1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
EsporteAlemanha

Após 15 anos, chega ao fim era Löw à frente da seleção alemã

Jonathan Harding | Matt Ford
30 de junho de 2021

Joachim Löw ajudou a revolucionar o futebol da Alemanha e venceu a Copa do Mundo em 2014. Pode ser considerado o melhor técnico que a seleção já teve, mas talvez tenha se mantido no cargo por tempo demais.

https://p.dw.com/p/3vpTC
Joachim Löw
Na derrota para a Inglaterra, Löw parecia lutar para se manter em um jogo que havia o superado faz tempoFoto: Federico Gambarini/dpa/picture alliance

Faz sentido que a era de Joachim Löw à frente da seleção alemã de futebol tenha sido encerrada em Wembley, um estádio onde a Alemanha durante muito tempo se manteve invicta, e contra a Inglaterra, cuja seleção parecia presa ao passado enquanto os alemães venciam tudo.

Nas oitavas de final da Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, um time jovem alemão com Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger, Jérôme Boateng, Sami Khedira, Thomas Müller e Lukas Podolski desmontou a chamada "geração de ouro" inglesa de John Terry, Ashley Cole, Frank Lampard, Steven Gerrard e Wayne Rooney, a caminho do terceiro lugar no campeonato.

Para os "Jogis Jungs" ("Rapazes do Jogi"), essa vitória foi uma marca importante na revolução futebolística que iria culminar na glória da Copa do Mundo do Brasil, em 2014. Enquanto isso, a Inglaterra continuou na sua espera desesperadora pela glória internacional.

Avance 11 anos para o futuro, e as duas nações se encontram novamente nas oitavas de final de um torneio importante. Mas, desta vez, o bom momento estava do lado da Inglaterra, e o time jovem de Gareth Southgate, liderado pelo altivo Raheem Sterling, se impôs com uma merecida vitória por 2 a 0.

Com a vantagem de jogar em casa e contando com forte apoio da torcida a um time jovem e um técnico carismático, a hora da Inglaterra parece ter chegado finalmente.

Para Löw, depois de 198 jogos no comando da seleção alemã, é o fim – apesar de que, na verdade, o fim já havia chegado há mais de cinco anos.

Alemanha 2006: a revolução

No tempo certo, depois que as atenções estiverem voltadas para outras figuras, esse homem de 61 anos da Floresta Negra, região no sudoeste da Alemanha, será lembrado como um dos grandes técnicos da história do futebol do país. Talvez um dos maiores.

Quando ele entrou na seleção como técnico assistente de Jürgen Klinsmann, em 2004, na preparação para a Copa do Mundo de 2006 que seria realizada em sua terra natal, o time alemão tinha acabado de ser humilhado com eliminações na fase de grupos do Campeonato Europeu em 2000 e em 2004.

O futebol alemão precisava de uma revolução, e Löw seria o homem para liderá-la, mudando o destino do futebol do país para sempre. Com um time reformado e otimizado de novos talentos e sua marca de posse de bola compassada e dominante, Löw foi um treinador que fez a sua profissão evoluir.

Jürgen Klinsmann e Joachim Löw
Löw entrou na seleção em 2004, como técnico assistente de Jürgen KlinsmannFoto: picture-alliance/dpa

Derrotas seguidas para a Espanha na final da Eurocopa de 2008 e nas semifinais da Copa do Mundo de 2010 foram frustrantes. Mas, nesse nível, pequenas variações e um toque de azar podem fazer toda a diferença, e Löw não deve ser culpado por ter enfrentado um dos maiores oponentes que havia à época.

De fato, Vicente del Bosque, o então técnico da Espanha, depois disse que Löw era uma pessoa respeitosa e correta. Algumas vezes apenas as coisas não ocorrem da forma como você gostaria.

Uma outra derrota na semifinal da Eurocopa de 2012, porém, doeu. A reviravolta tática de Löw para enfrentar a Itália retirou a água que movia seu moinho e arrancou da Alemanha a chance de uma revanche contra a Espanha na final.

As críticas, claro, foram grandes. Löw disse que algumas delas eram improdutivas e o deixaram exaurido.

Brasil 2014: O auge

O fato de que Löw, dois anos depois, iria exorcizar essa derrota e vencer a Copa do Mundo no Brasil se deve a ele e ao momento de coroação de sua carreira como técnico. 

O time certo, a equipe de auxiliares certa, a preparação certa, a mentalidade certa e a tática certa – depois de finalmente mover Lahm para a lateral direita nas quartas de final contra a França –, tudo entrou em harmonia.

