Uhuru Kenyatta reeleito Presidente do Quénia

O chefe de Estado cessante Uhuru Kenyatta foi reeleito com 54,27% dos votos, contra 44,74% do seu rival Raila Odinga. Os resultados finais do escrutínio foram divulgados esta sexta-feira. Oposição contesta.

Como os números preliminares da Comissão Eleitoral indicavam, o Presidente Uhuru Kenyatta, de 55 anos, foi reeleito para um novo mandato de cinco anos.

Filho do fundador e primeiro Presidente do Quénia, Jomo Kenyatta, que governou o país de 1964 a 1978, Kenyatta teve a primeira experiência na política em 1996, quando foi eleito presidente de uma ala do então partido no poder, a União Nacional Africana do Quénia (KANU, nasigla em inglês).

Foi também presidente da Autoridade de Turismo e, em 2001, entrou para o Parlamento. No mesmo ano, foi nomeado ministro dos Governos Locais. Aos apenas 39 anos de idade, concorreu à Presidência, sem sucesso. Já em 2007, apoiou a campanha do Presidente Mwai Kibaki contra o opositor da etnia Luo, Raila Odinga.

O líder da oposição, Raila Odinga

O processo eleitoral ficou marcado pela violência. MIlhares de pessoas morreram e o Tribunal Penal Internacional (TPI) abriu um processo em que Kenyatta foi acusado de apoiar a violência contra a etnia Luo.

A aliança eleitoral com o seu atual vice-Presidente, William Ruto, deu-lhe a vitória em 2013 contra Raila Odinga, além do fim do processo no TPI.

Acusações de fraude

Apesar do anúncio dos resultados, o impasse em torno do vencedor das presidenciais no Quénia continua. Esta sexta-feira (11.08), o conselheiro sénior da oposição James Orengo afirmou que, só se tivesse acesso aos computadores da Comissão Eleitoral, a oposição respeitaria os resultados das presidenciais: "Porque a informação que nós demos sobre quem está a ganhar e quem não está veio daqueles computadores. Isso está em conformidade com a lei eleitoral, que diz que qualquer tecnologia que a CNE implemente nas eleições tem de pautar pela verificabilidade, responsabilidade, credibilidade e transparência", defendeu.

Orengo descartou a hipótese de levar a disputa à Justiça.

Na quinta-feira, a oposição divulgou números diferentes dos apresentados pela Comissão Eleitoral e exigiu que Raila Odinga fosse declarado vencedor das presidenciais. Roslyn Akombe, funcionária sénior da autoridade eleitoral deu uma resposta clara: "A Constituição do Quénia é muito clara: O único órgão que tem autoridade para organizar, contar e anunciar os resultados é a Comissão Eleitoral do Quénia, a IEBC", declarou.

Polícia patrulha ruas de Nairóbi

Comissão Eleitoral rejeita acusações

A Comissão disse ter comparado meticulosamente cada resultado do sistema de votação eletrónica com os números dos formulários em papel de todas as assembleias de voto, depois de a oposição denunciar fraude eleitoral.

A CNE rejeita as reivindicações de Raila Odinga de que o banco de dados do órgão tenha sido pirateado e que os resultados foram manipulados contra ele.

O Presidente Uhuru Kenyatta não comentou as alegações de fraude e os observadores eleitorais internacionais disseram que não viram sinais de interferência na votação.

O embaixador dos Estados Unidos, Robert Godec, sublinhou que o trabalho dos funcionários eleitorais não deveria ser interrompido e que eventuais disputas devem ser resolvidas por meios legais.

"A violência nunca deve ser uma opção. Nenhum queniano deve morrer por causa de uma eleição. O futuro do Quénia é mais importante do que qualquer eleição. Os líderes, acima de tudo, precisam de deixar isso claro", apelou o embaixador.

