Novo líder interino do Sudão promete voltar ao governo civil

O General Abdel-Fattah Burhan é o segundo oficial militar a tomar posse como líder do Sudão, depois da deposição de Omar al-Bashir num golpe de Estado. Manifestantes acusam os militares de "roubar a revolução".

Horas depois que o general Awad Ibn Ouf deixou o cargo de governante militar do Sudão, o general Abdel-Fattah Burhan, que é amplamente desconhecido fora do círculo militar, tornou-se chefe do Conselho Militar de Transição que depôs o antigo Presidente Omar al-Bashir na quinta-feira (11.04).

Ibn Ouf, que está sob sanções dos Estados Unidos por apoiar milícias genocidas na região de Darfur, esteve sob pressão internacional para estabelecer um governo de transição civil.

"Burhan é um oficial de alta patente dentro das forças armadas, mas basicamente é um soldado veterano", disse um oficial do exército sob condição de anonimato.

Na quinta-feira, o exército sudanês removeu o Presidente al-Bashir em um golpe, após meses de protestos populares contra suas três décadas de governo. Desde meados de dezembro, os manifestantes têm se insurgido contra a triplicação dos preços do pão e uma crise económica que levou à escassez de bens básicos.

Salah Ghosh, chefe do Serviço Nacional de Inteligência e Segurança do Sudão (NISS), também deixou o cargo, os novos governantes militares do país confirmaram este sábado (13.04).

"O chefe do Conselho Militar de Transição, Abdel-Fattah Burhan, aceitou a demissão do chefe do NISS", declarou o órgão.

Abdel-Fattah Burhan

"Desenraizar" o antigo regime

Em seu primeiro discurso dirigido à nação transmitido pela televisão estatal este sábado, o líder interino anunciou que estava levantando o toque de recolher em todo o país, acrescentando que todos os presos políticos seriam libertados. Burhan disse ainda que um governo civil logo seria estabelecido no Sudão e prometeu "desenraizar" o antigo regime sudanês.

"Anuncio a reestruturação das instituições estatais de acordo com a lei e prometo lutar contra a corrupção e desenraizar o regime e seus símbolos", declarou o general Burhan.

O general Burhan acrescentou que todos os envolvidos no assassinato de manifestantes enfrentariam a justiça.

"Não é golpe“

No início da sexta-feira (12.04), o Conselho Militar informou que não tinha "ambições" de governar permanentemente o país da África Oriental.

Segundo o tenente-general Omar Zein Abedeen, chefe do comitê político do conselho, "o papel do Conselho Militar é proteger a segurança e a estabilidade do país. Isto não é um golpe militar, mas tomar o partido do povo".

A Associação de Profissionais do Sudão, um dos grupos que lideram os protestos, disse que a renúncia de Ibn Ouf foi "uma vitória da vontade do povo". A associação prometeu continuar seus comícios a menos que Burhan concordasse em "transferir os poderes do Conselho Militar para um governo civil de transição".

Omar al-Bashir

Remoção de Al-Bashir

Na sequência dos protestos populares, os militares sudaneses retiraram do poder, na quinta-feira (11.04), o antigo governante Omar al-Bashir, num movimento amplamente considerado como um golpe de Estado.

O que começou como protestos contra o aumento dos preços dos alimentos rapidamente se transformou em um desafio sustentado contra o governo de 30 anos de al-Bashir. Os protestos ganharam impulso na semana passada, quando o presidente argelino Abdelaziz Bouteflika renunciou após protestos contra suas duas décadas no poder.

Apesar do júbilo imediato em torno da queda de al-Bashir, a intervenção militar corre o risco de substituir uma ditadura por outra, frustrando as esperanças dos manifestantes por um governo civil e abrindo caminho para mais instabilidade.

