão garantidos alguns serviços básicos, como água, saneamento de meio, serviços sanitários e está para breve a eletrificação da zona.

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Chegam mais famílias no Chimbonde

Não obstante os desafios que lhes esperam pela frente de reiniciar a vida numa nova zona os reassentados de Chimbonde mostram-se felizes por considerar o local seguro. No centro, a DW ÁFRICA encontrou mais de 30 voluntários da Cruz Vermelha que estão ajudando na construção das tendas improvisadas para os reassentados.

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Famílias continuam abrigadas

Na cidade de Tete, mais de 600 famílias estiveram abrigadas no Centro de Acomodação da Escola Comercial e Industrial de Matundo. Em Tete foram montados 5 centros dos quais 3 nos distritos de Mutarara e Doa. Continuam abrigadas no centro da Escola Industrial de Matundo mais de 200 famílias, cerca de 1000 pessoas. Algumas famílias estão em tendas, mas outras dormem num salão multi-uso da escola.

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Erosão Pós-cheias

Jorge Mafalauzi, tem 30 anos de idade. É pai de 4 crianças. Sabe que tinha uma casa de 3 quartos. A água levou tudo. Pior ainda, agora não consegue chegar onde era sua casa, porque devido à erosão o lugar foi invadido pelo leito do rio Rovúbwe. Mafalauzi vive numa tenda oferecida pelo INGC, próximo da sua antiga casa, nas bermas do rio Rovúbwe e fala de falta de mais apoios do Instituto.