As diferenças entre as Igrejas Protestante e Católica

Passados 500 anos da Reforma introduzida por Martinho Lutero, diferenças entre as duas Igrejas persistem, passando pelo celibato, a adoração de santos e a eucaristia.

Na Alemanha, onde nasceu a Reforma da Igreja, católicos e protestantes ainda viviam em profunda hostilidade até algumas décadas atrás. Agressões mútuas, condenações doutrinais, conflitos e guerras de motivação religiosa acompanharam essa cisão.  

A razão para isso aconteceu há 500 anos, com a separação da Igreja em Católica e Protestante. A ideia inicial do monge Martinho Lutero (1483-1546), de reformar a Igreja Católica, acabou não se concretizando. Pelo contrário, a publicação de suas 95 teses em 31 de outubro de 1517 contra o que considerava teologicamente inoportuno na Igreja de seu tempo é considerada a base da Igreja Protestante e o ponto de partida da divisão em confissão católica e evangélica luterana na Alemanha.

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O especial do ano do jubileu da Reforma, que começou em 31 de outubro de 2016, é o aspecto ecumênico. No passado, a cada ano as Igrejas protestantes reverenciavam seu fundador, Martinho Lutero, numa espécie de "aclamação ao herói". Mas dessa vez é diferente.

Em 2017, a intenção da Igreja Evangélica na Alemanha (EKD, da sigla em alemão) é celebrar os 500 anos da Reforma ao lado da Igreja católica como uma festa cristã. Já em setembro do ano passado, ambas publicaram o documento comum "Curar a memória, testemunhar Jesus Cristo".

Dois meses depois, houve uma peregrinação conjunta dos principais representantes alemães de ambas as confissões à Terra Santa. E em 7 de fevereiro deste ano, uma delegação da EKD, liderada pelo seu presidente, Heinrich Bedford-Strohm,foi recebida pelo papa Francisco.

Na ocasião, as duas confissões homenagearam Martinho Lutero e enfatizaram seu anseio de superar a divisão da Igreja. Em 11 de março, então, na cidade alemã de Hildesheim, aconteceu um culto ecumênico de reconciliação. Apesar dos esforços de ambos os lados pela superação das diferenças, não há perspectiva de que algum dia as duas confissões voltem a se unificar. As duas Igrejas definem sua relação como "diferença conciliada".

Muito do que Lutero quis reformar na Igreja católica há 500 anos diferencia e divide as duas confissões até hoje. Estas são as oito principais diferenças:

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1. Interpretação da Bíblia

O catolicismo e o protestantismo têm diferentes pontos de vista sobre o significado e a autoridade de fé da Bíblia. Desde Lutero, está claro para os protestantes: a Bíblia é "sola scriptura", ou seja, ela é a única palavra inspirada por Deus, com revelações que nos permitem a comunhão com Ele.

O Novo Testamento, traduzido por Martinho Lutero

Já os católicos questionam a validade dessa doutrina de quase 500 anos. Eles não acham que a Bíblia, por si só, seja suficiente. Por isso, além da Sagrada Escritura, também a tradição católica romana é vinculativa para os cristãos.

2. A Igreja

Católicos e protestantes têm uma visão diferente da natureza da Igreja. A Igreja católica (do grego katholikós, universal) se vê como a única Igreja verdadeira, em todo o mundo, sob a liderança do papa.

Para as Igrejas que emergiram da Reforma (evangélica, derivada do Evangelho), não há uma única no que tange a denominações, mas há várias denominações cristãs que compõe a única Igreja Cristã (católicos, luteranos, calvinistas, batistas, etc.), espalhadas pelo mundo. Oficialmente, todas elas se consideram equivalentes.

3. Papado

Os protestantes não são tolerantes em relação ao papado, pois alegam que ele não condiz com a Bíblia. Os católicos veem no Sumo Pontífice o sucessor do apóstolo Pedro e, portanto, o chefe de sua Igreja, nomeado por Jesus Cristo. Isso é explicado por uma cadeia de consagrações que supostamente nunca foi interrompida, desde o século 1º até o presente.

