Presidente do Mali pede à Europa que cumpra promessas financeiras

Em entrevista à DW, chefe de Estado do Mali pede mais apoio para a segurança no Sahel. De visita à Alemanha, Ibrahim Boubacar Keita elogia esforços de Berlim para ajudar o país a enfrentar desafios da reforma do Estado.

O Presidente do Mali está desde quinta-feira (07.02) em visita oficial à Alemanha. Ibrahim Boubacar Keita foi recebido esta sexta-feira (08.02), em Berlim, pela chanceler alemã, Angela Merkel.

Em entrevista exclusiva à DW, o chefe de Estado assegura que a implementação do acordo de paz assinado entre o Governo e os grupos armados, em 2015, "não está a demorar". Cerca de cinco mil combatentes, incluindo supostos jihadistas, já estão inscritos no processo de desarmamento lançado no centro do país.

Ibrahim Boubacar Keita também pede à comunidade internacional para desbloquear finalmente os 423 milhões de euros prometidos para financiar a força militar conjunta G5 do Sahel, o grupo que combate o terrorismo jihadista na região e que, além do Mali, é composto pelo Burkina Faso, Mauritânia, Níger e Chade.

G5 combate o terrorismo jihadista na região do Sahel

DW: Está em Berlim para aprofundar as relações entre o Mali e a Alemanha. Os dois países estão ligados há muito tempo: a Alemanha foi o primeiro país a reconhecer a independência do Mali, em 1960. O que espera desta visita?

Ibrahim Boubacar Keita (IBK): Antes de mais, gostaria de agradecer à senhora Merkel, que me convidou para vir a Berlim, para podermos trocar pontos de vista sobre a atual cooperação e avaliar em conjunto as áreas em que poderemos aumentar essa cooperação. Um ponto-chave, como mencionou, é que a Alemanha foi o primeiro país a reconhecer aindependência do Mali, algo que significa muito para nós. E atualmente a nossa cooperação é cada vez mais forte.

DW: Que novas ideias de cooperação vai propor à chanceler Angela Merkel?

IBK: Em primeiro lugar, gostaria de discutir com ela em que ponto se encontra a nossa cooperação, que diz respeito a questões de governança democrática e de apoio institucional. Por exemplo, a Alemanha ajudou-nos a criar um centro de formação para as autoridades locais [no processo de descentralização da administração]. Isso é muito importante para nós. Esta descentralização deve existir realmente e deve ser adaptada à população, ao seu quotidiano e às suas necessidades. A Alemanha ajudou-nos nesse processo. O Mali é um país que enfrenta muitos desafios em termos de segurança - estamos no meio do Sahel. E a Alemanha também nos apoia nesse capítulo.

Dirke Köpp e Eric Topona entrevistaram Ibrahim Boubacar Keita em Berlim

DW: Em 2015, foi assinado um acordo de paz entre o Governo e os grupos armados. Mas parte da opinião pública mostra-se impaciente, não apenas no Mali, mas também na Alemanha, porque está a demorar muito tempo a implementar esse acordo. O que está a bloquear essa implementação?

IBK: A implementação do acordonão está a demorar, apesar de por vezes existir essa impressão. É óbvio que o Governo maliano está a fazer grandes esforços e a trabalhar diariamente para fazer avançar o tratado de paz. A nível institucional, criamos novas regiões que estão a funcionar há cerca de um ano e meio. Há também outras iniciativas em curso para que o processo possa avançar rapidamente. Depois de uma crise como esta, com grupos armados a atacar o Governo, é necessário ter paz e estabilidade sustentáveis.

Portanto, decidimos desarmar os rebeldes. Mas quando há desarmamento, também é preciso oferecer perspetivas de desmobilização, desarmamento e reintegração. Como a implementação do processo de desmobilização, desarmamento e reintegração é muito demorado, decidimos desenvolver um conceito para acelerá-lo. Graças a este novo sistema, 1.500 homens já foram desmobilizados e desarmados e estão atualmente a ser integrados. Em breve esperamos chegar aos 5.000 e, por fim, aos 20.000. O processo não está a demorar muito. Está a avançar consoante as nossas condições - financeiras, por exemplo. Porque tem havido muitas conferências de doadores, mas há uma diferença entre as ajudas financeiras que foram anunciadas e o que chegou às nossas contas. Mas, apesar desta situação difícil e da falta de dinheiro, a economia do Mali está a fazer bons progressos.

