Todos querem mudanças em Angola

"Mudança" é a palavra mais repetida nas redes sociais a propósito das eleições. Partidos e eleitores dizem que país não pode continuar como está. Já há ao menos uma alteração: José Eduardo dos Santos não se recandidata.

"O povo quer mudança", escreveu um estudante angolano no Twitter a poucos dias das eleições gerais em Angola. Não é o único a dizê-lo. A palavra "mudança" repete-se em comentários sem conta nas redes sociais e parece ser o tónico que revigora os discursos eleitorais após 42 anos de governação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Política | 14.08.2017

O cabeça-de-lista do partido no poder, João Lourenço, é dos primeiros a auto-proclamar-se como agente da mudança. Estas são as primeiras eleições sem José Eduardo dos Santos na corrida à Presidência da República, e Lourenço garante que, se for eleito, as coisas vão mudar: "O MPLA é o único, das seis formações políticas concorrentes às eleições gerais, que, efetivamente, está a fazer a mudança", afirmou o candidato, também apelidado na internet de "JLo". O MPLA promete "corrigir o que está mal", incluindo a corrupção endémica e a "má aplicação dos recursos públicos".

Mas a oposição duvida das promessas de João Lourenço e reclama para si a bandeira da mudança. Isaías Samakuva, o líder da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), apelou durante a campanha eleitoral a uma mudança no Executivo angolano "sem revanchismos": "Vamos mudar. Também aquele que é do MPLA está a sofrer. A água que você não tem, ele também não tem. A eletricidade que não chega ao seu bairro, também não chega a ele."

No Twitter, a Convergência Ampla de Salvação de Angola - Coligação Eleitoral (CASA-CE) é a formação política que mais apregoa a #Mudancaem2017. A CASA-CE usa o termo no slogan de campanha e o seu cabeça-de-lista, Abel Chivukuvuku, já foi inclusive denominado como "furacão da mudança".

Outros partidos afinam pelo mesmo diapasão: o Partido de Renovação Social (PRS) prometeu, por exemplo, "recuperar a esperança e devolver a dignidade" aos angolanos; a Aliança Patriótica Nacional (APN) lembrou que o "povo já tem uma certa maturidade" e que é necessário trabalhar "para que desta vez a alternância ao poder seja um facto"; a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) pediu "mudanças para o progresso do país".

Ganhe quem ganhar

Os partidos respondem a um anseio da população. André Augusto, da organização não-governamental SOS Habitat, é um dos membros da sociedade civil que se mostram esperançosos numa mudança.

Na página da DW África no Facebook, Óscar Paulo Mendes, um cidadão angolano a viver em Luanda e que se confessa apaixonado pelo seu país, também pede alterações - "não importe quem ganhar". Figueiredo Cassinda acredita que "o voto massivo da juventude contra o MPLA" poderia trazer uma mudança governativa, pois "nota-se que a juventude angolana, na sua maioria, ganhou a consciência de que o MPLA afinal é um fator de desestabilização social no país. […] É uma juventude que está abandonada à sua sorte por este regime". Quintino Medi não acredita, porém, que as eleições gerais de quarta-feira tragam grandes novidades: O "povo angolano […] está ainda fascinado e cativado com a retórica falaciosa do MPLA, que nunca faz a diferença depois. Tenho [ainda] imensas dúvidas que, [caso haja uma] eventual mudança, a atual oposição seja capaz de a transformar na realização do sonho dos angolanos, pois ninguém inspira a idoneidade para assumir as rédeas da governação de Angola", escreveu Medi no Facebook.

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Angola | 18.08.2017

Jovens pedem mudanças após eleições em Angola

O sobe e desce estatístico

Uma sondagem polémica, atribuída às empresas Marketpoll/Sensus e citada em agosto pelo portal "Maka Angola", previa uma vitória do MPLA com apenas 38% dos votos. A UNITA conseguiria 32% dos votos e a CASA-CE 26%. A sondagem foi desmentida pelas empresas, mas foi, alegadamente, vazada na internet, em formato pdf.

Outra sondagem, divulgada em julho, também apontava para uma diminuição da percentagem de votos para o MPLA (com mais de 60% das intenções de voto, segundo o estudo, contra 71,85% dos votos obtidos em 2012) e para a subida da CASA-CE para o lugar de primeiro partido da oposição.

Mas, apesar do sobe e desce estatístico, não haverá uma mudança radical governativa nestas eleições, a confiar nas sondagens: em ambas, o MPLA sai vitorioso. Se isso se confirmar a 23 de agosto, o partido nomeará automaticamente o próximo Presidente e chefe de Governo, de acordo com a Constituição angolana.

Denúncias e transparência

Em entrevista à DW África, o ativista luso-angolano Luaty Beirão afirmou que, mais importante do que haver mudanças, é que o processo eleitoral seja "transparente".

Ao longo da campanha para as eleições gerais, houve várias denúncias de irregularidades – por exemplo, na cobertura mediática das atividades dos partidos.

A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch criticou a recomendação do Ministério angolano do Interior para proibir manifestações que não fossem de partidos políticos concorrentes às eleições gerais.

Houve também várias denúncias sobre a colocação de eleitores em listas de assembleias de voto a milhares de quilómetros das suas residências. A oposição queixou-se ainda de alegadas ilegalidades na contratação de duas empresas que participaram nas eleições de 2012, a SINFIC e a INDRA, para elaborar os cadernos eleitorais e fornecer o material de votação e o sistema informático, respetivamente. As empresas foram novamente contratadas apesar de alegações de fraude. Será que haverá mudanças no dia 23?

