Pacientes do Hospital do Lubango obrigados a consumir comida cara da instituição

Pacientes do Hospital Geral do Lubango, Angola, dizem que não têm escolha: ou compram refeições no hospital, ou não comem. Acusam o hospital de não os autorizarem a consumir alimentos confecionados fora do hospital.

Augusto Narciso fraturou a perna direita num acidente de motorizada e está há mais de duas semanas internado no Hospital Geral do Lubango, no sul de Angola. Mas Augusto só está autorizado a comer as refeições vendidas pelo hospital. Cada refeição custa dois mil kwanzas, o equivalente a 11 euros, a mais cara. Se ele quiser comprar comida mais barata fora do hospital, não pode:

Augusto Narciso fraturou a perna direita num acidente de motorizada e está há mais de duas semanas no Hospital Geral do Lubango, província da Huíla, sul de Angola. Mas Augusto só está autorizado a comer as refeições vendidas no hospital. Cada refeição custa dois mil kwanzas, o equivalente a 11 euros, a mais cara.

Patient in Lubango Krankenshaus
in Angola

Paciente do Hospital Geral do Lubango

Se ele quiser comprar comida mais barata fora do hospital, não pode: "Isto é absurdo! A minha comida está proibida de entrar aqui. Se eu tiver dinheiro para ir comprar aí em baixo no restaurante eles aceitam. E só pegar a tigela entregar e dinheiro que compram aí. Se eu quiser um sumo eles aceitam. Mas se eu pedir para irem comprar lá fora não aceitam. Assim estamos a viver como?"

Cada refeição que Augusto compra é apontada numa lista do restaurante no hospital. No dia em que tiver alta, antes de sair, o paciente terá de pagar a conta.

Maria dos Santos Ndavipwa terá de fazer o mesmo. Ela foi sujeita a uma operação cirúrgica há dias e está agora na fase de recuperação. E ela lamenta: "Custa viver. Vou fazer como? A pessoa vai recuperar como assim? Não dá." Maria diz que prefere ir para casa e fazer tratamento ambulatório, para não ter de gastar tanto dinheiro no restaurante do hospital.

Críticas ao Governo

No Lubango, o padre Jacinto Pio Wacussanga critica esta prática, classificando-a como um ato desumano: ¨Eu não sei quem aconselha os governantes a procederem desta maneira. Trata-se de um ato de completa desumanidade, não tem explicação; é um absurdo para uma República que se considera um Estado Democrático e de Direito ¨

A DW África tentou ouvir os responsáveis do Hospital Central do Lubango e as autoridades de saúde da província da Huíla, mas ninguém se mostrou disponível para falar.

O paciente Lourenço Gouveia apela ao Governo para mudar a situação no hospital: ¨Estamos a ver que o Governo não repara nisso, o que nos põe em pânico pois somos cidadãos angolanos e merecemos direitos iguais. Estamos a ver que somos atirados a sorte do diabo e assim não temos saída¨.

 

20 anos de ajuda a crianças doentes

Já passaram duas décadas desde que a Friedensdorf International começou a viajar até Luanda para recolher crianças doentes para tratamento médico na Alemanha e levar de volta outras já recuperadas. Desde a sua criação, há 47 anos, a organização não-governamental já ajudou crianças doentes de mais de 50 países, incluindo cerca de 3 mil crianças angolanas. Este mês está em curso a 56ª ação de ajuda.

Ritmos angolanos na despedida

Kuduro e outras danças angolanas são uma constante na festa de despedida que a Friedensdorf organiza na sua sede em Oberhausen, no centro-leste da Alemanha, antes da partida para Angola das crianças já recuperadas. Depois de várias operações e tratamentos, as crianças estão ansiosas por voltar à terra natal e rever a família. Mas os amigos que fizeram na Alemanha também vão deixar saudades.

Experiência única

Para casa as crianças levam também uma experiência única, afirma Hannah Lohmann, porta-voz da Friedensdorf. “Neste momento, temos connosco meninos e meninas de nove países. São cristãos e muçulmanos, brancos e negros, africanos e asiáticos. Em comum têm o facto de todos terem vindo para a Alemanha para se curarem e isso cria uma ligação entre eles, que ultrapassa fronteiras e idiomas”, explica.