4. O cargo de sacerdote

Segundo o catolicismo, ao receberem o sacramento da Ordem, bispos, sacerdotes e diáconos ganham para sempre a legitimação de servir a Deus. Por isso, o cargo de sacerdote é superior ao de leigos católicos. Essa ordenação, aliás, é reservada aos homens.

Já o Protestantismo não vê na profissão religiosa uma consagração da pessoa. O cargo é uma função pretendida por Deus que, em princípio, pode ser transferido para qualquer cristão, mesmo para mulheres, ainda que algumas igrejas luteranas também não as ordenem.

5. Eucaristia ou Santa Ceia

Na Eucaristia católica, fica evidente a autoridade do sacerdote e o quanto isso influencia a convivência ecumênica. A Eucaristia, ou Santa Ceia, em um culto religioso representa a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Ela remonta à última refeição de Jesus com seus discípulos na véspera de sua crucificação.

A Eucaristia católica pode ser ministrada somente por um sacerdote ordenado. Apenas ele, em nome de Jesus, pode transformar pão e vinho no corpo e no sangue de Cristo. Não é permitida a participação de não católicos.

Na igreja evangélica, qualquer pessoa batizada pode tomar a Santa Ceia. Também é permitido que leigos auxiliem o pastor na distribuição do pão e do vinho. Esta é uma das razões pela qual o lado católico rejeita a Santa Ceia conjunta com protestantes.

Os católicos veem a Eucaristia como uma constante repetição do sacrifício de Jesus Cristo. Em sua interpretação, a hóstia se transforma no corpo de Jesus e pode ser adorada. Já para os luteranos, a Santa Ceia é o verdadeiro corpo e sangue de Jesus, no pão e no vinho. Algumas igrejas luteranas exigem que, além de batizados, os membros tenham tido instrução prévia nas doutrinas da igreja para serem admitidos à Comunhão do Altar.

6. Sacramentos

Na Igreja Católica Apostólica Romana, há sete atos sagrados, os chamados sacramentos: o batismo, a crisma, a Eucaristia, a confissão, o casamento, a ordenação dos sacerdotes e a extrema-unção. O catolicismo crê que Deus salva através destes sacramentos.

Na Igreja Protestante existem apenas dois sacramentos: o Batismo e a Eucaristia (Santa Ceia).

7. Maria e os santos

A Igreja Católica reverencia Maria, a mãe de Jesus, como "rainha celestial" e, em alguns aspectos, a equipara a Ele. Como não há evidências bíblicas para dogmas marianos da Igreja Católica como a salvação de Maria do pecado original e sua glorificação corporaleles são rejeitados pelo lado protestante.

A Igreja católica pratica a veneração dos santos. Os modelos de fé canonizados ao longo da história da Igreja são vistos como mediadores para interceder junto a Deus a favor do crente. Há mais de 4 mil santos, os quais os fiéis podem adorar através de relíquias.

O culto aos santos é categoricamente rejeitado pela Igreja Protestante, por não condizer com os escritos bíblicos. Segundo a fé luterana, todo ser humano pode e deve recorrer a Deus diretamente, em oração, apenas em nome de Jesus.

 8. Celibato

O compromisso de não se casar e manter abstinência sexual é obrigatório para sacerdotes católicos. O celibato sacerdotal é compreendido como sinal da sucessão de Cristo, que segundo a Bíblia era virgem e solteiro.

As igrejas evangélicas rejeitam que o celibato seja um dever, pois não há mandamento de Jesus nem dos apóstolos nesse sentido. Já em 1520, o ex-monge Martinho Lutero exigiu sua abolição e, cinco anos mais tarde, casou-se com a ex-freira Katharina von Bora. Por seu casamento, fundaram o "presbitério protestante", que se tornou uma característica da paróquia luterana ao longo dos séculos.