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MEDIATECA | 11.04.2018

Migrantes malianos regressam da Líbia

DW: Os países que fazem parte do G5 do Sahel - Mali, Burkina Faso, Chade, Níger e Mauritânia - encontraram-se esta semana. Mas continua a faltar o dinheiro prometido a esta força militar conjunta. O que sugere para que a situação do G5 possa melhorar?

IBK: Costumo recorrer à imagem de uma barragem [quando falo do Sahel]. Se rebentar, as aldeias serão inundadas.Muitos terroristas que estão a ser combatidos por forças internacionais na África Oriental estão a fugir para o Sahel. E a situação anárquica na Líbia favorece esse cenário. Se um dia a barragem do Sahel rebentar, vai chegar à Europa. Portanto, também temos uma missão universal. E não compreendo por que motivo a boa vontade demonstrada inicialmente não se concretizou ainda. São cerca de 423 milhões de euros. Não é uma soma astronómica! Ainda assim, ainda não chegou. É uma pena.

DW: Mas os cinco países envolvidos ainda não enviaram o número total de soldados prometidos para a missão do G5 do Sahel.

IBK: Em termos de recursos humanos e financeiros, é um grande esforço para os nossos países, que têm poucos recursos internos. O Mali, por exemplo, investe 22% das receitas do Estado em segurança e defesa. É muito. Era melhor investir esse dinheiro na educação, na saúde, em infraestruturas, na agricultura. Se não tivéssemos começado o G5, era o que faríamos hoje.

Estado Islâmico destrói Património Mundial

Antes e depois dos radicais

Resta pouco da antiga cidade-oásis de Palmira, Património da Humanidade: as termas, as avenidas de colunas e os templos majestosos foram destruídos. Em 2015, os extremistas do Estado Islâmico deitaram abaixo o templo de Baal. O fotógrafo libanês Joseph Eid mostra uma fotografia de 2014 em frente às ruínas - as imagens de Eid estão em exposição no Museu Kestner, em Hanover, no norte da Alemanha.

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Destroços por todo o lado

Outras zonas de Palmira também foram destruídas pelos radicais do Estado Islâmico, que saquearam a cidade. Estas fotografias foram tiradas em março de 2016. Por enquanto, ainda não se fala em reconstruir Palmira.

Estado Islâmico destrói Património Mundial

Militares protegem Palmira

As tropas governamentais sírias reconquistaram Palmira. E, diariamente, desde março de 2017, militares patrulham as ruínas da cidade contra novos ataques dos radicais do Estado Islâmico. A imagem mostra os destroços do antigo Arco do Triunfo, que foi destruído quase por completo.

Estado Islâmico destrói Património Mundial

Tombuctu, no Mali

Estes minaretes de argila, típicos do Mali, foram destruídos pelos extremistas do Estado Islâmico em 2012. Entretanto, foram reconstruídos à imagem dos antigos edifícios históricos. O Tribunal Penal Internacional, em Haia, instaurou um processo contra um extremista devido à destruição do Património Mundial.

Estado Islâmico destrói Património Mundial

Mar Elian, na Síria

O antigo mosteiro de Mar Elian, construído por cristãos a sudeste da cidade de Homs, foi em tempos um edifício magnífico, reconhecido pela UNESCO como Património da Humanidade. Mas militantes do Estado Islâmico também destruíram o mosteiro.

Estado Islâmico destrói Património Mundial

Destruição e propaganda

Não é possível verificar integralmente a autenticidade desta cena. Esta é uma imagem retirada de um vídeo propagandístico do Estado Islâmico, que mostra alegadamente os muros do mosteiro de Mar Elian a serem destruídos por bulldozers. Entretanto, militares sírios reconquistaram a cidade de al-Qaryatain e o mosteiro deverá ser reconstruído.

Estado Islâmico destrói Património Mundial

Hatra, no Iraque

No início de 2015, extremistas do Estado Islâmico também destruíram algumas zonas da antiga cidade de Hatra, ex-capital do primeiro reino árabe - a fotografia mostra a cidade antes do ataque. Também foram destruídas estátuas milenares da época dos assírios em Mosul, no norte do Iraque, e na antiga cidade de Nínive. A cidade histórica de Nimrud terá sido demolida com bulldozers.

Estado Islâmico destrói Património Mundial

Bamiyan-Tal, destruída pelos talibãs

Em 2001, os talibãs, do Afeganistão, destruíram estátuas do Buda de Bamiyan, que foram esculpidas em arenito vermelho no século VI. Só ficaram as covas onde elas estavam. Agora, as estátuas de 50 metros estão a ser reconstruídas com impressoras 3D.

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