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Conflitos no Ocidente causam mais indignação e comoção?

8 de março de 2022

É uma questão frequentemente levantada pelos africanos face à gigantesca visibilidade da guerra na Ucrânia na media ocidental. Há quem fale em discriminação, mas também há quem reconheça o engajamento ocidental na causa.

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Foto: OGNEN TEOFILOVSKI/REUTERS

Bandeira da Ucrânia em perfis na redes sociais, cidades iluminadas com as cores da bandeira ucraniana, incontáveis campanhas de angariação de fundos para apoiar ucranianos e protestos diários contra a guerra dominam o mundo ocidental desde que a Rússia iniciou os ataques contra a Ucrânia, a 24 de fevereiro. Uma onda de indignação, comoção e solidariedade que não se assiste quando as guerras são em África, continente permanentemente mergulhado em conflitos.

Esta é uma observação generalizada entre os africanos, que os leva a questionar, por exemplo, se a vida do ocidental vale mais do que a sua.

Ilídio Tale é um jovem empresário moçambicano e entende que "não é que a vida do ocidental possa valer mais do que a do africano ou asiático", mas as pessoas ficam "mais conformadas em ver guerras noutros cantos do mundo, e nunca seria possível ver uma guerra nesta dimensão e que já dura há vários dias, e já não sabemos qual será o futuro da Europa."

As denúncias de racismo pelos africanos na Ucrânia na luta para abandonar o país vieram inflar ainda mais o sentimento de revolta dos africanos. Ilídio Tale considera que "pode também parecer discriminação em relação aos outros pelo tratamento que está a ser dado aos refugiados [africanos]. A forma como a media está a reportar os factos pode mostrar que há discriminação entre um refugiado da Etiópia e outro da Ucrânia."

Symbolbild Äthiopien Tigray-Krise | Ausnahmezustand
A Etiópia vive uma guerra na região do Tigray desde novembro de 2020. Desde então, os relatos de atrocidades não cessamFoto: Eduardo Soteras/AFP

O Ocidente é mais engajado nas suas lutas?

No Ocidente, o cidadão tem maior acesso a um conhecimento instituído, aos meios de comunicação, às redes sociais, e principalmente possui uma destacada consciência sobre os seus direitos. Essa comoção terá a ver com a sua capacidade de engajamento e mobilização daí resultante?

Leopoldo Timana, jovem arquiteto moçambicano, responde: "Acho que sim, que tem a ver com essa maior capacidade de engajamento e mobilização do Ocidente, porque tem meios e várias formas de criar um impacto global".

"Nesse aspeto, nós [africanos] estamos em desvantagem, não teríamos a mesma capacidade. As guerras aqui acontecem desde que a gente se conhece, e não tem esse mediatismo que a guerra das Ucrânia está a ter", sublinha.

Media ocidental "controla todo o fluxo de informação"

Uma media poderosa e forte contribui grandemente para a exposição do conflito e respetivas reações no mundo ocidental, facto que também é duramente criticado pelos africanos, que acusam a imprensa ocidental de falta de imparcialidade e de manipulação.

Tale entende lembra que "a grande media é dominada pelo Ocidente" e conta: "Estamos a assistir agora à DSTV, por exemplo, a cortar o canal da RT, o feed foi cortado na Europa. O Ocidente, de facto, controla todo o fluxo de informação em todo o mundo porque tem uma media mais pujante, que sabe como deve se manifestar perante as guerras para fazer o engajamento que pretende, para que se entenda a guerra da forma que ele quer."

A União Europeia justifica que cortou o canal RT por ser um instrumento de "desinformação" de Moscovo.

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Ameaça nuclear responsável pelo destaque da guerra?

Outro fator que diferencia a guerra da Ucrânia de outras guerras é a ameaça nuclear que ela representa para os vizinhos europeus e também para o mundo, o que representa uma clara preocupação para as lideranças ocidentais.

Será esse outro dado o responsável pela gigantesca visibilidade que a guerra ucraniana tem?

O jovem jurista moçambicano Cremildo Chemane descarta essa hipótese: "Não vou muito por aí, não acho que seja o ponto principal para isso [guerra], porque já se fala em armas nucleares há bastante tempo e não existe o que está a acontecer nessa guerra na Ucrânia".

Chemane lembra que "já houve ameaças da Coreia do Norte, mas não houve tanta visibilidade como nesta guerra da Ucrânia".

"No meu ponto de vista, é por se tratar de um país europeu, eles sempre acharam que isso não poderia acontecer na Europa. Infelizmente, está a acontecer e acho que a Europa deve se unir e entrar em negociações. Só assim se pode parar a guerra."

O empresário Ilídio Tale recorda que, depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa conseguiu estabilizar-se, com menos conflitos, apesar do espectro da Guerra Fria, e, por isso, a guerra ucraniana apanhou de surpresa os europeus, facto que causa indignação, principalmente à nova geração.

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Nádia Issufo
Nádia Issufo Jornalista da DW África
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