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Os principais nomes da Reforma Protestante

João Calvino (1509 – 1564)

Jehan Cauvin era o nome de batismo deste influente teólogo protestante francês, que por causa da perseguição religiosa fugiu para a Suíça, onde fundou o movimento calvinista, também chamado de Teologia Reformada. Profundamente religioso, foi influenciado por Lutero, Melanchton, Zuínglio e Bucer. Ele ensinou milhares de estudantes de Teologia em sua academia, fundada em 1559 em Genebra.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Philipp Melanchthon (1497 – 1560)

Philipp Schwartzerdt ("terra preta" em alemão, por isso adotou o Melanchthon, que significa o mesmo em grego). O filólogo e teólogo redigiu a Confissão de Augsburg (1530) e tornou-se o principal líder do luteranismo após a morte de Lutero. Tornou-se conhecido como o "educador da Alemanha" (Praeceptor Germaniae) por reformar o ensino em território alemão.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Ulrich Zwingli (Zwinglio ou mesmo Ulrico Zuínglio) (1484–1531)

O líder da Reforma na Suíça atacou as doutrinas romanas, especialmente a veneração de santos, as promessas de curas, a venda de indulgências e o celibato. Em 1525, conseguiu em alguns cantões a transformação de monastérios em hospitais, eliminou a missa e o uso de imagens nas igrejas, adotando apenas dois sacramentos: o batismo e a ceia.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Thomas Müntzer (1489 – 1525)

O teólogo protestante e reformador alemão Thomas Müntzer foi o primeiro a celebrar a Eucaristia em língua alemã, em 1523. Foi uma figura controversa, com sermões tempestuosos e apocalípticos. Apoiou os camponeses rebeldes na Guerra dos Camponeses (1524) e lutou com meios radicais contra o papado e o sistema de classes.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Martin Bucer (1491 – 1551)

Também conhecido por Martin Butzer, influenciou as vertentes luterana, calvinista e anglicana. Era membro da Ordem Dominicana, mas, influenciado por Lutero, deixou a Ordem em 1521. As ideias reformistas levaram à excomunhão da Igreja Católica e ele fugiu para Estrasburgo, onde agiu como mediador entre os reformadores Lutero e Zuínglio e se juntou a Matthäus Zell, Wolfgang Capito e Caspar Hédio.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Johannes Brenz (1499 – 1570)

Ele introduziu a Reforma em sua paróquia em Schwäbisch Hall alterando sermão, batismo, comunhão e a missa. A lei do matrimônio foi transferida para o âmbito secular. Queria as meninas nas escolas. Alunos com talento, não importando a origem, deveriam aprender latim para terem acesso à escola superior. Brenz e Lutero são considerados os principais autores de catecismo do protestantismo luterano.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Jan Hus (1369 – 1415)

O teólogo e reformador tcheco Jan Hus foi condenado a morrer na fogueira porque se negou a abandonar suas teorias de reforma da Igreja. Ele pregava o ideal da pobreza e condenava o patrimônio terreno dos príncipes da Igreja. Ele defendia a autoridade da consciência e tentava aproximar a Igreja do povo, através das pregações, que eram em tcheco e não em latim, idioma obrigatório na igreja na época.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Johannes Bugenhagen (1485 – 1558)

Foi o primeiro pastor protestante da igreja de Wittenberg, onde celebrou o casamento de Lutero e batizou seus filhos. Ajudou a traduzir a Bíblia e a adaptou para o baixo-alemão. Já doutor em teologia protestante, a partir de 1528 ajudou a expandir a Reforma. Ele redigiu ou revisou as constituições eclesiásticas de regiões do norte alemão e da Dinamarca. É conhecido como o "Reformador do Norte".

Os principais nomes da Reforma Protestante

John Wyclif (1330 – 1384)

O inglês John Wyclif (ou Wycliffe) é considerado um precursor da Reforma. O professor em Oxford assumiu em 1374 uma paróquia em Lutterworth. Naqueles tempos, havia na Inglaterra um forte sentimento contra o papa por causa dos impostos pagos a Roma. Wyclif se baseava na Bíblia para reivindicar a reforma da Igreja e criticava o clero. Ele rejeitava o celibato e o culto a imagens, santos e relíquias.

Os principais nomes da Reforma Protestante

Martinho Lutero (1483 – 1546)

Ao estudar a Bíblia, Lutero desenvolveu quatro princípios teológicos fundamentais. Primeiro: a Bíblia é a única referência da verdade. Segundo: a salvação só vem por meio da graça de Deus, e não pagando indulgências. Terceiro: Jesus Cristo, através da morte na cruz, pagou por todos os pecados e é a única ponte entre os homens e Deus. E, o quarto princípio: as pessoas são salvas somente pela fé.


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