Löw ergue taça da Copa do Mundo no Brasil
No Brasil, Löw coroou sua carreira com um quarto título da Copa do Mundo para a AlemanhaFoto: picture-alliance/AP

Adicione a isso um pouco de sorte para superar a Argélia, um colapso brasileiro sem precedentes e o brilho individual de Mario Götze como toque final, e era a vez da Alemanha, resultado de uma década de trabalho.

Ele conquistou um quarto título da Copa do Mundo para a Alemanha, uma quarta estrela no brazão e, em um esporte frequentemente obcecado com a importância da carreira de jogador para ser treinador, tornou-se o primeiro ex-jogador alemão sem brilho que venceu a Copa do Mundo como técnico.

Rússia 2018: O fiasco

Como campeão mundial e a Alemanha ainda voando alto, a tentativa de vencer a Eurocopa dois anos depois na França era mais do que justificável. Depois de outra derrota em semifinal, porém, Löw deu seu segundo passo em falso, que iria ter efeitos devastadores no longo prazo.

Dois jogadores importantes, Lahm e Per Mertesacker, aposentaram-se depois da Copa no Brasil, e o capitão Schweinsteiger também retirou-se do time. A era tinha claramente chegado ao fim, mas nem a Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla em alemão) nem Löw perceberam isso, e o treinador continuou no cargo.

O fiasco de 2018 na Rússia será simbolizado para sempre na imagem em que Löw aparece bronzeado e com óculos escuros, posando de forma despreocupada em um calçadão na cidade de Sochi. E não é difícil imaginar por que ele estava tão confiante, depois de ter assinado um novo contrato antes mesmo de apresentar a escalação de seu time para o torneio.

 Joachim Löw em Sochi em 2018
Fiasco na Rússia foi simbolizado na imagem de Löw, bronzeado e com óculos escuros, despreocupado em SochiFoto: Christian Charisius/dpa/picture alliance

A DFB falhou miseravelmente em se preparar para a vida pós-Löw depois do triunfo no Brasil, e agora era uma organização atingida por acusações de corrupção e obcecada com seu próprio marketing e imagem pública como "Die Mannschaft" ("O time", em alemão).

O presidente da DFB, Reinhard Grindel, nunca se sentiu à vontade o suficiente para desafiar Löw quando o assunto era futebol e abrir caminho para uma nova era, e deve responder por parte da culpa. Mas mesmo isso não inocenta Löw de sua insistência arrogante de que o mesmo futebol que funcionou anos atrás iria funcionar novamente, ou sobre sua decisão controversa de não escalar Leroy Sané.

Euro 2020: O fim

Mesmo assim, ele permaneceu no cargo. Seu desejo de formar uma nova geração era admirável e tinha chegado com atraso, mas a dispensa abrupta dos veteranos Müller, Boateng e Mats Hummels foi desastrada e contraproducente.

O adiamento da Eurocopa 2020 para 2021 devido à pandemia de covid-19 presenteou Löw com um ano extra para se recuperar de novas humilhações na Liga das Nações da Uefa (último do grupo em 2019 e eliminado pela Espanha com um 6 a 0 em 2020) e contra a Macedônia do Norte (derrotado por 2 a 1 durante as eliminatórias da Copa do Mundo). Ele deixou então sua teimosia de lado e escalou novamente Müller e Hummels.

Seu desejo de ser flexível era evidente, e a mudança positiva na atmosfera era bem-vinda. Löw merece créditos por ter criado um grupo muito mais unido do que o de três anos antes, e por trazer energia renovada para o seu último torneio, mas apenas isso não era suficiente.

Löw no campo durante jogo contra a Inglaterra
Löw deixa o cargo sem final feliz, mas com o tempo suas grandes conquistas serão lembradas como merecemFoto: John Sibley/REUTERS

A França poderia ter vencido por bem mais do que apenas um gol. A vitória sobre Portugal foi encorajadora mas caótica. E a Alemanha se viu apenas a seis minutos de uma nova eliminação na fase de grupos contra a Hungria.

No momento em que uma Inglaterra em ascensão chegou, Löw parecia um técnico lutando para se manter em um jogo que havia o superado faz tempo.

E assim ele deixa o cargo, e não há nenhum final feliz para esse torneio de despedida. Alguns irão talvez sentir saudade de seu sotaque do sul da Alemanha, e poucos sentirão falta de suas bizarras investigações nasais. Mas, no tempo certo, suas grandes conquistas serão sem dúvida lembradas com o olhar afetuoso que elas merecem.

Por ora, Joachim Löw será lembrado como o técnico que venceu tudo o que era possível, mas que não soube o momento de parar.