A propósito destas eleições, um cidadão angolano gracejava no Twitter: "Política em Angola é tipo carro... O povo quer mudança, mas o regime é automático".

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Setembro de 2008 - Luanda

Este comício do MPLA em Kikolo, Luanda, foi assistido por milhares de pessoas durante a campanha para as eleições de 2008, as primeiras em 16 anos. O MPLA obteve 82% dos votos, tendo conquistado 191 dos 220 lugares da Assembleia Nacional de Angola.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Março de 2011 - Angola

No entanto, e apesar da maioria conseguida nas eleições de 2008, nos anos seguintes realizaram-se várias manifestações, em Angola, e não só, contra o Governo. A 7 de março de 2011, teve início no país uma onda de manifestações inspiradas na Primavera Árabe. Na organização destas manifestações estava o Movimento Revolucionário de Angola, também conhecido como "revús".

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Março de 2011 - Londres

No mesmo dia (7 de março), cerca de 30 pessoas sairam às ruas em Londres para protestar contra o Presidente José Eduardo dos Santos. Os manifestantes exigiram a saída do pai de Isabel dos Santos gritando "Zédu fora!" e "Zé tira o pé".

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Fevereiro de 2012 - Benguela

Em 2012, ano de eleições no país, o número de manifestações organizadas pelos não apoiantes de José Eduardo dos Santos continuou a crescer. O protesto retratado na fotografia teve lugar em Benguela, a 13 de fevereiro. "O povo não te quer", gritaram os manifestantes.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Junho de 2012 - Luanda

A 23 de maio de 2012, o presidente angolano anuncia que as eleições legislativas se irão realizar a 31 de agosto. Sensivelmente um mês depois, a 23 de junho, o Estádio 11 de Novembro, em Luanda, encheu-se de militantes e simpatizantes do MPLA para aplaudir José Eduardo dos Santos e apoiar a sua candidatura.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Julho de 2012 - Viana

Cartazes a favor de dos Santos num comício da campanha para as eleições de 2012 em Viana, arredores de Luanda. A 31 de agosto, o MPLA vence as eleições com mais de dois terços dos votos. Depois de uma mudança da Constituição, o Presidente já não é eleito diretamente, mas sim indiretamente nas legislativas. Como cabeça de lista do MPLA, José Eduardo dos Santos é eleito Presidente de Angola.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Maio de 2015 - Benguela

Nos anos seguintes continuaram os protestos contra o Presidente. Foram-se somando episódios de violência e detenções. 2015 torna-se-ia um ano complicado no que às críticas a JES diz respeito. No aniversário do "27 de maio", em Benguela, por exemplo, 13 ativistas foram detidos minutos depois de começarem um protesto. No mesmo dia, também houve detenções em Luanda.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Junho de 2015 - Luanda

Em junho de 2015, tem início um dos episódios da governação de José Eduardo dos Santos mais criticados. 15 ativistas angolanos, entre eles Luaty Beirão, foram detidos sob acusação de planeaream um golpe de Estado. Para além de terem despoletado muitas manifestações, estas detenções tiveram mediatismo um pouco por todo o mundo devido às greves de fome levadas a cabo por muitos dos detidos.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Julho de 2015 - Lisboa

No dia 17 de julho realizou-se, em Lisboa, a primeira manifestação em Portugal a favor da libertação destes jovens. "Basta de repressão em Angola", ouviu-se na capital portuguesa. Dias mais tarde, em Luanda, a polícia reagiu violentamente contra algumas dezenas de manifestantes que protestaram no Largo da Independência.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Agosto de 2015 - Luanda

A 2 de agosto e sob o lema "liberdade já", cerca de 200 pessoas, entre as quais vários artistas angolanos - poetas, políticos, atores e artistas plásticos - juntaram-se, em Luanda, para pedir a libertação dos 15 ativistas angolanos detidos. Sanguinário, Flagelo Urbano, Toti, Jack Nkanga, Sábio Louco, Zwela Hungo, Mona Diakidi, Dinameni, Fat Soldie e MCK foram alguns dos artistas presentes.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Agosto de 2015 - Luanda

Dias mais tarde foi a vez das mães dos ativistas se fazerem ouvir. Nas ruas de Luanda, pediram a libertação dos seus filhos, mesmo depois da manifestação ter sido proibida pelo Governo.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Agosto de 2015 - Lisboa

Nem no dia do seu aniversário (28 de agosto), José Eduardo dos Santos teve "descanso". Cidadãos descontentes, quer em Lisboa, quer em Angola, voltaram às ruas. Na capital portuguesa, voltou a pedir-se liberdade para os ativistas. Exigiu-se ainda liberdade de movimento, de pensamento, de expressão e de imprensa em Angola.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Novembro de 2015 - Luanda

No dia em que se celebraram os 40 anos da independência de Angola, proclamada a 11 de novembro de 1975, pelo então Presidente António Agostinho Neto, vários jovens voltaram a fazer ouvir-se. 12 manifestantes foram detidos.

José Eduardo dos Santos deixará saudades?

Março de 2017 - Cazenga

No início de 2017, José Eduardo dos Santos anunciou a saída da Presidência. O cabeça-de-lista do MPLA às eleições gerais deste ano será o atual ministro de Defesa João Lourenço. O candidato foi recebido por centenas de apoiantes naquele que foi o seu primeiro ato de massas da pré-campanha, no município do Cazenga, em Luanda, a 4 de março.