Professores em greve por tempo indeterminado em Xai-Xai

A paralisação dos professores na cidade moçambicana de Xai-Xai começou na semana passada. Em causa está o não pagamento de horas extraordinárias, que se arrasta desde 2015. Greve pode afetar milhares de alunos em Gaza.

Há mais de 7.200 professores que não receberam horas extraordinárias em toda a província de Gaza. A greve tende a alastrar-se pelos distritos e poderá afetar o aproveitamento de milhares de alunos, alguns dos quais com exames finais já a partir de novembro.

Ainda assim, persiste o braço-de-ferro entre professores e o governo provincial. E os docentes em greve já avisaram que não vão retomar as aulas enquanto não for liquidada a dívida. "Se não se pagar o dinheiro, não estou disponível para dar aulas", diz Azarias Mondlane, professor na cidade de Xai-Xai. "Depois deste ar quente arrefecer, não queremos uma onda de perseguição", apela ainda o docente.

Indignado está também João Matsinhe, outro professor que, em sinal de protesto, não se apresenta na escola para dar aulas desde a semana passada. "Estou certo que vou para o cemitério sem receber esse dinheiro", afirma o docente, lamentando que a crise em Moçambique afete sobretudo os professores. "Se é crise, vamos sofrer todos", sublinha.

Milhões de meticais em dívida

O Governo provincial deve aos professores 131 milhões de meticais (equivalente a mais de dois milhões de dólares). Em causa estão horas extraordinárias e segundos turnos referentes ao triénio 2015/16 e 2017.

Educação | 08.09.2017

A diretora provincial de Economia e Finanças,  Romana Baulana, não revela até quando estará disponível o dinheiro. Apenas garante que a programação financeira está feita no e-SISTAFE, a plataforma informática através da qual o Estado procede ao pagamento dos salários.

Com a crise económica e financeira, justifica Romana Baulana, a direcção provincial está dependente dos recursos internos, "que entram na medida do possível", explica. "O Tesouro vai desembolsando à medida que vai tendo os recursos. Por isso, não posso dizer que amanhã o Tesouro vai tirar todo o dinheiro", acrescenta.

Segundo a diretora provincial de Economia e Finanças, os recorrentes atrasos no pagamento devem-se, em parte, à existência de professores "fantasma" . Por causa do elevado número de professores com horas extraordinárias, o governo provincial mandou verificar nas escolas os beneficiários legítimos e apurou que houve um processamento indevido de horas que iria lesar o Estado em 11 milhões de meticais.

A governadora de Gaza, Stella Pinto Novo Zeca, reagiu à greve, afirmando que "nada justifica" paralisar as aulas. "Existe um estatuto dos funcionários e agentes do Estado e eles poderão ser responsabilizados por isso", avisa. "Os principais prejudicados são as crianças e essas crianças são primos, filhos, são parentes nossos", lembra a governadora.

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Infância perdida

Nas paredes desta escola corânica, no Senegal, rabiscos contornam figuras de bonecos e estrelas. Aqui, as fantasias de criança convivem com uma realidade amarga. Meninos conhecidos como talibés são separados da família para aprender o Corão.

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Sem portas nem janelas

Afastada do centro da cidade de Rufisque, no oeste do Senegal, fica esta estrutura abandonada, sem portas nem janelas. Esta madrassa, como é chamada a escola corânica, abriga cerca de 20 crianças entre três e 15 anos de idade. A falta de infraestrutura torna a rotina dos talibés ainda mais penosa.

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Desprotegidos

Este é um dos quartos onde os talibés dormem. Não há camas, nem cobertores. E também faltam travesseiros. Os meninos deitam-se sobre sacos plásticos, no chão de areia. Nos dias frios, a maioria fica doente e não recebe tratamento médico adequado.

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Aulas sobre o Corão

As crianças são entregues pelos pais aos marabus – poderosos líderes religiosos do país – para terem aulas sobre o Corão. Os professores têm uma reputação social elevada e é a eles que muitas famílias pobres do Senegal e da vizinha Guiné-Bissau confiam a educação dos filhos.

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Entre livros

Tábuas com palavras em árabe e exemplares do livro sagrado estão espalhados pela madrassa. Os talibés acordam diariamente por volta das cinco da manhã para aprender o Corão. Em coro, recitam repetidamente trechos do livro sagrado.

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Mendigos

Depois das orações, os meninos são obrigados a pedir dinheiro nas ruas e a conseguir algo para comer. Cada professor estipula uma quantia diária. Se os meninos não conseguem cumprir, são espancados. "Tínhamos de levar dinheiro para sustentar o marabu e a sua família, porque ele vivia disso. Eu sofri muito. Uma vez fui espancado porque cheguei atrasado", conta o ex-talibé Soibou Sall.

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Amigos de rua

Os talibés vestem-se com roupas velhas e rasgadas e a maioria anda descalça. Chegam a mendigar sete horas por dia pelas ruas de Rufisque. Eles também pedem esmolas perto da estrada que liga a cidade à capital, Dakar. Curiosos, estes dois amigos aproximam-se e pedem para ser fotografados. E sorriem, apesar da rotina dolorosa.

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Hora da refeição

Sentados no chão de areia, os talibés juntam-se para comer o que conseguiram nas ruas. Hoje têm arroz, vegetais e alguns pedaços de frango para dividir. Há restos de comida espalhados pelo plástico preto. "Gosto de viver aqui. Eu tenho paz", diz Aliou, de 8 anos.

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Condições degradantes

Nesse espaço comum fica uma espécie de casa-de-banho e há muito lixo no chão. Os meninos andam descalços sobre objetos cortantes. Há chinelos e roupas velhas por toda a parte. Os meninos são constantemente vigiados por adolescentes que foram talibés na infância e auxiliam os professores. Agressões são constantes.

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Exploração

As escolas alcorânicas surgiram nas zonas rurais do Senegal. Os meninos trabalhavam na lavoura e tinham aulas sobre o Alcorão. Com as constantes secas, os marabus foram forçados a aproximar-se das grandes cidades, como Dakar. Com dificuldades financeiras para sustentar todas as crianças, o incentivo à mendicância infantil tornou-se uma atividade rentável.

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Sem os pais

Por chegarem muito pequenos às daaras, muitos meninos desconhecem o motivo de terem saído da casa dos pais. Bala, de 11 anos, não vê a mãe há sete anos. "A minha mãe está viva e tenho saudades dela. Estou aqui em Rufisque desde muito pequenino. Depois da escola, eu vou pedir dinheiro", diz. "Preferia viver com os meus pais."

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