Neste sábado, milhares de sudaneses protestaram em frente à sede militar em Cartum. Juraram permanecer nas ruas até que um governo civil chegue ao poder.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Do golpe de Estado até hoje

Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 75 anos, assumiu a Presidência da Guiné Equatorial em 1979, ainda antes de José Eduardo dos Santos. Teodoro Obiang Nguema derrubou o seu tio do poder: Francisco Macías Nguema foi executado em setembro de 1979. A Guiné Equatorial é um dos países mais ricos de África devido às receitas do petróleo e do gás, mas a maioria dos cidadãos não beneficia dessa riqueza.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

O Presidente que adora luxo

Paul Biya é chefe de Estado dos Camarões há 34 anos. Muitos dos camaroneses que falam inglês sentem-se excluídos pelo francófono Biya. E o Presidente também tem sido alvo de críticas pelas despesas que faz. Durante as férias, terá pago alegadamente 25 mil euros por dia pelo aluguer de uma vivenda. Na foto, está acompanhado da mulher Chantal Biya.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Quase na reforma

Yoweri Museveni já foi confirmado seis vezes como Presidente do Uganda. Nas eleições de 2021, o chefe de Estado de 72 anos não se poderá recandidatar – os candidatos não podem ser mais velhos do que 75 anos. Filho de pastores, teve uma carreira meteórica. Licenciou-se, tornou-se coronel e assumiu a dianteira política. No seu mandato, foram acrescentados direitos fundamentais na Constituição.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Procurado por genocídio

Omar al-Bashir é Presidente do Sudão desde 1993. Chegou ao poder em 1989 depois de um golpe de Estado sangrento. O Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, emitiu em 2009 um mandado de captura contra al-Bashir por alegada implicação em crimes de genocídio e de guerra no Darfur. Estima-se que mais de 300 mil pessoas foram mortas desde o início do conflito.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

"O Leão da Suazilândia"

Mswati III é o último governante absolutista de África. Há 31 anos que dirige o reino da Suazilândia. Acredita-se que tem 210 irmãos; o seu pai teve 70 mulheres. A tradição da poligamia continua a cumprir-se neste reinado - até 2013, Mswati III teve quinze esposas. A polícia costuma reprimir os protestos no reino.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

O sultão acima de tudo

Há quase cinco décadas que o sultão Haji Hassanal Bolkiah é chefe de Estado e Governo e ministro dos Negócios Estrangeiros, do Comércio, das Finanças e da Defesa do Brunei. Há mais de 600 anos que a política do país é dirigida por sultões. Hassanal Bolkiah, de 71 anos, pondera introduzir o apedrejamento para punir a infidelidade ou o corte da mão para castigar ladrões.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Nas pegadas reais

Ao contrário de outros monarcas europeus, Hans-Adam II (esq.) não é apenas príncipe: é também chefe de Estado do Liechtenstein. Assumiu do pai o "negócio de família" em 1989 e, em 2004, nomeou o filho Aloísio (dir.) como seu representante, embora continue a chefiar o país.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

De pastor a parceiro do Ocidente

Idriss Déby tornou-se Presidente do Chade em 1990. Filho de pastores, Déby formou-se em França como piloto de combate. Após várias guerras civis e tentativas de golpes de Estado, o país estabilizou politicamente em 2008. Déby tornou-se, entretanto, um parceiro do Ocidente na luta contra o extremismo islâmico na região do Sahel.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

Fã de si próprio

Robert Mugabe chegou a ser o mais velho chefe de Estado do mundo (com uma idade de 93 anos). O Presidente do Zimbabué esteve quase 30 anos na Presidência do país. Antes foi o primeiro-ministro. Naquela época, aconteceram vários massacres que vitimaram milhares de pessoas. Também foi criticado por alegada corrupção. Após um levantamento militar, renunciou à Presidência em 21 de novembro de 2017.

Os chefes de Estado há mais tempo no poder

O adeus

José Eduardo dos Santos foi, durante 38 anos, chefe de Estado de Angola. Mas não se recandidatou nas eleições de 2017. Há anos que circulam rumores de que estará doente. A guerra civil terminou em 2002 durante o seu mandato. Muito melhorou desde então, mas grande parte da população continua a viver na pobreza e protestos de ativistas a pedir melhores condições de vida têm sido reprimidos.