"A democracia não se defende sozinha"

Historiador americano Timothy Snyder, especialista em autoritarismo, vê com preocupação cenário no Brasil e diz que só realização de eleições não significa que candidatos e eleitores serão inclinados à democracia.

Professor da Universidade de Yale (EUA) e autor de livros sobre autoritarismo, o historiador americano Timothy Snyder vê com preocupação o cenário politico no Brasil antes das eleições presidenciais. Em entrevista à DW, ele diz que que a democracia não se defende sozinha e que candidatos e eleições são apenas parte do processo democrático.

Política | 14.09.2018

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"Há um tipo de fantasia bastante difundida de que, se o governo civil é corrupto, haveria alguma maneira de obter a pureza por meio dos militares", comenta o renomado historiador.

Snyder recebeu diversas distinções, incluindo o Prêmio Hannah Arendt em Pensamento Político. Ele é autor do bestseller Sobre a tirania - 20 lições do século 20 para o presente, uma análise de como os EUA poderiam evitar uma guinada ao autoritarismo na atualidade, e The road to unfreedom (o caminho para a falta de liberdade, em tradução livre), no qual comenta a ascensão do autoritarismo em Rússia, Europa e Estados Unidos.

DW Brasil: Jair Bolsonaro lidera as pesquisas de intenção de votos para presidente. Entre outras polêmicas, ele fez comentários em apoio à brutalidade policial e elogiou torturadores. O que o fato de um candidato com esse perfil ter chances de vitória significa para a democracia brasileira?

Timothy D. Snyder: O início da resposta para essa pergunta é que a democracia não se defende sozinha. Só porque há eleições democráticas, não significa que candidatos e eleitores serão inclinados à democracia. Eleições democráticas fazem parte de um projeto muito maior de construção de um Estado pluralista, individualista e de Direito. Quando partes desse projeto começam a desmoronar, passamos a ver isso em candidaturas e na eleição deste tipo de indivíduos.

Antes de sofrer um atentado, Bolsonaro foi criticado por dizer "vamos fuzilar a petralhada” em comício no Acre. No início deste ano, um ônibus da caravana do ex-presidente Lula foi alvejado por tiros. Quão preocupante são esses casos de violência política?

É extremamente preocupante porque um dos propósitos fundamentais das leis é evitar a violência. E um dos propósitos básicos dos partidos políticos é canalizar o interesse das pessoas de tal maneira que elas não resolvam suas diferenças com violência. Outro problema é que a violência tem uma forma de levar a mais violência. Mesmo pequenos atos de violência podem levar a maiores atos de violência.

General Mourão, candidato a vice-presidente de Bolsonaro, admitiu que as Forças Armadas poderiam apoiar um "autogolpe” na hipótese de "anarquia”. Autoridades militares de alto escalão sugeriram a um colunista do jornal "O Estado de S. Paulo" a possibilidade de um golpe caso Lula fosse libertado ou se a Lei da Anistia fosse revisada. Como o senhor analisa essas declarações?

As possibilidades mencionadas são bem sombrias. Sem enfatizar no contexto brasileiro, a base da ordem constitucional é que a violência é controlada pelo Estado e apenas executada de acordo com a lei. Assim que isso é questionado, entra-se em um território muito perigoso. A ideia de que as Forças Armadas deveriam decidir quem governará ou não o país é um passo em direção a um tipo diferente de sistema, porque ao se fazer isso uma vez, isso vai acontecer de novo, e de novo. Outro problema é que, uma vez que as Forças Armadas decidam que podem escolher o comandante do país, se perceberá que diferentes partes da instituição têm diferentes candidatos. Imaginar as Forças Armadas [fazendo isso] é pensar em uma situação na qual o Estado de Direito não funciona mais. É abrir caminho para um futuro em que é muito difícil recuperar esse Estado de Direito porque a história, não apenas da América Latina, mostra muito bem que golpes militares tendem a levar a mais golpes militares. Eles criam a percepção de possibilidade, que é muito difícil de se dissolver.

Além de candidatos com perfil autoritário, o Brasil experimentou pedidos por intervenção militar. O que pode explicar essa busca por saídas não democráticas?

