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África do Sul analisa recurso da PGR moçambicana sobre Chang

Lusa
11 de dezembro de 2019

Tribunal Superior de Gauteng, na África do Sul, aprecia esta quarta-feira o pedido de autorização de Moçambique para recorrer da sentença que ordena o Governo sul-africano a decidir sobre extradição de Manuel Chang.

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Manuel Chang encontra-se detido na prisão de Modderbee, desde 29 de dezembro de 2018Foto: Getty Images/AFP/W. de Wet

A audição do caso está agendada para esta quarta-feira (11.12), no Tribunal Superior de Gauteng, em Joanesburgo. O novo argumento da Procuradoria-Geral da República (PGR) moçambicana consta de uma notificação que deve ser analisada hoje, na qual Maputo solicita a intenção de recorrer da decisão de 1 de novembro dos juízes Colin Lamont, Denise Fisher e Edwin Molahlehi, que ordenaram o Governo sul-africano a rever a extradição de Manuel Chang, detido na África do Sul por fraude e corrupção internacional.

No documento, a que a Lusa teve acesso, o Estado moçambicano acusa o painel de juízes de ter "errado" ao considerar que o protocolo de extradição da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla em inglês) impedia a extradição de Manuel Chang para Moçambique.

A PGR de Moçambique argumenta que aquele instrumento legal regional "apenas proíbe a extradição daqueles que têm imunidade absoluta". "A imunidade de Chang não é absoluta, mas condicional e nesse sentido, a imunidade a que se refere o artigo 4 (e) não se aplica a Chang", refere a PGR.

Mosambik Beatriz Buchili
Procuradora-geral de Moçambique, Beatriz BuchiliFoto: DW/R. da Silva

O órgão superior do Ministério Público de Moçambique, dirigido pela procuradora-geral, Beatriz Buchili, desde julho de 2014, após nomeação pelo ex-Presidente Armando Guebuza, reclama que "os países de direito civil requerem a presença do acusado por forma a que lhe seja levantada a sua imunidade e uma pessoa que fugiu ou está ausente do país não pode ter a sua imunidade levantada exceto quando é extraditada primeiro para o país".

A PGR considera que o painel de juízes sul-africanos "errou" na sua interpretação da aplicação da legislação moçambicana para que um deputado possa ser preso e processado judicialmente naquele país africano lusófono. "Essa imunidade é desfrutada desde que o parlamento nacional não tenha dado o seu consentimento (para a sua prisão, detenção ou julgamento)", adianta.

"Legislação não fornece imunidade de acusação"

Nas razões que pretende apresentar ao Supremo Tribunal de Apelação da África do Sul, na tentativa de impedir a extradição de Manuel Chang para os Estados Unidos da América (EUA), as autoridades argumentam que "a legislação moçambicana não fornece imunidade de acusação".

Moçambique insiste que "uma vez que o Parlamento moçambicano consentiu na detenção de Chang, o ex-governante não tinha imunidade na altura do pedido de extradição do seu país".

Decisão sobre extradição de Chang "não surpreendeu"

"O pedido de extradição (por Moçambique) foi baseado no consentimento que o parlamento nacional concedeu", adianta o documento. Em resposta "à falta de vontade e aptidão" apontada pelos juízes por parte das autoridades moçambicanas em acusar e julgar desde 2015 o ex-governante e político da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder desde 1975, a PGR refere que o tribunal sul-africano "errou na sua análise uma vez que Moçambique não falhou em acusar o Sr. Chang devido à sua imunidade como membro do parlamento".

"Moçambique não indiciou o Sr. Chang devido à assistência judicial que esperava dos Estados Unidos à luz do pedido de assistência legal mútua", adiantou Maputo, que acusa ainda a Justiça norte-americana de "conduta imprópria nos pedidos de assistência legal mútua". 

Todavia, conclui a PGR no seu pedido para recurso, "Moçambique estava disposto e apto a processar judicialmente Chang de forma efetiva uma vez retirada formalmente a imunidade após cumprido o devido processo (parlamentar)."

Ministro sul-africano poderá opor-se ao recurso?

O atual ministro da Justiça da África do Sul, Ronald Lamola, indicou que irá cumprir uma decisão do tribunal no sentido de autorizar Moçambique a recorrer para uma instância superior da Justiça sul-africana. Fonte governamental disse que o governante poderá opor-se ao recurso de Moçambique, assim que for concedida autorização de recurso. 

No dia 1 de novembro, o Tribunal Superior da África do Sul, divisão de Gauteng, ordenou ao ministro Lamola para determinar se o ex-governante moçambicano deve ser extraditado para o seu país ou para os EUA. Ronald Lamola argumentou que o seu antecessor agiu "ilegalmente e de forma irracional" ao decidir extraditar Chang para Moçambique.

Manuel Chang, 62 anos, encontra-se detido na prisão de Modderbee, arredores de Joanesburgo, desde 29 de dezembro do ano passado, a pedido dos EUA, primeiro requerente da extradição de Manuel Chang. 

O ex-ministro das Finanças de Moçambique, que foi preso no aeroporto internacional OR Tambo, em Joanesburgo, a caminho do Dubai, é aguardado para julgamento num tribunal de Nova Iorque, por fraude, corrupção e lavagem de dinheiro numa burla internacional de 2,2 mil milhões de dólares (cerca de dois mil milhões de euros).

 A detenção e pedido norte-americano de extradição de Manuel Chang, que Moçambique contesta, estão relacionados com o seu papel na prestação de avales financeiros do anterior Governo moçambicano, presidido por Armando Guebuza, para criar as empresas públicas Ematum, Proíndicus e MAM, de segurança marítima e pesca, à revelia da Assembleia da República e do Tribunal Administrativo de Moçambique.