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A França está pronta para Le Pen?

Elizabeth Bryant av
15 de janeiro de 2017

Como líder da Frente Nacional, ela conseguiu tornar xenofobia e anti-islamismo socialmente aceitáveis. Com o impulso da onda de populismo ocidental, crescem suas chances nas eleições presidenciais.

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"Em nome do povo": Marine Le Pen lidera a FN desde janeiro de 2011
"Em nome do povo": Marine Le Pen lidera a FN desde janeiro de 2011Foto: DW/E. Bryant

No tempo gélido do subúrbio parisiense de Suresnes, Laurent Salles tem as mãos dormentes enquanto distribuiu panfletos com o rosto sorridente da líder de extrema direita Marine Le Pen numa feira semanal. Quatro anos atrás, ele era apenas mais um membro da base partidária da Frente Nacional (FN). Agora, é conselheiro municipal na comuna antes solidamente comunista, de onde se avista a silhueta da Torre Eiffel.

Alguns dos numerosos fregueses que passam por ele param para guardar um dos brilhantes panfletos no carrinho cheio de queijos e verduras. Salles começa a conversar sobre política com um homem negro. Uma senhora o beija no rosto e oferece uma garrafa de vinho para celebrar o ano novo.

"Tenho percebido uma mudança na forma como a população nos vê", conta à DW o ativista, que se filiou à FN três décadas atrás, aos 16 anos de idade. "É bem menos conflituoso, porque os medos diminuíram. Eles nos veem em ação, como políticos eleitos."

Embora há bastante tempo os populistas de direita marquem presença na política nacional, Salles não é o único a detectar a aceitação popular crescente da FN. A meta atual do partido é entrar para o mainstream em grande estilo, trabalhando para que os eleitores escolham Le Pen, de 48 anos, como primeira presidente mulher da França.

"Cinco ou seis anos atrás, muitos eleitores evitavam revelar nas pesquisas de opinião que estivessem considerando votar na Frente Nacional", aponta o especialista em extrema direita Jean-Yves Camus. "Hoje eles são mais francos, embora a legenda não tenha mudado muito em tópicos como identidade nacional, imigração e xenofobia."

"Do povo e para o povo"

Em entrevista recente à imprensa estrangeira, inclusive a DW, Marine Le Pen esboçou suas prioridades presidenciais, que vão desde renegociar a filiação da França à União Europeia – e realizar um referendo pelo "Frexit", num prazo de seis meses após assumir o cargo – a cortar o número dos parlamentares do país, como parte de uma iniciativa maior para reduzir as camadas do aparato governamental.

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Laurent Salles (dir.) faz campanha para Frente Nacional no subúrbio de Suresnes, ParisFoto: DW/E. Bryant

A líder da FN – que esteve entre os primeiros políticos europeus a parabenizar Donald Trump pela vitória nas eleições americanas – também defendeu o populismo em ascensão na Europa e nos EUA.

"Está se referindo a quem defende um governo do povo, para o povo e em nome do povo? Se esse é o caso, então eu aceito ser chamada populista", disse então.

Na política externa, ela culpou a UE pela crise na Ucrânia e saudou um eventual aquecimento das relações russo-americanas sob a presidência de Trump.

"Não quero uma guerra entre os EUA e a Rússia, por uma razão bem egoísta: nós estamos no meio." Como alternativa, propôs uma aliança unindo as duas potências e a França na luta contra o extremismo islâmico.

A nova cara da extrema direita

A campanha presidencial francesa consta entre as mais observadas da Europa em 2017. Le Pen aproveita a onda de ira entre o eleitorado, em meio a um desempenho econômico medíocre, imigração crescente e islamismo militante. O presidente em exercício, François Hollande, é tão impopular que em dezembro anunciou que não concorreria à reeleição.

Imagem de mulher moderna de Le Pen aparou arestas extremistas da FN
Imagem de mulher moderna de Le Pen aparou arestas extremistas da FNFoto: DW/E. Bryant

Certos observadores preveem que a populista de direita liderará o primeiro turno da eleição em abril, mas acabará perdendo o segundo, provavelmente para François Fillon, candidato favorito da centro-direita. Tal resultado evocaria o pleito de 2002, em que o pai dela, Jean-Marie Le Pen, perdeu para o então-presidente Jacques Chirac, no que acabou resultando num referendo de massa contra o extremismo.

Hoje, contudo, Marine é bem mais popular do que seu beligerante pai. Ela aparou as arestas extremistas da FN, tornando a legenda mais digestível para os votantes moderados.

"Em geral, partidos de extrema direita são liderados por homens", comenta Camus. "Agora temos uma política na faixa dos 40 anos, com o apelo de uma mulher moderna, que está atraindo não apenas eleitores mais velhos do sexo masculino, mas também eleitoras mais jovens", completa o analista.

Tempo de mudança?

Camus acredita que nem mesmo o inquérito em curso, sobre o suposto emprego fraudulento de assistentes da FN no Parlamento Europeu, venha a comprometer o apoio a Le Pen.

Não só a líder partidária está apresentando queixa em Bruxelas, alegando tratar-se de uma manobra de oportunismo político, como "o eleitor médio da Frente Nacional desgosta tanto da UE, que isso poderá ser até um ponto positivo", afirma o especialisa.

Na feira de Suresnes, o técnico de computador Olivier Nicolas está considerando votar em Le Pen. Embora não concorde com a política econômica da FN, ele crê que a França deve limitar a imigração e reafirmar o controle sobre as próprias fronteiras. Le Pen tem "integridade", afirma.

"Não acho que ela possa ganhar. Há um telhado de vidro de verdade, porque a mídia rotula a FN de extrema direita, embora suas ideias sejam praticamente as mesmas que as da centro-direita nos anos 1990."

Na opinião de outra freguesa, porém, Evelyne Nodex, de 59 anos, a França está pronta para a mudança. "Esquerda, direita, dá no mesmo", comenta sobre as alternativas moderadas. "As coisas estão estagnando. Nunca tivemos a Frente Nacional no poder. Por que eles seriam piores?"