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Suhrkamp faz 60 anos

1 de julho de 2010

Nenhuma editora marcou tanto o desenvolvimento da literatura alemã e a propagação de autores estrangeiros na Alemanha como a Suhrkamp. Após longos anos de turbulência, a editora inaugura nova fase com sede em Berlim.

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"Claro que eu gostaria de estar de qualquer jeito em uma editora dirigida pelo senhor", escreveu Bertolt Brecht a Peter Suhrkamp em 1950. Logo depois, este aficionado por livros fundou sua própria editora, iniciando uma história de êxito sem precedentes, iniciada a 1º de julho de 1950.

Os mais famosos escritores do pós-guerra – além de Brecht, também Hermann Hesse, Max Frisch, Martin Walser, Uwe Johnson – encontraram nesta editora um ambiente intelectual propício. Entre os nomes da literatura internacional incluídos desde cedo no programa editorial estão Samuel Beckett, James Joyce e Marcel Proust.

Heinrich Böll Theodor Adorno und Siegfried Unseld Flash-Galerie
Heinrich Böll, Theodor Adorno e Siegfried Unseld em um ato público em 1968Foto: picture-alliance / dpa

Os mentores da Escola de Frankfurt, sobretudo Theodor W. Adorno e posteriormente Jürgen Habermas, impulsionaram por meio de seu pensamento a as tendências revolucionárias da geração de 1968. Entre os autores publicados pela Suhrkamp estão 12 nobéis e 28 escritores homenageados com o prêmio Büchner da Alemanha.

"Cultura Suhrkamp"

No início deste ano, seis décadas após a sua fundação, a Suhrkamp mudou de Frankfurt para Berlim. Esta decisão da presidente da editora, Ulla Unseld-Berkiéwicz, encontrou séria resistência por parte dos funcionários.

Ulla Unseld Berkéwicz Suhrkamp Verlag geht nach Berlin
Ulla Unseld-BerkéwiczFoto: picture-alliance/ dpa

Após anos de disputas internas de poder, a escritora e ex-atriz Ulla Unseld-Berkiéwicz, viúva do segundo presidente da editora, Siegfried Unseld, conseguiu viabilizar a transferência da sede para Berlim, esperando que isso venha a ser um recomeço para a Suhrkamp.

Apesar de o cenário literário e editorial alemão ter se diversificado e diluído a ponto de não se poder mais falar de uma "cultura Suhrkamp", a editora vive até hoje da relação próxima que mantém com seus escritores.

Peter Suhrkamp
Peter SuhrkampFoto: picture-alliance/ dpa

"Não publicamos livros, e sim autores" já era o lema do fundador Peter Suhrkamp. Filho de agricultores formado em Letras Germânicas, ele havia dirigido até 1944 o que restara da editora S.Fischer em Berlim, até ser preso pelo regime nazista e enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen.

Após a guerra, Peter Suhrkamp adquiriu a primeira licença do governo militar inglês para administrar uma editora na Alemanha ocupada. Após um desentendimento com o editor Gottfried Bermann Fischer, recém-retornado do exílio, ele resolveu fundar sua própria empresa, incentivado pelo escritor Hermann Hesse. Entre os 48 autores da S.Fischer, 33 seguiram Suhrkamp, compondo o programa inicial da sua nova editora.

Siegfried Unseld
Siegfried UnseldFoto: AP

Em 1951, Siegfried Unseld começou a trabalhar na editora, tornando-se o dirigente único após a morte de Peter Suhrkamp, em 1959. Com sua sensibilidade para a literatura, Unseld descobriu inúmeros autores novos, incentivando-os durante anos.

Saga familiar desgasta imagem da editora

Com 142 funcionários hoje, a editora tem um catálogo com mais de 10 mil títulos. Suas coleções se inscreveram na memória cultural dos alemães, entre as quais a Bibliothek Suhrkamp, com clássicos do modernismo, e a edition suhrkamp, que lançou obras de vanguarda desde 1963. Hoje o grupo editorial Suhrkamp inclui também as editoras Insel, Deutsche Klassiker Verlag, Jüdischer Verlag e Verlag der Weltreligionen.

Após a reunificação da Alemanha, a editora começou a perder o brilho. Durante alguns anos, a Suhrkamp se manteve continuamente nas manchetes por causa de disputas familiares e desavenças internas. Em 2002, após a morte do poderoso patriarca Siegfried Unseld, sua segunda esposa, 25 anos mais jovem do que ele, assumiu a presidência da editora, um cargo disputado na Justiça – em vão – por Joachim Unseld, filho de Siegfried.

Só em 2009, o filho de Unseld vendeu sua participação na editora, deixando o caminho livre para a transferência da sede para Berlim. Ulla Unseld-Berkiéwicz detém 61% das ações da Suhrkamp; a cota restante de 39% é de propriedade do grupo de mídia Winterthur.

O drama familiar não apenas prejudicou a reputação da editora, mas também motivou a saída de autores como Martin Walser, Adolf Muschg e Norbert Gstrein.

Literatura latino-americana na Suhrkamp

Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti e Octavio Paz eram nomes praticamente desconhecidos na Alemanha, até a Suhrkamp publicá-los com êxito em meados dos anos 1970. O grande responsável por essa ruptura foi o próprio Siegfried Unseld, um amante da literatura latino-americana.

Esse capítulo da história da Suhrkamp está documentado na mostra Cortázar, Onetti, Paz – O Grande Sul da Suhrkamp, organizada pelo Arquivo Alemão de Literatura (DLA, do alemão) em Marbach. O DLA, principal acervo de manuscritos e documentos da literatura alemã desde o Iluminismo e uma das instituições literárias mais importantes do mundo, adquiriu os arquivos das editoras Suhrkamp e Insel (incorporada à primeira em 1963).

Com a mostra aberta até meados de outubro, o DLA afirma querer compartilhar a alegria de desempacotar as 2.600 caixas enviadas pela Suhrkamp a Marbach no ano passado. O material adquirido será exposto ao longo de quatro anos, em 12 mostras diferentes.

Julio Cortazar
Julio Cortàzar, em 1974Foto: dpa

Nenhuma outra editora alemã promoveu tanto a descoberta literária e intelectual da América Latina como a Suhrkamp. Em 1976, ano em que a Feira de Livros de Frankfurt destacou a América Latina como foco, foram editados 17 livros de autores da região, entre os quais o argentino Julio Cortázar, o uruguaio Juan Carlos Onetti e o mexicano Octavio Paz, que recebeu o Nobel de Literatura em 1990.

O abrangente catálogo da Suhrkamp, que completa 60 anos neste 1º de julho, inclui hoje títulos como O Jogo da Amarelinha, de Cortázar, A Invenção de Morel, do argentino Adolfo Bioy Casares, Três tristes tigres, do cubano Guillermo Cabrera Infante, entre muitos outros. Agora, os rastros da fascinação de Unseld pela América Latina podem ser investigados na mostra organizada em Marbach.

SL/dpa/ap

Revisão: Roselaine Wandscheer