Regresso azul

Quando regressa, cada criança recebe um saco azul de desporto, onde, além de roupa e medicamentos, cabem pequenos presentes que elas mesmas fizeram para a família e lembranças da estadia na Alemanha – brinquedos em madeira ou saquinhos de pano feitos à mão, por exemplo. Partem do Aeroporto de Düsseldorf, num avião fretado pela Friedensdorf. A bordo segue uma equipa da ONG, que inclui um médico.

Luanda à vista

Depois de quase dez horas de voo, o avião aterra finalmente na capital angolana. À espera no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda, costumam estar dois membros da ONG alemã, que viajam mais cedo para o país para tratar das formalidades da nova leva de doentes, e uma equipa da organização parceira angolana Kimbo Liombembwa, versão kimbundu da "Aldeia da Paz".

Reencontro familiar

Do aeroporto as crianças que regressam da Alemanha seguem depois para a sede da Kimbo Liombembwa, um pequeno espaço situado no Hospital Pediátrico Dr. David Bernardino. É aqui que são oficialmente entregues aos pais, que voltam a abraçar os filhos depois de vários meses de ausência. A separação não é fácil, mas os resultados compensam, reconhecem muitos pais.

Perda de Rosalino Neto

A Friedensdorf e a Kimbo Liombembwa lamentam a perda do médico Rosalino Neto, que dirigia a organização parceira. O fundador da Ordem dos Médicos de Angola morreu em junho passado, aos 63 anos, vítima de doença prolongada. Acompanhou as operações de ajuda desde o início e esteve várias vezes na Alemanha. As primeiras crianças chegaram à Alemanha em 1994, durante a guerra civil que durou 27 anos.

Últimas recomendações

No dia da entrega das crianças aos pais, a equipa da Friedensdorf faz sempre um resumo dos tratamentos médicos realizados e deixa também uma série de recomendações. Muitas vezes é preciso continuar os exercícios de fisioterapia em casa ou trocar os sapatos ortopédicos quando estes deixarem de servir. Durante muitos anos, o médico Rosalino Neto traduziu as explicações da ONG aos pais.

Alemanha, a última esperança

A Alemanha é a última esperança para muitos angolanos. O conflito no país terminou há 12 anos, mas a colaboração continua. Se antes se tratavam ferimentos causados pela guerra, hoje as doenças são causadas pela pobreza. A mortalidade infantil é uma das mais altas do mundo e metade da população vive abaixo do limiar da pobreza. O crescimento económico e os petrodólares não se refletem na saúde.

Diagnósticos problemáticos

Os problemas de saúde das crianças são de vários tipos: infeções ósseas, malformações congénitas, queimaduras graves, luxações, fraturas expostas, subnutrição. Algumas sofreram acidentes e não foram devidamente tratadas na altura. E os pequenos corpos escondem também outros problemas não visíveis. Diagnósticos precisos sobre o seu estado de saúde também são um problema, segundo a Friedensdorf.

Kimbo Liombembwa

Criada há 13 anos, a organização parceira angolana tem equipas de voluntários por todo o país para identificar crianças com doenças que não podem ser tratadas localmente. Já foram beneficiadas cerca de três mil crianças de várias regiões de Angola. A viagem das províncias até Luanda chega a durar três dias. Para as ações de ajuda a “Aldeia da Paz” conta também com o apoio da Embaixada da Alemanha.

Comunicação sem fronteiras

A maior parte das crianças não sabe falar alemão, mas a comunicação não é um problema. "Sabemos algumas palavras em português, como 'tá fixe'. E quando querem ir à casa de banho, xixi todos entendem!", explica a porta-voz da Friedensdorf. Além disso, as crianças comunicam por sinais. A bordo costumam também seguir crianças que viajam para a Alemanha pela segunda vez e que servem de tradutoras.

Ciclo da ajuda continua

No Aeroporto de Luanda, dois autocarros transportam as crianças até ao avião. Durante a viagem, redobram-se os cuidados com os novos pacientes. Quando chegam à Alemanha, os casos mais graves são imediatamente encaminhados para os hospitais. As restantes crianças seguem para a Friedensdorf, em Oberhausen. O ciclo da ajuda não fica por aqui. A próxima viagem já está agendada para maio de 2015.

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