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NOTÍCIAS | 11.08.2017

Uhuru Kenyatta reeleito Presidente do Quénia

Clima de tensão

Os apoiantes da oposição queimaram pneus e bloquearam ruas em Kibera, na periferia de Nairobi, e em Kisumu, uma cidade no sudoeste do país onde Odinga tem um forte apoio. Pelo menos três pessoas foram baleadas e mortas durante confrontos entre agentes da polícia e manifestantes esta semana.

Apesar do clima de intolerância, o politólogo queniano Martin Oloo disse, em entrevista à DW que espera o retorno da normalidade em breve: "Mais cedo ou mais tarde, Odinga vai conceder a derrota. Para além das suas plataformas políticas e comunidades étnicas, esses dois líderes são muito amigos, as suas famílias são amigas. O que eles precisam de fazer é convidarem-se mutuamente para uma taça de chá e confortarem-se um ao outro. Porque os quenianos precisam de paz, precisam de retornar à normalidade", disse o analista.

Política e controvérsia nas eleições do Quénia

NASA tenta derrotar o partido no poder

A aliança da oposição, NASA, nomeou o ex-primeiro ministro Raila Odinga candidato à presidência. Trata-se, com grande probabilidade, da última tentativa de Odinga, um opositor veterano de 72 anos, de ser eleito Presidente, após três candidaturas falhadas. A NASA esforçou-se por nomear um candidato passível de angariar votos dos principais grupos étnicos.

Política e controvérsia nas eleições do Quénia

A recruta de novos membros de áreas chave

A NASA quer derrotar o Presidente em exercício, Uhuru Kenyatta, que concorre pela segunda e última vez pela sua formação política, Jubilee Party. Recentemente, a aliança ganhou um novo co-presidente na pessoa do governador de Bomet, Isaac Ruto. O dirigente do sudoeste do país garante à NASA o apoio do Vale de Rift, a maior província do país.

Política e controvérsia nas eleições do Quénia

Eleições no décimo aniversário de violência política

As eleições gerais quenianas realizam-se em 18 de agosto de 2017. Este ano, cerca de 19 milhões de quenianos recensearam-se para votar, embora ainda decorra um inquérito para eliminar da lista os eleitores entretanto falecidos. As eleições realizam-se dez anos após um sufrágio que desencadeou uma onda de violência, que resultou em mais de mil mortos e centenas de milhares de deslocados.

Política e controvérsia nas eleições do Quénia

Número inesperado de eleitores

O número elevado de eleitores que se apresentou nas mesas de voto para eleger o candidato à presidência do partido governamental, obrigou ao adiamento do voto. O Jubilee Party não estava preparado para tantos eleitores, e teve que providenciar mais boletins de votos, antes de continuar a votação poucos dias mais tarde.

Política e controvérsia nas eleições do Quénia

Violência eleitoral

As eleições deste ano para os governos e parlamentos regionais já foram marcadas pela violência. Dezenas de pessoas foram feridas no início do mês de Maio em Nairobi na central do partido de oposição Movimento Laranja Democrático, quando apoiantes de um candidato ao senado atacaram os adeptos da candidata desta formação política.

Política e controvérsia nas eleições do Quénia

Alegações de fraude

Já há alegações de fraude. O líder da oposição, Raila Odinga, afirmou que o seu cartão de identidade foi usado para recensear outras pessoas. Em 2013, o equipamento electrónico para a contagem de votos falhou, alimentando suspeitas de fraude eleitoral. Em janeiro, o Presidente Kenyatta aprovou uma lei que impõe um recurso à contagem manual de votos caso o equipamento electrónico não funcione.

Política e controvérsia nas eleições do Quénia

O problema das etnias

No Quénia, o voto geralmente é determinado pela etnia. O critério para as alianças políticas é a capacidade de angariar votos dos cinco principais grupos étnicos do país. Kenyatta e o seu vice, William Ruto, formaram uma aliança entre dois grupos étnicos: a maioria kikuyu, da qual origina o Presidente, e os kalenjin de Ruto. Estas duas etnias protagonizaram os confrontos violentos de 2007.