Não posso explicar o porquê de os brasileiros estarem agindo desta forma, pois não estou no Brasil. Mas posso dizer que as pessoas perdem a paciência quando acreditam que há imprevisibilidade e quando acham que aqueles no topo estão representando algo além da população. E o Brasil não é o único exemplo disso. Contudo, a noção de que toda a elite política é corrupta é muito incapacitante. Porque então as pessoas começam a pensar: se todo mundo é corrupto, o sistema deve ser corrupto. E, portanto, temos que encontrar algo limpo, o que na imaginação de muitos é a polícia ou as Forças Armadas. É claro que a polícia e as Forças Armadas não são mais puros do que o resto. Eles simplesmente parecem ser porque não estão no poder. Se analisarmos pesquisas de opinião nos EUA sobre quais instituições não são corruptas, o Congresso vai muito mal, e as Forças Armadas vão muito bem. Creio que há um tipo de fantasia bastante difundida de que, se o governo civil é corrupto, haveria alguma maneira de obter a pureza por meio dos militares. Obviamente, isso não é verdade, conforme se descobre no dia seguinte a um golpe militar.

Qual a melhor maneira de dialogar com apoiadores de candidatos autoritários?

Há três considerações. A primeira é que se você está à esquerda ou na oposição, é muito importante não pensar "nós somos apenas a oposição”, "estamos apenas nas sombras”. É preciso pensar que se é parte do país. Esse nível de confiança é muito relevante, porque uma das maneiras pelas quais se chega ao autoritarismo de direita é que a esquerda perde a confiança. O segundo ponto é fazer algo no mundo real e não pela internet. Ninguém consegue persuadir os outros pela internet. O terceiro aspecto é que, se essas conversas funcionam, não é por meio de confrontação. Mas quando se pergunta o que o outro acha que está errado e quais são as coisas com as quais ambos se preocupam. O mais importante nessas conversas é reconhecer que o outro é um ser humano. Porque do ponto de vista de um aspirante a ditador de direita, a ideia é convencer seus seguidores de que os outros não fazem parte do país, que são intrusos. A conversa é um sucesso se acontecer, mesmo que não se convença alguém a mudar o voto.

O que o senhor diria aos milhares de brasileiros que estão pensando em quem não votar em vez de escolher um candidato?

Às vezes, essas eleições em que os candidatos não são ideais acabam sendo as mais importantes. Há uma enorme quantidade de americanos que lamentam não terem votado em 2016 [nas eleições presidenciais]. As pessoas disseram que ambos os candidatos eram ruins, logo, não iriam votar. E agora não gostam das consequências.

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Capítulos da eleição presidencial de 2018

Bolsonaro é eleito presidente

Em segundo turno, os brasileiros elegeram Jair Bolsonaro (PSL) como presidente. Após uma campanha eleitoral polarizada, o militar reformado de extrema direita recebeu 55,13% dos votos, contra 44,87% de Fernando Haddad (PT). Com bandeiras do Brasil e vestidos nas cores verde e amarelo, eleitores comemoram pelo país. No discurso da vitória, Bolsonaro prometeu um governo constitucional e democrático.

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TSE abre investigação contra Bolsonaro

A pouco mais de uma semana do segundo turno, o Tribunal Superior Eleitoral abriu uma ação para investigar suspeitas de compra de disparos de mensagens antipetistas no WhatsApp por parte de empresários aliados a Bolsonaro. O pedido de investigação foi feito pelo PT, após uma reportagem do jornal "Folha de S. Paulo". A PF também abriu inquérito para investigar a disseminação em massa de "fake news".

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Bolsonaro e Haddad vão ao segundo turno

Numa das eleições mais polarizadas da história, em 7 de outubro os brasileiros levaram ao segundo turno os dois candidatos que, segundo sondagens, são também os mais rejeitados: Bolsonaro (PSL) e Haddad (PT). Favorito no Sul e Sudeste, o ex-militar teve 46% dos votos válidos contra 29% do petista, que foi o mais votado em oito estados do Nordeste e no Pará. Em terceiro, Ciro Gomes (PDT) teve 12%.

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Bolsonaro cresce nas pesquisas

Já líder nas pesquisas, o candidato do PSL ampliou sua vantagem no início de outubro, ultrapassando pela primeira vez a marca de 30% em sondagens do Ibope e do Datafolha. Ao longo da semana que antecedeu as eleições, o ex-capitão foi subindo e, na véspera do pleito, cruzou a barreira de 40% dos votos válidos. Após ser esfaqueado, a campanha do candidato se concentrou nas redes sociais.

