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A cultura de protestos em Berlim

22 de outubro de 2018

Ir às ruas para se fazer ouvido é um dos pilares fundamentais de democracias. Na capital alemã, onde há atos diários, manifestações são um exercício da cidadania e um meio para reivindicar direitos.

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Manifestantes em prol de igualdades sociais com cartazes e faixas nas ruas de Berlim
Manifestantes em Berlim em prol de igualdades: "Todas as cores são bonitas" e "Democracia ao invés de lobbysmo"Foto: Imago/Christian Ditsch

Em meados de outubro, uma passeata por mais tolerância e solidariedade reuniu, segundo os organizadores, mais de 240 mil pessoas em Berlim. Organizada por diversas associações, ONGs e partidos políticos, a manifestação contou com a participação de famílias, idosos, jovens, alemães, estrangeiros.

Por quase seis quilômetros, pessoas com os mais diferentes contextos sociais e histórias de vida caminharam lado a lado por um objetivo comum: mostrar que a sociedade não pretende aceitar racismo, discriminação e a propagação de ódio. Tolerância foi o lema que reuniu os presentes em Berlim.

A caminhada transcorreu sem imprevistos e violência. E, no final do percurso, diversas personalidades discursam num palco montado em frente à Coluna da Vitória. Ao reunir uma multidão, a manifestação foi um sinal importante enviado por uma ampla parcela da sociedade a favor da tolerância.

Ir às ruas para defender suas posições e reivindicações faz parte da cultura alemã. Em Berlim, por exemplo, não há uma semana na qual não ocorra nenhum protesto. A grande maioria das manifestações, porém, costuma reunir algumas dezenas de pessoas. Passeatas enormes, como a por mais tolerância, mobilizam mais participantes quando os temas têm uma relevância maior para uma ampla parcela da sociedade.

Os motivos que levam os berlinenses e alemães para às ruas são os mais variados: mais vagas em creches, mais ciclovias, pela paz, pela democracia, por mais igualdade para as mulheres, e, em Hamburgo, teve até crianças protestando para que seus pais usassem menos o celular... Enfim, os cidadãos alemães vão às urnas para reivindicar seus direitos, para se fazerem ouvidos pelos governantes. Não adianta ficar reclamando em casa, é preciso ser notado.

Segundo o semanário alemão Die Zeit, em 2011, por exemplo, foram registrados somente em Berlim cerca de 11 protestos por dia. O direito de se manifestar nas ruas é garantido pela Constituição alemã. Por isso, até mesmo marchas neonazistas são permitidas.

Essa cultura de protestos é dos pilares da democracia alemã e começou a florescer no lado ocidental na década de 1960, com as manifestações estudantis. Foi justamente essa geração que impulsionou muitos protestos nas próximas décadas. Alguns deles entraram para a história, como as manifestações contra energia atômica entre as décadas de 1980 e 1990 ou as marchas de segunda-feira, em 1989, em busca da democracia e que culminaram na queda da República Democrática Alemã (RDA).

Durante as ditaduras que o país enfrentou no século 20, o regime nazista e o socialista na Alemanha Oriental, a população foi impedida de ir às ruas, sob ameaça de sofrer retaliações e repressão. Justamente por esse passado, o direito de se manifestar é algo muito prezado pela sociedade alemã.

Hoje, os protestos fazem parte de um país com democracia saudável. São também as formas de expressão de uma sociedade e, em alguns casos, atos de solidariedade. Ir às ruas não é visto como uma ameaça a ninguém, é apenas forma de exercer a cidadania.

Clarissa Neher trabalha como jornalista freelancer para a DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

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