A quimera de um passado melhor

Bolsonaro parece cultivar uma nostalgia retrógrada, prometendo a volta a um passado supostamente melhor. Mas será que esse passado existia mesmo?, questiona a colunista Astrid Prange.

Caros brasileiros,

Parece que o Brasil esta péssimo. Segundo o IBGE, nos últimos cinco anos, o desemprego aumentou, e a extrema pobreza também. Até a mortalidade infantil, que só diminuía, voltou a crescer. Em 2016, de cada mil crianças nascidas, 14 morreram antes de completar um ano de idade. Em 2015, a média era de 13,3.

Quando eu cheguei ao Brasil, em 1989, o quadro não era péssimo, era pior, muito pior. A taxa de mortalidade infantil era de 47 por mil crianças nascidas vivas. Mais de um quinto da população (22%) vivia na pobreza absoluta, e a inflação era de 1000 (!) por cento ao ano. Nos supermercados, os preços eram reajustados duas vezes por dia.

Para evitar mal-entendidos: com essa comparação, não quero maquiar ou embelezar a atual crise politica e econômica no Brasil. A minha pergunta é outra: existe o perigo de perder as grandes conquistas sociais nos últimos 25 anos? Existe o perigo de que a pobreza extrema, que em 2012 caiu para 5,2%, possa voltar aos patamares antigos?

Mantenho a esperança de que a volta a esse passado não vai acontecer. E mais: mantenho a esperança que o discurso do presidente Bolsonaro, de um passado supostamente melhor, vai se desfazer. Pois essa nostalgia política é uma quimera.

A verdade é que o "milagre brasileiro" custou caro ao país. Pois mesmo com crescimento econômico a vapor e pleno emprego, a população pobre ficou mais pobre ainda. Politicamente, isso significa um atestado de incapacidade.

Astrid Prange, colunista da DW Brasil

Entre 1967 e 1973, em plena conjuntura efervescente, o salário-mínimo caiu mais de 15 por cento. E a inflação galopante diminuiu ainda mais a renda mínima da população pobre que não tinha conta bancária e por isso não usufruía da correção monetária.

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Bolsonaro parece cultivar essa nostalgia retrógrada. Por que tanto elogio aos militares que, depois de mais de 20 anos no poder, entregaram um país sofrendo de hiperinflação, dívida externa recorde e o sistema de educação quebrado?

Na Alemanha também, sonha-se muito com os "bons tempos antigos". Especialmente com o passado na antiga República Democrata Alemã (RDA). A frase "nem tudo era ruim" tenta chamar a atenção para conquistas sociais na antiga ditadura socialista, onde oficialmente não havia desemprego, as mulheres eram emancipadas e, na creche gratuita, havia vaga para todo mundo. Apesar de todas essas maravilhas, 30 anos depois da queda do Muro, com poucas exceções, ninguém quer reerguer a divisão entre Alemanha capitalista e comunista.

No Brasil, essa nostalgia contraditória parece um pouco semelhante. Bolsonaro se elegeu prometendo a volta a um passado supostamente melhor. Um passado quando regia hierarquia e disciplina, a família era valorizada e não existia nem "ideologia de gênero" nem "pregação marxista".

Mas será que esse passado existia mesmo? E a tão querida valorização da família não era um eufemismo para discriminação e sofrimento da mulher?

Felizmente, na prática, os desejos de mudança do governo Bolsonaro parecem não agradar tanto, nem aos seus eleitores. Uma pesquisa recente do Datafolha mostrou que 71% dos entrevistados acham que assuntos políticos devem seguir em debate nas salas de aula; 54% querem que a educação sexual permaneça no ensino. 

Por isso, mantenho fé e esperança de que a volta ao passado nada mais será que uma propaganda política vazia. Que a sociedade civil, o Congresso Brasileiro, e especialmente as mulheres brasileiras não vão entregar direitos arduamente conquistados. Que, apesar dos retrocessos, o Brasil nunca mais vai voltar aos péssimos índices de desenvolvimento humano dos anos 1980.

Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de.

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