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A troca de Lula por Haddad

Após meses de suspense e com aval de Lula, Fernando Haddad foi oficializado candidato à Presidência pelo PT em 11 de setembro, a menos de um mês do primeiro turno, após se esgotarem as chances de o ex-presidente concorrer. Preso e virtualmente inelegível pela Ficha Limpa, Lula era líder nas pesquisas de intenção de voto. O desafio agora será transferir votos para o ex-prefeito.

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Ataque a Bolsonaro

O candidato do PSL foi esfaqueado durante um ato de campanha em Juiz de Fora, um ataque que prometia mudar os rumos da corrida presidencial. Seus adversários condenaram a agressão, e alguns chegaram a mudar o tom da campanha. Não houve, contudo, um impacto decisivo sobre o eleitorado. Ele segue líder das intenções, mas com percentual praticamente igual. A rejeição a ele, por outro lado, aumentou.

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O "plano B" do PT

Com Lula virtualmente inelegível, a escolha do seu vice passou a ser encarada como um trampolim para um candidato substituto. No início de agosto, o PT acabou indicando Fernando Haddad, que desde o início do ano era cotado como "plano B". Manuela D'Ávila (PCdoB) ficou com a curiosa posição não oficial de "vice do vice", assumindo a posição com Lula candidato ou não.

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A novela dos vices

A fase de convenções começou no fim de julho sem que a maioria dos pré-candidatos tivesse um vice. Bolsonaro teve três convites recusados até fechar com o general Mourão (PRTB). Henrique Meirelles (MDB) e Ciro Gomes (PDT) se contentaram com nomes do próprio partido. Alckmin teve convite recusado pelo empresário Josué Alencar, cuja família é ligada a Lula, antes de optar por Ana Amélia (PR).

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Os candidatos isolados

A jogada de Alckmin com o "centrão" acabou isolando outros candidatos. Jair Bolsonaro (PSL) tentou negociar com o PR, mas teve que se contentar com o nanico PRTB. Ciro Gomes (PDT) também viu suas investidas no grupo naufragarem. Marina Silva (Rede) e Ciro também não conseguiram apoio do PSB, que ficou neutro numa manobra do PT. Os três terminaram a fase de convenções com pouco apoio e tempo de TV.

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Alckmin fecha com o "centrão"

Em julho, o tucano Geraldo Alckmin ainda patinava nas pesquisas, mas criou um fato novo na campanha ao conseguir o apoio do "centrão", as siglas que costumam emprestar seu apoio a governos em troca de cargos e verbas. Ao se aliar com PR, PP, PSD, DEM e SD, Alckmin passou a dominar 44% da propaganda eleitoral na TV. Sua coligação também recebe 48% do novo fundo de campanhas.

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Candidaturas descartadas

A eleição de 2018 parecia destinada a superar o número de candidatos de 1989, quando 22 disputaram. Em abril, 23 manifestavam interesse em concorrer, entre eles o presidente Michel Temer, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ex-presidente Fernando Collor. Mas eles logo desistiram ou foram abandonados por seus partidos. Outros aceitaram ser vices. Em agosto, só 13 permaneciam na corrida.

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Os "outsiders" saem de cena

A possibilidade de Lula ficar de fora e o sentimento antipolítico entre a população sinalizavam que esta seria a eleição dos "outsiders". O ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa e o apresentador Luciano Huck chegaram a ser incluídos em pesquisas. O empresário Flávio Rocha anunciou candidatura. Em julho, todos já haviam desistido, e a disputa ficou restrita a velhos nomes da política.

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Lula é condenado e preso

Quando anunciou, em 2016, a intenção de disputar a eleição, Lula se tornou o líder nas pesquisas. Em janeiro, porém, sua situação se complicou após uma condenação em segunda instância que o deixou virtualmente inelegível. Em abril, foi preso. Com a possibilidade de a candidatura ser barrada, o PT passou a ter dificuldades em formar alianças, e o desfecho do pleito ficou ainda mais imprevisível.

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Entra em cena o fundo de campanhas

Diante da proibição das doações por empresas, o Congresso criou em outubro de 2017 um novo fundo de R$ 1,7 bilhão para financiar candidaturas, já definindo a capacidade financeira de várias campanhas. Quase 60% do valor ficou concentrado em seis legendas: MDB, PT, PSDB, PP, PSB e PR, deixando candidatos à Presidência de pequenas e médias siglas com menos recursos na largada.

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